O cacerense cuida do rio porque o vive.
Quem é de Cáceres não precisa de decreto para respeitar o Rio Paraguai. Nem de outras instituições ou formas importadas de isolamento da natureza. Cuidamos porque bebemos dessa água, pescamos nesse rio que escoa a produção e batiza os filhos desde 1778. O cacerense cumpre o tratado antes mesmo de saber o número do artigo. Entende na pele: sem rio, não tem cidade.
Mas falta contar essa história
E aí está o ponto que me incomoda. A gente vive uma relação sustentável há 247 anos, mas não conhece a própria história. Falamos de ESG, de carbono, de compliance, e esquecemos que o Tratado da Bacia do Prata, de 23 de abril de 1969, já nos obrigava a isso. O Artigo I manda promover “desenvolvimento harmônico”. O Artigo III exige “preservação da vida animal e vegetal” e “uso racional da água”. Isso é ESG escrito há 55 anos.
Na navegação, a mesma coisa. O Acordo de Santa Cruz de la Sierra, de 26 de junho de 1992, no Artigo 3º, garante nossa liberdade de navegar. Mas o Artigo 15º e o Protocolo Adicional sobre Assuntos Ambientais, Artigo 1º e 4º, nos responsabilizam por não poluir e por fazer estudo de impacto antes de dragar.
Ou seja: o cacerense que hoje debate dragagem com critério, piracema, mata ciliar e tratamento de esgoto está cumprindo, na prática, um acordo internacional assinado quando muitos de nós nem eram nascidos.
O risco é esquecer é dar possibilidade a formas de relações exteriores e retirar aqueles que vivem e cuidam do rio, da terra e do Pantanal.
Quando a gente perde a memória, perde a força. Vira presa fácil de discurso que coloca produtor contra rio, cidade contra Pantanal.
Mas em tempo a linguagem das águas que deu vida a Cáceres e batiza nossos filhos deu o tom no evento de ontem no Sindicato dos Produtores Rurais. Produtor, pescador. Isqueiros, professores e técnico na mesma mesa, falando a mesma língua: a do rio.
Diálogo é herança que desvelaram a preocupação com a preservação do Rio e das comunidades tradicionais.
Cáceres nasceu do diálogo entre povos e águas. Os tratados só formalizaram o que a gente já fazia: usar sem destruir, navegar sem matar o rio. Resgatar esse conhecimento histórico é blindar nossa sustentabilidade contra modismo e contra ataque.
O Rio Paraguai nos deu uma cidade. Os tratados nos deram deveres. E a nossa vivência nos deu sabedoria. Falta só a gente contar isso pro Brasil e para o mundo.
Contar que mais de 80% da vegetação do Pantanal do MT é nativa, segundo EMPAER com base nos dados, imagens da NASA.
O cacerense não preserva por lei. Preserva por pertencimento. A lei só veio confirmar o que a gente já sabia, quando não atrapalhar as relações sustentáveis que aqui se estabelecem.
Fernanda de Arruda Machado
Doutora em Sustentabilidade


























2 respostas
Bom dia Fernanda!
Em fim, um relato harmônico para os ouvidos de nossa gente. 👏👏👏
Sou de Umuarama, mas comprei fazenda em Cáceres e me sinto muito feliz ser um novo cacerense