Memórias e histórias

Zé da Lapa: ex-vereador, empresário de sucesso e dono de cinema

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José da Lapa Pinto de Arruda

Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews

 

Ele deixou sua família e uma legião de amigos há oito anos. Hoje, são muitas as lembranças daqueles que com ele conviveram durante os seus 94 anos de vida, quando sempre procurou denotar amor e carinho a todos que o cercavam no dia a dia, seja para um bate-papo ou mesmo para uma realização comercial num de seus empreendimentos.

José da Lapa Pinto de Arruda, o Zé da Lapa da Praça Barão do Rio Branco, da Vila José Bonifácio, do Cine São Luiz. É ele o personagem que o Zakinews enfoca essa semana, em continuidade aos registros dos ilustres filhos de Cáceres que deixaram um legado de trabalho e atenção ao desenvolvimento da cidade.

Foi vereador por duas legislaturas nos períodos de 1955/1959 e 1963/1967 numa época em que o vereador não recebia proventos. Seguia a corrente política da extinta Arena, posteriormente comandada por Júlio Campos e o ex-senador José Benedito Canellas.

Zé da Lapa e seus empreendimentos: Casa Ideal, Vila Bonifácio e Cine São Luiz


Construiu a Vila Bonifácio na Praça Barão do Rio Branco no início dos anos 60. Uma alternativa encontrada para atender uma clientela que chegava para trabalhar em Cáceres e que tinha dificuldades em encontrar imóveis para alugar. A maior parte dos inquilinos era de bancários e militares que vinham servir no 2º Batalhão de Fronteira.

Em 1966, com 44 anos, Zé da Lapa inaugura a moderna e bem equipada Casa Ideal, também na Praça Barão, ao lado de sua residência, uma das maiores do interior do estado. Permaneceu com suas portas abertas durante 25 anos, com uma cativa clientela local e regional, especialmente de consumidores que vinham de outros centros para abrir as chamadas glebas após a Ponte Marechal Rondon.

Em continuidade a sua visão empresarial, José da Lapa inaugurou aquele que se tornou um dos maiores cinemas do interior do Brasil – o Cine São Luiz. O seu primeiro filme rodou no dia 27 de fevereiro de 1971. Empreendimento arrojado e que marcou trajetória de sucesso durante pelo menos duas décadas.

João Deluque e José da Lapa, em Petrópolis-RJ

José da Lapa

O Sr. José da Lapa, filho de José Bonifácio Pinto de Arruda e Adelina Pinto Fanaia, nasceu na então capital federal, o Rio de Janeiro, em 14 de janeiro de 1919, onde a família se encontrava para viagem a Portugal. Porém, devido a pandemia da gripe espanhola, eles ficaram retidos na capital até melhorar a situação.

“Meu pai nasceu no bairro carioca da Lapa, nome que foi incorporado ao seu para não ser confundido com seu primo José Pinto de Arruda”, explica o filho Luiz César.

A família retornou a Cáceres após a melhora da pandemia com o pequeno José, passando toda a infância e parte da adolescência.

Quando então foi estudar no Liceu Cuiabano na capital do Estado, sendo colega do famoso contador Aecim Tocantins, se encantando com essa área profissional.

Vale ressaltar que nessa época as viagens eram longas e penosas até Cuiabá, o lombo do cavalo era o único meio de transporte.

Ainda estudante na Academia do Comércio. Com amigos na praia de Icaraí, em Niterói-RJ


Mudança para o Rio de Janeiro

Zé da Lapa mudou-se para o Rio de Janeiro no início da década de 1940, onde serviu o exército brasileiro e cursou a então Academia do Comércio na Praça 15, dirigida pelo Sr. Cândido Mendes, se formando em contabilidade.

Trajetória

No retorno a Cáceres, exerceu a função de "guarda livros" na prestigiada Casa Pinho, sempre sonhando empreender no ramo do comércio.

Em 1952 montou um comércio simples junto com uma barbearia, com o nome de Casa Ideal, empreendimento que em alguns anos se tornou um grande negócio da família.

Seis anos depois, construiu o prédio atual, transformando o salão térreo na Casa Ideal, residência no pavimento superior e, assim, cresceu contando com a preciosa ajuda de seu braço direito, o gerente Sr. Haroldo Fanaia. O comércio foi gerando frutos, graças a sua capacidade empresarial e tino comercial.

Em 1960, inaugurou a Vila Bonifácio na Praça Barão do Rio Branco, com 26 apartamentos, empreendimento que já alcançou 60 anos desde que foi inaugurado e, até hoje, mantém com os inquilinos.

