Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews
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A profissão de alfaiate praticamente caminha para sua extinção em Cáceres. São pouquíssimos os que ainda estão no trabalho de cortar o tecido e preparar peças de roupas ajustadas ao corpo do cliente, seja homem ou mulher. Não vai tardar o dia em que esse imprescindível profissional será lembrado na saudade daqueles que vestiram peças confeccionadas por ele na medida certa do corpo.
Ao homenagear esse profissional essencial na vida das pessoas, em Cáceres pelo menos 3 deles ainda manuseiam a tesoura e a fita métrica com maestria: Totó Alfaiate, Guilhermino (Japão) e o personagem principal desta matéria:
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MIGUEL JOSÉ OURIVES
Natural: Cáceres/MT
Data de nascimento: 29/07/1946
Pai: Antonio Ourives
Mãe: Anatália Motta Ourives
Irmãos: Antonio (falecido), Orlando, Edir, Luiz José, Pedro Paulo (falecido) e Carlos César (Canhento).
Filhos: Paulo Cesar, Enilson José e Fábio
Dona Anatália, doceira de primeira qualidade. Seus produtos eram comercializados na cidade de Corumbá-MS
Acervo de Edir Ourives |
O pai Antônio Ourives foi durante 30 anos telegrafista dos Correios e Telégrafos. A mãe dona de casa e reconhecida doceira. Por vários anos Dona Anatália preparava doces em calda e cristalizados de caju, abóbora, laranja, goiaba que eram levados para serem comercializados em Corumbá-MS, através das lanchas do empresário Jorge Kassal ou Kassab.
Mas voltando ao personagem central, Miguel Ourives. Jogou bola com crianças de sua idade no campo de futebol onde hoje se localiza a Praça Duque de Caxias. Recorda ele que todas as tardes a criançada das ruas próximas, Seis de Outubro, 15 de novembro, compareciam para animadas peladas.
Ele estudava no Grupo escolar Esperidião Marques, posteriormente frequentou aulas no Colégio Estadual Onze de Março – CEOM. Nas folgas tinha que dividir o tempo entre o jogo de bola e as idas na Chácara dos Atala onde apanhava caju para a mãe preparar o solicitado doce que só ela sabia fazer tão bem.
Aos 15 anos seus pais assinaram documento em cartório autorizando sua participação em jogos com adultos no extinto Estádio Mato Grosso. Miguel era considerado polivalente pois atuava nas duas laterais e se preciso, fazia o meio de campo também.
Durante 15 anos foi atleta do Cacerense dirigido pelo grande desportista do passado, Alberto Zattar. Ele posteriormente atuou pelo Cacerense comandado pelo Sargento Edson, e o São Vicente, de Renato Garcia.
Miguel Ourives durante uma das atividades no 2º Bfron – Acervo: Edir Ourives
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Em 64 serviu o Exército
Ao completar 18 anos, Miguel Ourives cumpriu a sua obrigação militar no 2º. Batalhão de Fronteira no ano de 1964. Do exército aprendeu o respeito e a disciplina, pilares que considera fundamentais na vida do cidadão de bem.
Paralelamente as obrigações militares, o homenageado começava a receber as primeiras noções daquela que seria a profissão para garantir-lhe o sustento para o resto da vida. Aprendia a profissão de alfaiate no horário das seis às onze e meia da noite, graças a disponibilidade em ensinar-lhe pelo profissional surgido na cidade, conhecido por Menezes Alfaiate.
Ele via em Miguel a possibilidade do surgimento de um profissional da tesoura, razão pela qual não demorou muito para convidar o jovem aprendiz para abrirem uma alfaiataria na cidade, o que ocorreu logo após Miguel ter dado baixa do exército.
Passados alguns meses o professor resolve mudar-se para Corumbá. Miguel então tem que assumir sozinho os compromissos na confecção das roupas dos clientes que começam a surgir. Até hoje ele ainda se lembra do primeiro cliente: Manoel Laranjeira que dele vestiu as primeiras calças feitas pelo recém-formado alfaiate. Gostou e aprovou o que vestiu que virou um dos principais clientes.
A alfaiataria do Miguel funcionou durante vários anos em dois endereços, Rua Coronel Faria, Rua Tiradentes. Hoje se localiza na Rua Riachuelo em uma sala anexa a própria residência do alfaiate à Praça da Cavalhada.
Do mestre que lhe ensinou cortar o tecido, manusear a tesoura e pedalar a máquina Singer, Miguel sabe que de Corumbá ele mudou-se para Cuiabá onde trabalhou até vir a falecer.
