Memórias e Histórias

Jacobina: marinheiro, comerciante e vendedor ambulante de pescado

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Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinew

 

O homenageado em frente a fachada de sua mercearia, localizada na esquina da Rua João Pessoa com a Praça Major João Carlos
Foto: Arquivo de família
 
 


Vários foram os personagens que fizeram história como ativos comerciantes do passado e que com o modo peculiar de trabalhar, contribuíram significativamente para fomentar a atividade na praça de Cáceres.

Alguns comerciantes de antigamente já tiveram suas histórias de trabalho registradas nas páginas do site. Outros certamente que também serão lembrados e ocuparão esse mesmo espaço de homenagem e reconhecimento do trabalho que dedicaram a Cáceres, caso do Seu Teté Cuiabano, João Perereca, João de Jorge, Ibrahim Seba, Tico Moreira, Seu Inacito entre outros.

Zakinews nesta oportunidade procura registrar a trajetória do comerciante conhecido por Jacobina Peixeiro que durante 35 anos marcou registro no cenário cacerense com o seu estabelecimento comercial localizado na Rua João Pessoa esquina com a Praça Major João Carlos, bem na área central.

“Olha o peeeixe”

Assim o comerciante várzea-grandense de secos e molhados, além de vendedor ambulante de peixes durante 35 anos, anunciou o seu principal produto pelas ruas e avenidas centrais de Cáceres.

 

GERVÁSIO ANTÔNIO JACOBINA

Natural de Várzea Grande/MT
Data Nascimento: 13 de outubro de 1923
Pai: Antônio Alberto jacobina
Mãe: Maria Cezarina Jacobina
(falecida no parto do próprio Gervásio)
Era o caçula de 5 irmãos

Jacobina (primeiro da esquerda para direita, em pé) em grupo de alunos do Colésio Salesiano São Gonçalo, em Cuiabá
Foto: Acervo de família


Na falta da mãe, passou a infância e adolescência aos cuidados de uma das irmãs em Cuiabá, onde estudou no Salesiano São Gonçalo, trabalhou de office boy. Adulto, aos 37 anos, mudou-se para Cáceres no ano de 1960 quando começou com o comércio de secos e molhados na Rua João Pessoa esquina com a Praça Major João Carlos. Nesse local permaneceu de portas abertas até o ano de 1995, atingindo assim 35 anos de atividade ininterrupta, sendo um dos mais antigos a exercer a atividade na praça de Cáceres.

Aqui casou-se com a cacerense Adília de Oliveira e o casal teve 3 filhos; desse modo o homenageado foi pai de 8 filhos, 5 do primeiro casamento.

Jacobina serviu a Marinha na cidade de Ladário/MT, hoje MS, onde foi Fuzileiro Naval – Arquivo de família

30 anos como marinheiro

O interessante na história de Gervásio Antônio Jacobina, foi que ele durante 30 anos serviu à Marinha do Brasil. Na década de 40 ingressou no serviço militar em Ladário-MS. Após alguns anos veio transferido para Cáceres e aqui permaneceu até entrar para a reserva, conforme revela a sua companheira de 34 anos Adília de Oliveira Jacobina.

Mesmo como marinheiro, Jacobina exerceu paralelamente trabalho na sua bem montada mercearia. Foi vendedor de pescado, verdureiro, e, ainda, empurrou carrinho até os parques e circos que cotidianamente eram armados em Cáceres, quando comercializava pipoca e amendoim torrado.

O trabalho para ele era como se fosse uma diversão. Na madrugada estava na beira do rio Paraguai adquirindo pescado. Entre os pescadores tinha um que era seu fornecedor principal: Urbano Kurossaki, o filho mais velho da saudosa Dona Conceição, do Restaurante da Japonesa.

Após ter adquirido o pescado, retornava para casa, tomava café e estava apto para cumprir mais um dia de trabalho na marinha. A farda era impecavelmente engomada e passada com ferro à brasa graças a dedicação da companheira Adília.

