Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews
Foto: Antonio Costa
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Ela nasceu no ano de 1939, em Cáceres-MT, conviveu numa família de 12 irmãos, dos quais só ainda restam dois, sendo ela uma das viventes que ainda estão por aqui para contar a história.
Muito popular e querida a personagem da semana, no Zakinews, aproveita e convida o leitor a fazer um magnífico passeio pelas estreitas ruas de Cáceres desde o Porto da Manga até a localidade da Baia Comprida onde a pescaria era muito bem-sucedida. Seu nome:
Maria Paula Motta
82 anos, filha de Balbina Dias das Neves (lavadeira) e de Sebastião Fiel de Paula (coveiro do cemitério São João Batista).
Criança, estudou na Escola da Dona Tunica, posteriormente frequentou aulas com as Irmãs Azuis da Imaculada Conceição, principalmente a catequese, época em que se lembra das irmãs Maria Antonia, Maria Frubbuni e Ana Loucais.
A mãe foi lavadeira
Ainda sobre a infância, ela recorda que na companhia de outros irmãos, acompanhava a mãe até o Porto de Honor do Couto e da comadre Dona Glicéria, na conhecida Rua da Manga, onde ela se juntava a outras lavadeiras para executar quase que diariamente a tarefa de lavar roupas de ganho.
Cabia a criançada ajudar a trazer as banheiras com as roupas já lavadas, isto por volta das quatro horas da tarde com a tarefa do dia cumprida. Os filhos se revezavam na hora de levar o almoço quase sempre preparado na noite anterior pela mãe. Na volta para casa, ela sempre trazia cambada de peixes- rubafu, bagre, jiripoca – que adquiria dos pescadores e que garantiria a janta e o almoço da filharada.
Dona Balbina, a mãe, lavava roupa de várias pessoas tidas da sociedade cacerense da época, a filha Maria Motta recorda desses figurões do passado: prefeito José Rodrigues Fontes, o padrinho de casamento da homenageada, Coronel Jefferson, João Evaristo Curvo (Curvinho), Dona Marianinha, Dr. Torres, Capitão Hélio, e outros.
As roupas após lavadas, eram cuidadosamente passadas a ferro a brasa, separadas, colocadas no cabine dispostas sobre um vara pau improvisado como se fosse uma arara móvel. Dois dos irmãos se encarregavam de fazer o transporte das peças até nas residências dos fiéis clientes semanais.
Dona Balbina amava aquilo que fazia e que lhe garantia meios para criar os filhos. Com essa sua dedicação, ela recebia dos clientes amizade, consideração e carinho. Ganhava costumeiramente roupas que eles consideravam surradas, mas, em bom estado de conservação, as peças eram por elas transformadas em vestuários para a família.
Enquanto isso, Sebastião Fiel, o pai, exercia trabalho como coveiro no cemitério São João Batista. Foi nesse local, inclusive, que ele teve complicações por falta de resguardo após ser operado de apêndice. Ao ver um amigo que considerava não ter como ser sepultado por falta de quem abrisse a cova, mesmo recém-operado, se propôs a realizar o trabalho. Pelo esforço, teve complicações e com a falta de recursos, acabou vindo falecer.
A filha conta que o pai sempre procurou acompanhar de perto o desempenho dos filhos na escola. Assiduamente ele visitava as professoras para se inteirar do aproveitamento das crianças na sala de aula. Em suma, foi um pai presente.
Costumava durante a noite sob a luz de lamparina fazer companhia para as crianças que estudavam as lições. A criançada ficava esperta para evitar ganhar palmatória do famoso e indesejado “bolo de arroz”, caso não respondessem corretamente os deveres levados para serem feitos em casa.
Dona Maria Motta num misto de saudade dos felizes tempos de infância, recorda do primeiro emprego quando ela deveria ter 12/13 anos. Época que foi garçonete no Hispano Hotel, cujos proprietários eram Natalino Ferreira Mendes e Dona Olga.
O local era frequentado por passageiros das aeronaves que faziam pouso no aeroporto Manoel Francisco Cuiabano. Eles eram transportados até o restaurante pelo conhecido motorista Antonio de Joana, e a sua jardineira (veículo) da época.
A garçonete daquele tempo se lembra também da assiduidade do americano Sólon Daveron ao local, para degustar o que ela chama de “ovo frito na água” com pão.