Miguel até hoje utiliza a máquina Singer que o seu pai Antônio Ourives adquiriu na Casa Ideal para que a filha Edir aprendesse a profissão de costureira, como ela não teve inclinação para a profissão, ele passou a utilizar a máquina, e lá se vão quase 60 anos de trabalho no referido equipamento.
Miguel e a compenheira Singer ao longo de quase 60 anos – Foto: Wilson Kishi
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Clientela fiel
O agora experiente e reconhecido profissional ainda se lembra dos primeiros serviços que pegou. A exemplo da confecção dos uniformes da Guarda Municipal da Prefeitura de Cáceres.
Ele também costurou para clientes dos municípios próximos, aliás, até hoje mantém essa fidelidade. A clientela costumeiramente o procura quando tem a necessidade de reparos, ou de um terno ou uma calça nova para participar de uma festa.
Em Cáceres ele cita o ex-vereador Manézinho da Soteco como um dos clientes fiéis. Se lembra também de um que já partiu para a eternidade: “o doutor José Roberto Alvarez, desde que chegou a Cáceres, me escolheu para fazer suas roupas”, revela a preferência do famoso neurologista pelo seu trabalho de artesão nato.
Ele costura tanto para homens como mulheres. Ainda por ocasião da entrevista o repórter constatou a visita de uma cliente, a professora Rosângela Rocha. Ela é da opinião que a referida profissão é rara e essencial.
Miguel Ourives continua debulhando as preciosas informações da profissão, e, aos poucos vai recordando uma a uma. Por exemplo, revela que aprendeu fazer ternos com o descendente de japonês Tonikite Mitsunoma, paranaense que veio conhecer Cáceres, aqui ficou durante 25 anos trabalhando em sua alfaiataria.
Lealdade, respeito e companheirismo. Adjetivos que certamente fizeram com que dois ex-funcionários com Miguel dividissem os trabalhos na alfaiataria por longos anos, são eles – Odózio (30 anos) e Guilhermino, o Japão que trabalhou com Miguel durante 20 anos. Hoje continua na profissão, mas com vida própria.
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“Quem me indicou essa profissão foi Deus”
Totalmente satisfeito e agradecido com a profissão, ele não pensa parar tão cedo com a tesoura muito menos com as peladas costumeiras no Campo do DNER. “O coração em dia e as pernas boas, não pretendo parar de fazer aquilo que aprendi a gostar ao longo da vida”.
Ourives é grato ao ofício de fazer roupas. Não sabe como foi que decidiu pela profissão, haja vista que ninguém da família costurava, a não ser sua mãe, nos reparos caseiros. “Não passava pela minha cabeça eu costurar roupas. Por isso acredito que deva ser uma indicação de Deus”.
O homenageado com os companheiros do Peladão do DNER
Fotos: Wilson Kishi |
A família
Miguel Ourives e Ana Lilys de Paula Ourives estão casados há 53 anos de uma feliz união, resultando no nascimento de 3 filhos: Paulo César Ourives (funcionário público), Enilson José de Paula Ourives (Consultor Automotivo), dr. Fábio Ourives (médico). Os 7 netos completam a alegria da família.
Durante a fase aguda do Covid, o filho Paulo César é quem cortava o cabelo
Foto: Acervo de família |
A conquista
Miguel tem hoje a sua companheira de 50 anos, mas lembrar dos tempos de conquistas, é saber que naquele tempo era necessário um pouco de coragem e persistência. Ele morava na Rua Tiradentes em frente a hoje Praça Duque de Caxias, ela no bairro da Cavalhada. Naquele tempo os rapazes não aprovavam as moças conversarem com rapazes de outros setores da cidade, namorar então, era praticamente impossível. Interessado naquela moça que viera de Miranda, hoje cidade do Mato Grosso do Sul, Miguel foi corajoso e persistente. Visitava o bairro constantemente na companhia de alguns amigos, foi assim, que acabou conhecendo a sua pretendente; namoraram, casaram e são felizes.
A mulher Ana Lilys costuma ajudar o marido quando o mesmo está sobrecarregado de serviço, ela então entra em ação desmanchando costuras, etc. Costuma costurar suas roupas, mas, separadamente em seu atelier próprio.
A união e a amizade entre todos os integrantes da família predominam. Miguel faz questão de enfatizar algumas lições ou ensinamentos trazidos dos pais.
– Fui criado num tempo em que os filhos ouviam os pais.
– Antigamente os filhos recebiam uma ordem e cumpriam. A exemplo do horário de voltar para casa. Ou a determinação do pai, “hoje ninguém sai para rua”…
“Fundamental impor limites na criação para que a ordem e o respeito prevaleçam”.
Miguel Ourives, o Alfaiate, não costuma usar celular, e justifica: “quem precisa do meu serviço me procura, sabe onde moro”.
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