Ernesto Mitsuru Kobari, 82 anos – Foto: Wilson Kishi
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Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews
“É preciso saber viver…”, é o refrão da melodia dos Titãs, e, pelo que parece, está incorporada na maneira que este cidadão descobriu para continuar tendo o gosto pela vida e não se cansar de estudar para ter o puro prazer em aprender coisas novas nesta existência.
A matéria da semana traz as lições de vida de um filho de japonês cujos pais migraram para o interior paulista na década de 40 fugindo da guerra e foram se estabelecer na pequena Alvarez Machado-SP, hoje praticamente incorporada a cidade de Presidente Prudente.
Ernesto Mitsuru Kobari é o personagem principal desta semana que o site apresenta.
Nasceu aos 10 de abril de 1940 em Alvarez Machado-SP. Filho do casal Hiroshi Kobari e Tika que nasceu na província de Fukushima. Eles tiveram 11 filhos, sendo que Ernesto é o caçula. Hoje da família que veio tentar a sorte no Brasil só restam 3 vivos.
Onde a família veio a se estabelecer existiam aproximadamente 600 famílias, e anualmente se realizava a cerimônia intitulada Shokonsai (culto aos antepassados) no cemitério onde estavam sepultados os migrantes japoneses.
![]() Ernesto no Japão aos 12 anos – Foto: Álbum de família |
Ernesto, à esquerda, com irmão mais velho e amigos – Foto: Álbum de família
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Infância de felicidade
À reportagem Ernesto Kobari que estudou até o antigo Admissão, disse ter tido uma infância “cheia de felicidade onde tudo era novidade”. Recorda do casebre coberto por sape onde a família morava como arrendatária num pequeno sítio de 12 alqueires adquirido pelo pai que plantava café com ajuda dos irmãos mais velhos.
A grande geada de 1944 que se abateu sobre o Estado de São Paulo dizimou os cafezais incluindo o da sua família. Com muito trabalho a família pôde comprar as terras que arrendavam e ainda puderam expandir a área da pequena propriedade com a aquisição de mais 9 alqueires adquiridos de um vizinho, isso no ano de 1952.
Passados 5 anos o pai falece. Ernesto vê se órfão aos 17 anos e passa a receber ordens do irmão. Até hoje ele sente saudade do pai: “ele era muito bom. Gostaria de ter vivido muito mais tempo com ele”.
Ernesto Kobari carrega um sentimento que faz questão de manifestar: “naquele tempo o trabalhador era como se fosse um escravo dos donos das fazendas. Não tinha horário para começar muito menos para encerrar as atividades diárias. Antes do sol nascer já estava de pé no trabalho, só parava com a escuridão da noite”. Assim ele viveu esses árduos tempos sob a supervisão dos irmãos mais velhos. Ernesto afirma que o sitio onde eles moravam, hoje só restou a saudade, pois lá está encravado o aeroporto de Presidente Prudente.
Em Tupã/SP, com superiores messiânicos – Foto: Álgum de família
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Ministro Messiânico
Nas cinco décadas que mora em Cáceres, Kobari conquistou muitas amizades. Pelo seu carisma e também durante os longos anos que exerceu a profissão de fotógrafo profissional, quando teve a oportunidade de conviver com inúmeras pessoas.
Antes de mudar-se para a cidade tida como Portal do Pantanal Mato-grossense, no ano de 1965, ele deu início aos estudos da Igreja Messiânica, em Tupã-SP, com a finalidade de alcançar a posição de ministro, feito obtido após muita fé, dedicação e amor ao próximo.
Fundada no Japão pelo missionário Meishu-Sama, a igreja estabelece três colunas para a elevação da espiritualidade na Fé Messiânica, profundamente ligadas à vida humana: Johrei (canalização da Luz Divina para purificação do espírito), Agricultura Natural (método agrícola realizado com amor, respeito e gratidão à Natureza), Belo (apreciação indispensável para enobrecer a sensibilidade humana).
Em meio aos estudos, ele começou a gostar de uma moça da cidade, mas uma religiosa era contrária ao relacionamento, deu-lhe a missão de divulgar a referida religião no Estado de Mato Grosso que ainda não era dividido.