Ela diz que a convivência com as pessoas era muito divertido e fazia com que o dia passasse rapidamente. Com aquilo que ganhava em seu primeiro trabalho, comprava roupas, especialmente presenteava a mãe com vestidos de chita, da loja do Chirú.
Sobre o comércio da época, ela cita que Cáceres era abastecida com centenas de variedades da famosa Casa Dulce (anjo da ventura), pelos comerciantes Airton Montechi, Joaquim Costa, Vicente Pouso, etc.
Sente feliz e realizada
Ela foi casada durante 61 anos com o também cacerense Manoel Alves da Motta. Eles tiveram 12 filhos. Ela ficou viúva ainda no início deste ano, quando o companheiro veio a falecer aos 78 anos.
Foi uma harmoniosa convivência de respeito e cumplicidade entre ambos, sempre com o propósito de crescimento junto e lutar pela educação dos filhos. Hoje se considera uma pessoa feliz e realizada principalmente pelos milhares de amigos que possui, por onde anda, é reconhecida e saudada carinhosamente.
Foto: Antonio Costa
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Rezadeira bastante solicitada
Dona Maria Motta se considera uma mulher de fé. Membro ativa do Apostolado da Oração dos tempos do Padre Paulo, e da presidente Alice Saab, da Pastoral dos Enfermos, ela recorda dos tempos que atuou em companhia das amigas que já partiram. Cita a Madre Maria Estevão, Darci Silva, Dona Sinhara de Bi Santana, Dona Ambrosina, Elza de Freitas Garcia, Deusalina Barbosa.
Foram muitas as visitas e trabalho em prol aos enfermos e pessoas carentes da comunidade. Nas campanhas encetadas pelos integrantes desses grupos em que participa, se realizam várias campanhas de arrecadação de alimentos para serem doados. Ela se sente feliz em doar parte do tempo para essas causas consideradas humanitárias.
Outras vezes atende os convites para entoar as ladainhas nas casas das pessoas devotas do santo do dia. Festa de São João, Sebastião, Nossa Senhora do Carmo, Mãe Aparecida, São Benedito, Santo Antonio.
“Senhora da Conceição, salve rainha Mãe da Misericórdia, nossa Mãe Divina”.
São vários anos na missão de rezadeira nas festas de santo. Cita as vezes que compareceu para rezar na Fazenda do saudoso Nestor Cardoso.
Outras vezes atendeu convite e comandou a reza no Sítio da Dona Feliciana Motta.
“Bendito louvado seja; que do céu vem o destino, com prazer e alegria cantaremos viva ao Divino”!
“Foi o mesmo Pai Eterno, que criou o Deus Menino, no meio dos dois amores, cantemos viva ao Divino”.
“Oh meu Santo Antonio, santo de minha devoção!
Na hora de minha morte, meu Jesus vós serás minha proteção”…
Com saudade ela recorda das vezes que esteve participando do São João, da Dona Berta.
Outras vezes na festança de Dona Benedita e seu irmão Garcia.
“Que santo é aquele, que vem lá de fora, é São Benedito que vai para a glória!
Meu São Benedito, eu vou me deitar; quando for a hora, vós vinde acordar!
Vós vem me chamar, com os anjos também; para ir à glória, para sempre amém!”.
Na casa de Bi Santana; Seu Gonçalo; Zezinho Carpinteiro, pai da devota Lenir Duarte; Dona Alicinha Barbosa, Maria de Godofredo, Dona Leonía. Inúmeras festanças de santo, que hoje ocupam um lugar de respeito e carinho nas lembranças que se sucedem.
“Chega meus irmãos devoto; que neste altar eu falo, vamos rezar o bendito, de meu padre São Gonçalo.
De meu padre São Gonçalo, os anjos fazem tanto gosto, quem rezar pra São Gonçalo, sempre terá um bom gosto!”.
Fervor à Santa Catarina.
“Minha Santa Catarina, espelho que Deus Marcou, ajudai-me a vencer na batalha em que estou.
Minha Santa Catarina, estendei-me a vossa mão, ajude-me a vencer, tudo que for tentação.!”.
N. S. Conceição
As ladainhas que ela constantemente executa com fervor e devoção nas rezas de santo, fazem parte de um dos cadernos que estão no altar dos santos na sala da casa, na Rua Boa Vista onde mora com o seu companheiro após ter ficado viúva.
