Esse texto é um fragmento a história de uma migrante japonesa Yukie Narita Fanaia conhecida por Joana Fanaia, minha mãe.
Os meus avós Hatsu Narita e Kanshiro Narita vieram do Japão para o Brasil em 1933, pós 1ª guerra mundial e o Brasil já incentivava a política imigração devido o processo de industrialização do País, era necessário mão de obra qualificada. No entanto havia divergências nos embates políticos sobre a entrada dos japoneses no Brasil. Nesse contexto quando a família Narita chegou a estabeleceu residência em Araçatuba (SP). Nessa região ficaram aproximadamente alguns anos e vieram para o Mato Grosso em 1953 saindo de Marilia para a Gleba Rio Ferro hoje cidade de Feliz Natal.
No Brasil, Getúlio Vargas alimentava o seu projeto político o de construir um novo País após a revolução de 1930, e o Departamento de a propaganda DIP – difundiu a política da Marcha para Oeste. Em 1937 um embaixador do Japão Barão Shudo em Genebra levantou a tese de que as regiões inexploradas deveriam ser cedidas a países ricos e populoso, e foi com esse olhar que Getúlio prosseguiu com a ideia de “preencher os espaços vazios” a política da Marcha para o Oeste. Após a 2ª guerra mundial, muitos imigrantes japoneses foram atraídos por meio de projetos de colonização e expansão da fronteira agrícola. Nesse contexto, tinham a certeza de que, se tornariam proprietários uma vez que o discurso de Getúlio era combater os grandes latifundiários. No entanto, muitos que migraram para o interior do Mato Grosso se tornaram em sua maioria um pequeno produtor rural, sem recursos para investimentos, esse é contexto que faz parte da história de vida de minha mãe. Na década de 1950 os imigrantes japoneses ganharam visibilidade nos discursos da Assembleia Legislativa, ou seja, eram as pessoas ideais para dinamizar a economia do Estado (Silva, 2022). O empresário Matsubara (in memorian), em 1951 empenhou na candidatura de Getúlio para presidência e seu filho Paulo colonizou a extensa área do Rio Ferro, nascido em Cabrália Paulista. Muitas famílias foram para Dourados área agrícola também administrada por Matsubara e outros para a região da Gleba Rio Ferro-MT hoje município de Feliz Natal. A empresa colonizadora Rio Ferro comprometeu em viabilizar o desbravamento e a colonização da área de terras que lhe foi concedida isso estava com Departamento de Terras e Colonização (DTC) (Silva, 2023, p.15).3, p.15.).
A 1ª caravana que deslocou do interior de São Paulo para a Gleba Rio Ferro, foi chefiada por Yoshito Narita (irmão de minha mãe), e continha uma média de 10 famílias compreendendo umas 54 pessoas (Silva 2023, p.86). Já a 2ª caravana meu avô Kanshiro Narita esteve entre os integrantes e nessa continha 64 pessoas. Interessante que, para Getúlio o japonês tornou-se inimigo e num outro momento histórico era o colono ideal identificado como mão de obra qualificada. Quanto ao trajeto de Marilia ao Mato Grosso era uma média de 2 mil quilômetros a estrada de chão e num caminhão estavam as famílias, mobílias, ferramentas de trabalho, alimentos (Silva, 2023, p 99). Na época, o projeto político de Getúlio Vargas, denominado Marcha para o Oeste, tinha como objetivo ocupar os chamados ‘espaços vazios’, considerados desabitados, desconsiderando a presença das populações indígenas. O governo privilegiou a concessão de glebas para empresas privadas, com intenção de que realizassem o trabalho de abrir estradas, e formassem núcleos de povoamento e mais tarde as cidades, isso ocorreu com apoio de colonizadores e do governo na década de 50, as terras mato-grossenses foram representadas como o novo “EL Dorado”.
No entanto é preciso lembrar que, de modo geral que os japoneses em diversos momentos históricos foram considerados “o outro”, pois o contexto da época era permeado por discussões sobre a raça, nacionalidade e principalmente pelos horrores causados pela 2ª Guerra mundial (Silva,2023, p.51). Os japoneses foram alvos de discriminações e na vida de Joana Fanaia isso não deve ter sido diferente. Segundo ela, isso não foi problemático e nem trava para sobreviver. Por outro lado, quando olhamos para uma área- uma região de Mato Grosso não devemos desvincular a presença dos japoneses que construíram histórias, teceram episódios em algumas cidades como Tangará- da Serra, Dourados (MS)-Feliz Natal e outras. Para Silva (2023) os atores sociais tinham sonhos expectativas já que a terra promissora proporcionaria uma nova fase de vida. Foram as mãos dos colonos japoneses que construíram imagens no novo espaço a ser reocupado (Silva, 2023, p 99).
A família Narita estabeleceu moradia na área da Gleba Rio Ferro, trabalharam na colônia. Joana- nissei (filha de japonês) nasceu em 1942-em Araçatuba e hoje completa 84 anos, e quando veio para o Mato Grosso no 2º governo de Getúlio Vargas em 1953 vivenciou diversas experiências na gleba Rio Ferro.
O irmão de minha mãe Yoshito esteve à frente do trabalho na Gleba Rio Ferro- e joana Fanaia conta sobre a presença de mulheres: “quando chegavam autoridades, era na cozinha da mãe dela e da cunhada que se alimentavam, minha irmã juntamente com outras 03 mulheres trabalhava abrindo picadas pela selva, outras na educação escolar.” Lembrando que a escola era uma das estruturas do projeto agrícola, ou seja, a contribuição feminina no projeto político da Marcha para Oeste pouco mencionada na historiografia, aparentemente os homens foram os protagonistas.