Ernesto Kobari foi parar em Campo Grande no ano de 1969. Mensalmente teria que comparecer ao culto do mês em São Paulo. Com o pouco que ganhava, pegava carona com caminhoneiros e continuava a se dedicar aos estudos messiânicos em Vila Mariana disposto a se aperfeiçoar cada vez mais.
O vai e vem lhe trouxe cansaço. Então decidiu abandonar a igreja no ano de 1970. Dois anos após ele chegou em Cáceres com uma máquina fotográfica e disposto a abraçar a oportunidade que a grande região lhe mostrava. O profissional da fotografia por esses lados era coisa rara, ele então passou a tirar fotos e ele mesmo fazer as revelações. Logo passou a ser conhecido e cada vez mais solicitado para eventos sociais, políticos, e, até mesmo registros policiais na delegacia ele fazia, incluindo a exumação de corpos. Tempos que ganhou um bom dinheiro.
Tanto é que adquiriu o Foto Silva, de Vicente Silva, que localizava onde hoje está o prédio da Caixa Econômica na Praça Barão do Rio Branco com a Rua Comandante Balduíno, pagou segundo ele, 7 mil cruzeiros pelo empreendimento.
A atividade seguia com índices elevados de crescimento, tinha dia que ele era obrigado a contratar outros profissionais para cobrir determinados eventos.
Fotografou famosos a exemplo daquele que viria ser o presidente da República anos depois, Fernando Henrique Cardoso, que visitou Cáceres quando da inauguração da BR 364, oportunidade que o presidente João Batista de Figueiredo esteve na cidade e também foi clicado pelas lentes do famoso profissional.
Batida frontal entre o táxi que ele se encontrava e o veículo C-10 – Foto: Álbum de família
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Grave acidente automobilístico
Mas nesse corre –corre de sucesso, ele acabou se acidentando gravemente numa batida de carros. Seguia no taxi de Orlando Tirelli pela Avenida General Osório quando o veículo em que estava de passageiro, foi atingido frontalmente numa violenta batida proporcionada por uma C-10 conduzida por um morador da Praça Duque de Caxias.
Kobari sofreu corte na cabeça, perdeu alguns dentes e teve luxação no ombro e nas pernas. O pior de tudo, conforme revela, é que estava de casamento marcado naqueles dias. Resolvido, não desmarcou o compromisso. Casou com a hoje professora aposentada Terezinha Mendes no dia 28 de dezembro de 1977. Mesmo estando banguela conforme conta ao meio uma gargalhada.
Passado o susto ele durante um bom tempo tentava ser ressarcido do prejuízo que sofreu e teve que ficar acamado por uns meses sem poder trabalhar.
Recebeu duas notas promissórias que lhe foram repassadas e que estavam em poder do proprietário do veículo C-10. O taxista Tirelli recebeu por sua vez um veículo Corcel “novinho em folha” para continuar trabalhando na profissão de taxista.
Após muitas idas e vindas tentando cobrar as notas promissórias do emissor, com a intervenção da esposa do mesmo, recebeu metade de uma das notas. Teve que se contentar com o valor abaixo, pois conforme o ditado, “antes pouco do que nada”.
Ernesto Kobari ao lado da companheira de 45 anos de casado – Foto: Wilson Kishi
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45 anos de casado
Ernesto Kobari e a cacerense Terezinha Mendes, estão casados há 45 anos. Dessa união nasceram os filhos: Cristine Mendes Kobari, Kristian Kenzo, que herdou do pai o gosto pela fotografia; e Cleiton Mendes Kobari que mora e trabalha no Japão.
Fotos nos bordéis de Cáceres
Ainda com relação a profissão de fotógrafo, Kobari revela que foi dele a primeira inciativa de trabalhar com as mulheres dos bordéis de antigamente e que faziam parte do outro lado da vida de Cáceres.
Semanalmente ele visitava os conhecidos bordéis da Catalina Zelada (Catita), Dona Tomázia, Clarice, Dona Tereza para fotografar e fazer pôster das garotas de programa. Fotos estas que as mulheres pediam para os clientes comprar para elas e com isso, Ernesto tinha mais uma fonte de renda.