São vários hinos os quais ela entoa nos dias do ano, a exemplo do da Nossa Senhora da Conceição, nessa estrofe: “Senhora da Conceição, salve rainha mãe da misericórdia, nossa mãe divina”.
Ela faz uma viagem no tempo para recordar das passagens guardadas com carinho e saudade, a exemplo da inesquecível viagem até Corumbá-MS no Vapor Etrúria, 70 anos atrás. Foi um presente que ganhou dos padrinhos Faustino Cururueiro e Francisca da Silva.
Em outras lembranças ela cita a fartura de peixes que eram fisgados na Baia Comprida. O pescado da espécie pacu era salgado e se tornava peixe seco, muito preferido com caldo de madioca seca e arroz sem sal. O peixe seco que compunha as prateleiras dos bolichos de Lalico Fanaia, Pata Choca, Seu Teté, Miguel Baiano, e outros bolicheiros da época.
O tradicional cardápio da culinária mato-grossese pede aloá no complemento ou para abrir o apetite um licor de jenipapo, jabuticaba, lima.
Na sobremesa vai doce de figo, laranja ou abóbora. Todas guloseimas que Dona Maria Motta garante saber preparar como ninguém.
Foto: Antonio Costa
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Compadre Joaquim Ponciano e comadre Celina
Na Rua Bom Jardim, ela cita o casal que já partiu como dois amigos da melhor espécie que deixaram saudade, por sinal, eram compadres: Joaquim Ponciano e a mulher Celina. O casal teve 7 filhos.
Ele exerceu durante grande parte da vida a profissão de poaeiro na companhia do inseparável amigo Manoel da Motta, que era marido de Dona Maria.
Nos áureos tempos da extração da poaia, muitos foram aqueles que se embrenharam mata à dentro na procura desse “ouro” verde que colhido nas matas do cerrado e do pantanal, ia parar nos laboratórios dos grandes centros do país quando se transformavam em remédios.
Joaquim Ponciano ganhou a vida na extração da poaia. A comadre tem lembranças do vizinho e compadre de antigamente. Ele, segundo ela, era exímio artesão da madeira que em suas mãos se transformava em canoa de pescaria nas piscosas águas do rio Paraguai, em outras vezes, remo, colher de pau, gamela, viola de cocho, cabo de ferramenta, e vai por aí afora.
Joaquim Ponciano durante mais de 20 anos teve como missão tocar o enorme sino instalado no alto de uma das torres da Catedral São Luiz. Diariamente ele deixava o local de trabalho por volta das quatro da tarde quando ia se aprontar para tocar o sino. A primeira batida chamando os fiéis ocorria às cinco da tarde; a segunda 30 minutos depois, para na terceira, às 18h avisar que a missa iria começar. Isso durante a semana.
Pois no domingo a celebração ocorria às seis da manhã. Ele executava as primeiras badaladas às cinco horas, cinco e meia e seis horas.
Foi assim durante o tempo que se dedicou à vida religiosa. Ele que para a saudosa comadre era bom vizinho, calmo e paciente. Tinha por hábito tomar guaraná ralado na grossa, dar conselho, contar estórias, e até mesmo fazia alguma previsão: “dona…a senhora ainda vai ver coisa nesse mundo…”
Assim a Dona Maria Motta exercita a memória para fazer essas revelações que ela guarda com imensa saudade e carinho da terrinha que tanto ama. Ela, que aos 60 anos se encorajou e foi parar na sala de aula da Universidade do Estado de Mato Grosso –Unemat. Cursou Pedagogia numa turma em que a universidade privilegiou a chamada terceira idade, mas que para ela, é a melhor idade…onde “vai se vivendo, aprendendo, ensinando”.































4 respostas
Amo ler esses riquíssimos registros da história, cultura e religiosidade do povo cacerense. Excelentes e emocianantes cada postagem. Parabéns Kishi! Parabéns dona Maria!!! Que história linda!!!! Que força!! Que exemplo!
muitas lindas homenagens… parabens kishi por estas materias especiais as familias cacerensses…
Que alegria conhecer a vida de d. Maria Mota. Minha mae, Edna Castrillon falava muito em suas historias cacerences. Gratidao Antonio Costa pela oportunidade!!!
Que linda homenagem a esta mulher de fibra. Uma personalidade da historia de Caceres a quem devemos muito respeito! Excelente registro!!