No local, a família Narita ficou uma média de 02 anos depois viram que não se tornaram proprietários, retornaram a Cuiabá, e nesse espaço urbano minha mãe estudou no Liceu Cuiabano, trabalhou na década de 1950 no escritório da Intermat – Departamento de terra do Estado de Mato Grosso, onde era realizado o registro das terras. Com o passar do tempo conheceu meu pai porém, na época na cultura japonesa geralmente a união conjugal ideal deveria ser com japoneses fossem nisseis ou sanseis e nesse caso Joana quebrou paradigmas e por tempos perdeu contatos com os laços familiares uma vez que, seus pais retornam a São Paulo.
Cáceres: Encontros e pertencimentos
Em Cáceres passou a residir com meu pai Osíris Fanaia e minha avó paterna – Nair A. M. Fanaia. Vamos imaginar a convivência de uma jovem nissei com um descendente português, e uma afro brasileira, culturalmente quantos costumes adquiridos e quantos outros deixados de lado. Dessa união obteve 04 filhos – Maria de Lourdes-Argélia, Francisco e Joasir e hoje possui 12 netos e 5 bisnetos. Yukie ajudou Osíris na tinturaria- (a única da cidade), ou seja, criou os filhos soprando ferro a brasa durante tempos. Na época, o tecido das roupas era de linho, de algodão sendo assim, muitas vezes exigia que a roupa fosse engomada.
Além disso Joana sempre esteve presente na educação dos filhos, era ela quem ia na escola nas reuniões, verificar as notas, era ela que durante anos sentava conosco para fazer as tarefas, atividades escolares- era quem preparava o lanche que levávamos para a escola. Ah meu inesquecível pão com ovo, que delicia na hora do lanche poder saborear todos os dias, imaginem vocês o compromisso e as dificuldades com a labuta do dia a dia- soprar a brasa do ferro para comprar pelo menos o pão e o ovo da criançada.
Com o passar dos anos minha mãe começou a costurar e confeccionar roupas para as clientes, fosse para noivas, madrinhas de casamento-bailes de debutantes- réveillon, festas de 15 anos- bodas de prata e de ouro, além disso desenhava, criava os modelos, uma verdadeira estilista. Criou a sua arte e a sua marca, ou sua grife. Cáceres até a década de 1980 era uma cidade que tinha 02 a 03 clubes sociais. Então, os bailes e as festas familiares eram constantes. Lembro-me dos vestidos que ela confeccionava para mim. Quem os via logo percebia o talento de suas mãos habilidosas. Eram peças únicas, muito diferentes daquelas encontradas, no mercado da moda, os detalhes representavam seu talento, dedicação e criatividade, tornando cada vestido especial. Mais do que simples roupas, representava uma grife mostrando exclusividade, criatividade e a identidade e habilidades que permanecem vivas em minhas lembranças. Quantas mulheres em Cáceres vestiram roupas confeccionadas por ela, e através disso estabeleceu as relações sociais e culturais, hoje denominamos isso de networking.
Ela também participou do grupo de mulheres cursilhistas, um movimento religioso que contribuiu para ampliar suas relações sociais. As atividades desenvolvidas no âmbito da igreja configuraram-se como mais um elemento significativo na construção de vínculos comunitários e na organização da vida familiar. As pessoas frequentavam a casa Joana Fanaia tanto para a obtenção do serviço de tinturaria quanto para as confecções das roupas. Nesse ambiente, o universo artístico o de cuidar das roupas e o de criar as confecções, e as aulas particulares (que minha avó ministrava) acredito que proporcionaram aos 04 filhos uma dimensão maior contribuindo com na educação informal. E na gastronomia? ela é única não há quem não ganhe uns quilinhos experimentando os temperos e sabores feitos por ela por mais simples que seja o alimento. Quem já provou do yakssoba, da carne seca com arroz e a paçoca, entre outros pratos que ela faz, um sabor inigualável.
Para finalizar este fragmento da história de vida de Yukie, evidencia-se a força de uma mulher que rompeu paradigmas e que trilhou caminhos até então desconhecidos. Ainda muito jovem, seguiu novos horizontes, embora sua trajetória tenha sido marcada por desafios e conquistas não significa que as dificuldades foram poucas, porém, construídas com esforço e determinação. Sua escolha de vida não foi simplesmente traçada pela família, mas resultado de sua arte e capacidade de proporcionar destinos aos seus descendentes. Em Cáceres, Joana consolidou seu espaço e seu reconhecimento social; afinal, quem na comunidade da Igreja São Miguel não a conhece? Mais do que uma presença marcante, ela se tornou um verdadeiro alicerce para sua família, fonte de inspiração, dedicação e afeto. Sua história revela não apenas a experiência da migração, mas também a coragem, perseverança e da capacidade de transformar desafios, deixando legados que atravessam gerações.
Você é uma inspiração para todos nós. Reconheço seu valor, sua maneira de compreender e transformar caminhos, extrapolou barreiras com muita sabedoria e poucas pessoas possuem até porque não existe uma escola sobre isso. Hoje, o mundo digital passa a conhecer uma protagonista por meio de sua história e de sua sensibilidade, que ultrapassou as fronteiras culturais, uma trajetória que envolveu uma conexão hibrida; Japão, Portugal, o laço afro brasileiro, São Paulo e o Pantanal cacerense. Feliz aniversário!

