Kobari, com o uniforme da Tokyo Gas, no Japão – Foto: Álbum de família
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Na fachada da empresa em que trabalhava – Foto: Álbum de família
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Trabalhou no Japão
Aos 62 anos de idade, o nosso entrevistado decidiu se aventurar do outro lado do mundo. Foi no ano 2000 que ele resolveu conhecer o país dos seus pais, motivado também pelo irmão que já conhecia e havia tentado a sorte na terra dos samurais. Não pensou duas vezes, decidiu e foi.
Durante 2 anos trabalhou na Tokio Gás. Morava em Honjo, e diariamente viajava de trem num percurso de 240 km entre ida e volta. A empresa disponibilizava a quantia de 700 dólares para as despesas da viagem.
O trabalho consistia em visitar as residências e vistoriar a possível existência de um ou outro vazamento de gás que chegava nas casas através das tubulações. Detectado o problema as equipes de reparo eram avisadas e chegavam para solucionar o vazamento.
Ganhava em dólares: 15 dólares por hora trabalhada, 120 dólares por dia, isso quando não fazia extra, pois nesse caso, chegava até mesmo a ganhar 200 dólares na diária.
Kobari chegava a enviar todos os meses a quantia de 2.000 dólares para os familiares em Cáceres. O bom salário que conseguia receber, segundo ele, era também em razão de saber falar e traduzir o japonês, compreender um pouco do inglês e “arranhar” um portunhol.
No jardim da residência do Imperador do Japão
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“Eu ganhava mais e trabalhava menos”, justifica.
Na primeira vez ele permaneceu por dois anos. Retornou para visitar os familiares, e, voltou novamente ao Japão. Diz que foi um tempo muito bom para ganhar dinheiro e ajudar os familiares.
Indagado por que não permaneceu mais tempo, disse que a mulher incentivou sua volta motivada pelos comentários de que Cáceres ganharia uma ZPE – Zona de Processamento e Exportação, “haveria muito trabalho e quem estivesse fichado poderia ganhar um bom dinheiro”. Esse fator somado ao fato de poder estar perto da família, fizeram com que ele voltasse. Hoje ainda diz arrependido de ter tomado essa decisão.
Kobari não concorda com o baixo valor do salário mínimo pago ao trabalhador brasileiro. “Muito baixo, salário de fome. Lá fora (Japão) um dia de trabalho equivale ao salário mínimo de trinta dias no Brasil”.
![]() Aos 82 anos, Ernesto Kobari continua dedicar aos estudos – Foto: Wilson Kishi |
Autodidata, ele diariamente passa o tempo nas traduções do japonês para o inglês, português… Está sempre disposto a aprender
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Renasceu de novo após ter sofrido AVC
Um japonês de sorte ou abençoado. Mas um homem feliz e completamente realizado. Aliás, ainda acredita que tem algo a mais para fazer até se despedir definitivamente desta vida. Principalmente após ter sofrido um AVC exatamente 1 ano atrás, e ter-se recuperado totalmente inclusive a sua privilegiada memória.
“Constato que é uma coisa de Deus o que aconteceu comigo”, e começa a relatar:
-Fiquei alguns dias sem conexão com o mundo; não falava nada certo. Estou agora melhor. Recuperei a memória, lembro de tudo, inclusive de minha infância. Renasci de novo, hoje estou completamente lúcido, agradece.
Assim, Ernesto Mitsuru Kobari, que até aos 22 anos era um ateu, foi tocado pelo primeiro johrei que recebeu numa centelha de luz que envolveu completamente o seu ser. Ex-atleta vice-campeão brasileiro de baseball em 1957 como jogador da Seleção de Presidente Prudente; vice brasileiro nos 1.000 metros. Não bebe e não fuma. É um ser feliz e diz ser um privilegiado. Aprecia os ensinamentos do mestre e filósofo chinês Confúcio: “Se não sabes, aprende; se já sabes, ensina”.
Mas, “de nada vale tentar ajudar aqueles que não se ajudam a si mesmos”.
A esposa Terezinha Mendes Kobari, em momento de sua passagem no Japão – Foto: Álbum de família
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![]() Registro do Passaporte |

