Na foto acima, o marinheiro Jacobina, atrás do Capitão Juvenal e a sua direita está Caxito e na sua esquerda, Acácio.
Foto: Acervo de família

Aqueles que conheceram a mercearia aqui relatada, recordam que a mesma era bem abastecida de gêneros alimentícios: arroz, feijão, farinha, café, banha de porco, trigo, macarrão, doces caseiros, rapadura de pura cana, outras de massas adicionadas a exemplo da de abóbora, mamão verde, leite, amendoim, etc. Produtos que os sitiantes da região da morraria transportavam em carro de boi para abastecer o mercado que por décadas funcionou na Praça Major João Carlos no prédio onde anos atrás estava o museu.

Jacobina com os netos na Praça Major João Carlos, ao fundo, parte da fachada da mercearia

Pescado como carro chefe

Durante os anos de trabalho ele sempre deu uma atenção ao pescado dos rios desta parte do pantanal. Adquiria as espécies dos pescadores que viviam da atividade, e revendiam o produto em seu comércio. Na maioria das vezes percorria as ruas e avenidas de Cáceres anunciando o produto: “Olha o peeixe”!

Ele também fazia ponto na feira livre onde além de peixes, revendia verduras fornecidas pela Dona Maria Japonesa, que se tornou a pioneira e uma das maiores a cultivar verduras e legumes na cidade. Os dois se tornaram grandes amigos.

Ainda conforme relato da viúva, o pescado que não era comercializado era salgado e ficava à disposição da freguesia em sua mercearia. Esse tipo de peixe (salgado) era bastante procurado na Cáceres de antigamente para virar saboroso prato ensopado com mandioca.

Dona Adília, a companheira de 34 anos de convivência
Foto: Wilson Kishi


Dona Adília foi babá de uma das filhas

A viúva revela que na adolescência trabalhou de babá em algumas casas de famílias influentes de Cáceres. Foi nessa época que Jacobina pediu ao pai que a jovem cuidasse de uma de suas filhas do primeiro casamento.

Foi quando o mesmo foi acometido por malária. Recebeu cuidados médicos do dr. Geraldo Correa da Costa pertencente ao 2º. Batalhão de Fronteira. Este receitou alguns comprimidos de aralen e injeções. O paciente teimosamente evitou as injeções. Desse modo a doença evoluiu para um quadro bastante grave. “Ele ficou com uma enorme barriga e só couro e osso”, conta Dona Adília.

Diante do quadro grave da doença, Jacobina pediu que a babá lhe aplicasse as injeções, mesmo sem que ela soubesse a mínima noção de enfermagem. Ele prontificou esterilizar a seringa e ela num ato de coragem aceitou o desafiou.

Logo o doente estava salvo. Ali começava uma relação afetiva que os tornaria marido e mulher.

O homenageado com seus filhos e netos


Dessa união nasceram 3 filhos. Um deles, Laércio Jacobina, 56, recorda do pai como um bom apreciador de músicas desde a clássica até passando por Alcione e o seu sax, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Chitãozinho e Xororó. Lps que ele adquiria no Rei do Disco, do Assis que funcionava na Rua Comandante Balduíno.

Ouvindo música, brincando com os netos, ele, que não bebia e não fumava, era bastante caseiro. Algumas vezes era convidado para uma festinha ou confraternização na residência dos comandantes que passaram por Cáceres, a exemplo dos capitães Gusmão, Juvenal. No cardápio a tradicional peixada cacerense que ele sabia como ninguém preparar.

Da saudosa lembrança do marido, Dona Adília guarda sua retidão, a fala mansa e pausada, a cordialidade no trato com os familiares, amigos e clientes. Era um gentleman, educado, respeitador, ótimo pai e companheiro.

Jacobina veio a falecer em 1996 aos 73 anos.

CAPAS DE LPs ADQUIRIDOS POR JACOBINA,

AINDA GUARDADOS COM CARINHO

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