O prédio maior é a Vila Bonifácio, conhecido como Vila do Zé da Lapa, localizada na Praça Barão do Rio Branco

Foto superior: Fachada da Casa Ideal; na fotro inferior: o empresário Zé da Lapa no interior da loja


O sucesso da Casa Ideal

De acordo com informações do filho Luiz César, a Casa Ideal acompanhou o processo de desenvolvimento de Cáceres e da região. No início, junto com a barbearia, o proprietário Zé da Lapa quis fazer um tributo ao Sr. Medina, cabeleireiro que fez história em Cáceres.

A Casa Ideal vendeu de tudo: guaraná em pó, cigarros, roupas, discos de vinil, televisão, geladeiras, rádios, bicicletas e tudo o que fosse novidade.

A reportagem ouviu dois ilustres cacerenses das antigas, Pedro Paulo Pinto de Arruda Filho, da saudosa Casa Rio Branco, que revelou que teve um certo período que a referida Casa Ideal se destacou no cenário nacional como aquela que mais vendia bicicleta Monark, guardando a devida proporção populacional.

Pedrinho, como é conhecido, também disse ter comprado uma espingarda carabina automática quinze tiros no referido comércio que além de oferecer uma gama de diversos produtos, comercializava armas e munições.

Por outro lado, segundo Ruse Torres, seu pai José Villanova Torres, adquiriu na Ideal uma geladeira à querosene, que era uma verdadeira novidade e relíquia da época. “A Casa Ideal vendia não só para Cáceres, mas também para todas as cidades vizinhas, que experimentavam uma efervescência econômica enorme”, disse.

Interior da sala de cinema do Cine São Luiz no dia da inauguração

Cine São Luiz

Em 27 fevereiro de 1971, Zé da Lapa dá outro grande passo e inaugura o Cine São Luiz, com o que existia de mais moderno no cenário nacional, capacidade para 790  pessoas. Tudo isso funcionando interligados: casa, comércio, cinema, vila, etc. (veja matéria alusiva ao cinema no link…)

A Casa Ideal encerrou suas atividades em meados de 1986, após 15 anos de atividade, deixando a cidade sem cinema até o surgimento do Cine Xin, instalado no mesmo local, em atividade até os dias atuais.

Bruno e Daniela (de pé) com Nádia, avós Zé da Lapa e Elina e César


Família

José da Lapa casou-se em 14 de janeiro de 1953 com a Sra. Elina Rondon, filha de Antonio Alves Rondon e Oliva Rondon de Mello. O casal teve dois filhos, Aparecida Nátia Pinto de Arruda e Luiz César Pinto de Arruda.

Ele sempre gostou de Cáceres e soube dar valor à vida. “Foi um homem simples, católico devotado. Como ser humano marcou de forma definitiva a alma de seus familiares e amigos, demonstrando para todos como é maravilhoso viver e envelhecer de forma honrada e íntegra, sentado em sua cadeira de balanço na porta de casa, rodeado das pessoas que amava, pescando ou nadando nas aguas do rio Paraguai”.

Casal Elina e Zé da Lapa Pinto de Arruda = Foto: álbum de família e arte Paulo Fanaia


Clube Humaitá

O caçula Luiz César descobriu nos guardados (relíquias) do pai anotações que apontam ele como um dos fundadores do Clube Humaitá e ex-ponta direita do Azul e Branco da Coronel José Dulce, como era carinhosamente chamado pelos seus fanáticos torcedores.

Na sociedade, estava sempre apto a colaborar com as promoções beneficentes. Foi contribuinte permanente por décadas do Hospital O Bom Samaritano, Apae, Lar das Servas de Maria (Abrigo dos Velhos).

Lembranças

A reportagem ouviu algumas pessoas que conheceram o empresário, caso de Lúcio de Oliveira Filho, ex-vereador e que reside em Cuiabá. “Conheci o Sr. José da Lapa em meados de 1976 quando trabalhava no extinto Banco Financial do qual era cliente. Naquela época, além do Cine São Luiz, José da Lapa era proprietário da Casa Ideal que, por sua vez, era o maior vendedor de bicicletas de Cáceres e região. A loja era gerenciada pelo Sr. Aroldo Fanaia”, conta Lucio. 


João Bosco de Oliveira, ficou conhecido como João da Lapa, pela longa amizade que tem com a família

José da Lapa Pinto de Arruda, ao longo da sua vida empresarial, também teve outros funcionários que ultrapassaram a barreira de serem apenas colaboradores e passaram a ser verdadeiros amigos, considerados membros da sua família, como João Bosco de Oliveira, Suely e Felício Kawai.

Hoje, João Bosco é taxista e também conhecido como João da Lapa devido aos 38 anos presentes na vida do homenageado. João trabalhou no cinema, tomou conta da Vila, foi motorista e companheiro de pescaria.

Ele relembra que seu patrão era muito generoso com sua família e costumava perguntar como andava os estudos dos filhos, sempre querendo ajudar.

A filha do João, Adalbiana Oliveira, servidora da prefeitura de Cáceres, contou ao Zakinews a grande amizade que seu pai tinha com o Zé da Lapa. “Era mais que patrão, era amigo, um pai para o meu pai”, revelou.

Uma rotina que João tinha com a família era o compromisso de levar, todos os dias, antes do almoço, o Zé da Lapa até o Iate Clube para nadar nas águas do Rio Paraguai.

Outra lembrança de Adalbiana é a saudade do bolo de nata e leite com Toddy que a dona Elina fazia para ela e seu irmão. “Seu José da Lapa e dona Elina foram meus avós do coração, sempre muito carinhosos”, contou.

Mesmo após o falecimento de seu patrão e amigo, em 2013, João ainda mantém vínculo com a família Pinto de Arruda. É a amizade plantada que ainda perdura entre eles.


Suely Kawai com seu esposo Felício (de pé) e filho Gleidson, em pose com o casal Elina e seo Zé da Lapa

A contadora Suely Rondon Kawai (in memorian), trabalhou por quase 30 anos com o empresário da Praça Barão. Iniciou na Casa Ideal, posteriormente, fez a contabilidade do Cine São Luiz e cuidava das locações das kitnets da Vila José Bonifácio. Seu esposo, Felício Teiiti Kawai, também teve um período de 10 anos como colaborador junto ao cinema da família do Zé da Lapa.

O calçadão da Praça Barão do Rio Branco era presença frequente do casal Zé da Lapa e Elina que recebiam amigos para um bom bate-papo

Porta do Zé da Lapa – Patrimônio público

Convidado a falar sobre a trajetória vitoriosa do tio, o engenheiro aposentado Paulo César Homem de Mello, enalteceu a trajetória vitoriosa do empresário de sucesso que marcou época na vida de Cáceres.

Revela que foi o autor dos anteprojetos das edificações idealizadas pelo tio e que mais tarde tornaram-se realidade: a casa comercial e o cinema.

Paulo ressalta o grande círculo de amizades mantidas pelo empresário, “desde pessoas mais simples a políticos famosos e gente de sucesso, em visita a Cáceres, tinham que passar pela porta do Zé da Lapa sentar e conversar”.

Virou um hábito salutar a roda de bate-papos no local. Paulo defende a ideia de que a Praça Barão deveria virar patrimônio público, dada a história que ali foi vivida ao longo de marcantes e significativos anos na vida de Cáceres.

A família reunida: Zé da Lapa com a esposa Elina, filhos Nádia e César, o neto Bruno com a esposa Daniela e os bisnetos


Bondade, sua principal característica

No encerramento da matéria, a reportagem ouviu o neto do homenageado, o Procurador do Estado, Bruno Homem de Mello. Emocionado, ele lembrou de cada uma das marcantes passagens vividas ao lado do avô. Das pescarias no rio Paraguai, dos passeios na Chapada dos Guimarães, San Mathias, Peraputanga e por aí vai.

“As melhores lembranças de meus avós. Todos com 90 anos e eu na companhia deles, sinto-me um privilegiado por desfrutar dessas maravilhosas companhias num período muito significativo e marcante”, disse Bruno.

Bruno enaltece as qualidades do avô, descrevendo-o como um homem de bom coração, do bem, ser humano de alma boa, caridosa e bondosa. Um empresário bem-sucedido, ativo, que sentia o maior prazer em morar em Cáceres. “Nunca perdeu a alegria de viver, tinha alegria pela vida, gostava de estar bem próximo dos familiares, de conversar e receber os amigos. Mesmo com a idade avançada, gostava de festas, de confraternizar e celebrar a vida. Era verdadeiro líder da nossa família”, ressalta Bruno.

Com esse carinho e amor pelos familiares e amigos, que Zé da Lapa festejou seu último aniversário, aos 94 anos, dias antes de partir definitivamente para a Morada Eterna.

 

 

  

 

 

 

4 respostas

  1. Eu, e a minha familia so temos a agradecer a voce Kishi e Toninho por essa comovente homenagem prestada ao meu amado pai, entao conhecido como Ze da Lapa. E um privilegio ser filha de um ser humano tao especial !!! Nos deixou um legado de um ser humano.impar!!!! Como amava Caceres, sua familia,seus parentes, amigos,companheiros de jornada, nessa sua exemplar trajetoria de vida !!!!! Agradeco tambem as pessoas que junto com ele o ajudaram a tecer essa linda jornada de vida. Ele nos deixou um legado de vida como exemplo para seus descendentes, amigos e todos que conviveram com ele. Saudades dessa pai tao presente!!!!!!!

  2. um grande empresario pra epoca, ze da lapa construiu uma vida de sucesso com muita sabedoria e uma simplicidade unica… essa homenagem foi mais que merecida…

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