Memórias e histórias

Aos 98 anos, Seu Elídio revela orientações da vidente Doninha que se tornaram realidade

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Seu Elidio, agradecendo a confraternização, quando completou 90 anos de idade   –   Foto: Acervo de família


Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews

 

O poconeano Elídio de Souza Neves, que no próximo mês de julho deste ano, completará com a graça de Deus, 98 anos de existência, é o entrevistado da semana. A matéria é uma das mais ricas em termos das informações coletadas por uma vida preciosíssima e recheada de fatos interessantes que este ancião experimentou nas cidades onde nasceu e nesta aonde ele leva à vida na companhia dos filhos, já que ficou viúvo.

ELÍDIO DE SOUZA NEVES

Natural de Poconé-MT
Nascido em 17 de julho de 1923
Pai: Oleriano de Souza Neves (poconeano)
Mãe: Ana Rita de Souza (cacerense)
Esposa: Lídia Beltran Neves (união que durou 69 anos)
Filhos: o casal teve 12 filhos, dos quais 10 ainda são vivos.

 

Elídio de Souza Neves, é o homenageado da semana

Elídio se aposentou como servidor do antigo Grupo Escolar Esperidião Marques, após 35 anos de serviços, incluindo o tempo em que serviu no 2º. Batalhão de Fronteira. Entrou para o serviço estadual no ano de 1964 e saiu no ano de 1972.

Sonhando chegar forte e lúcido aos 100 anos, “se for da vontade do Pai”, ele desfruta de uma memória privilegiadíssima.

Revela que a infância passou nas fazendas de abastados fazendeiros da região do Pantanal. Cita eles: Salvador Gomes, Benedito Mamede, Benedito Falcão. Cita que um de seus netos (Rafael) foi casar-se justamente com a bisneta de Benedito Mamede, “coisa do destino”.

Pais de Elídio: Oleriano de Souza Neves e dona Ana Rita de Souza


Recorda do tempo de fartura no Pantanal

“Seu” Elídio como é conhecido por uma legião de amigos, volta ao passado e recorda dos tempos que conviveu ao lado dos pais e irmãos nas fazendas pantaneiras lá pelas bandas de Poconé-MT, no rio Alegre.

O peixe era farto. “A gente não falava que ia pescar. Falava que ia panhar um peixe”… Dava-se o luxo de comer somente peixes de escama a exemplo de pacú, peraputanga, pacupeva. “Vim comê peixe liso aqui em Cáceres”.

Naquele tempo segundo ele, o Pantanal era uma imensidão de campo muito limpo e que perdia de vista. A caça era abundante…a onça pintada ainda assim apreciava matar os bezerros.

“Pra quem conheceu aquele tempo, dá muita saudade”. Seu Elídio recorda das rezas de santo, especialmente da festa da Padroeira Nossa Senhora da Conceição. Os fazendeiros se uniam faziam as ofertas e o povo festava e comia de graça. Era segundo ele, uma época de muita fartura.

Enquanto isso, a Cáceres daqueles tempos era uma cidadezinha bastante pacata. Não existia o serviço de água encanada, cabia o aguateiro abastecer as residências. Energia elétrica nem pensar. Eram os lampiões que iluminavam a área central, mas precisamente a Praça Barão do Rio Branco além das ruas Coronel José Dulce e a Coronel Faria.

 

Serviu no 2º. Befron em 1945

Lembra que aos 22 anos veio para Cáceres servir o exército, isso no ano de 1945, permaneceu na farda verde oliva até 1950. Cita os dois comandantes dessa época: José Bibiano Chaves e Henrique Cordeiro Oest. Tempo de muito aprendizado diz ele. No quartel aprendeu lições que com ele permanecem até os dias atuais…respeito, disciplina, comando, união.

Durante um tempo de farda, ele trabalhou na tesouraria tendo como companheiro Alfredo Miguel Calix. Em outro, era o responsável por cortar o pasto para alimentar os cavalos que compunham a cavalaria do exército onde os oficiais montavam os animais.

Nesse tempo, segundo o entrevistado, o soldado não podia casar. Mas, o comandante de sua companhia, sabia de sua intenção, e não dificultou a sua união com aquela que foi sua companheira durante longos e amados 69 anos de casados.

Posteriormente a lei que impedia o casamento do soldado, foi revogada. E o militar só podia permanecer na farda se fosse casado.

Seo Elídio guarda com carinho o Certificado que sua esposa Lídia Beltran recebeu ao concluir a CAPACITAÇÃO DE PARTEIRAS RURAIS, reallizado em 1969 em Cáceres

O médico Dr. José Monteiro da Silva, posa para registro fotográfico com as parteiras rurais que concluiram o curso. Cada uma das parteiras receberam uma pasta doada pela FAMATO


Lídia, a sua mulher, foi parteira diplomada

Dona Lídia Beltran Neves, integrou o grupo de parteiras de Cáceres. Ela, a suíça dona Margarida Boss, Antonia de Lisboa, dona Ambrosina e outras cumpriram uma importante missão antigamente ao exercerem o trabalho de parto na cidade e em toda a região, principalmente nas fazendas.

Os médicos naquele tempo eram poucos praticamente dois, no máximo três: Dr Nito, José Monteiro da Silva, Antonio Fontes. Com isso, sobrava trabalho para as parteiras. Dona Lídia, diplomada pelo médico José Monteiro, realizou vários partos através dos anos em que exerceu a hoje quase extinta profissão.

O marido que com ela teve uma convivência de 69 anos, revela que os militares dos destacamentos a procuravam para que ela atestasse o nascimento de seus filhos para que os mesmos pudessem ser registrados.

As crianças que chegaram pelas suas mãos, a consideravam e passavam a chama-la de mãezinha. A exemplo do protético Luiz Miguel Oliveira, que nutria elevada estima e consideração para com a referida parteira.

Elídio e Lídia, união que perdurou por longos 69 anos e tiveram 12 filhos

Criação dos filhos

Após cumprir a temporada do serviço militar, Elídio de Souza Neves trabalhou em fazendas dos pecuaristas José Pinto de Arruda, Vitório da Silva Lara, José Scaff (Zé Grande). A esta altura já começava a chegar os primeiros filhos.

Passados determinados anos, ele viu-se obrigado a mudar-se para cidade, pois via a necessidade dos filhos frequentarem a escola. Foi questionado pelo fazendeiro Zé Grande: “Elídio o que você vai fazer na cidade, você é homem do campo”, tentava impedir que o seu funcionário o deixasse. Após ouvir por mais de uma vez as explicações do funcionário, o citado fazendeiro acabou-lhe por dar-lhe as contas.

Em Cáceres, Elídio e familiares passaram por muitas dificuldades. Um dos seus irmãos havia praticado um assassinato. Ele então passou a gastar com advogado na tentativa de libertar o irmão. Foi aí que gastou tudo que havia economizado e ganho no acerto de contas ao sair da fazenda.

Desesperado, sem saber o que fazer. Inclusive, chegou até mesmo a pensar em retornar para o trabalho na fazenda. Foi então que ouviu o conselho do pai Aureliano, e foi consultar com aquela que até hoje é considerada a maior líder espiritual do Pantanal, a famosa vidente Laurinda Cintra Lacerda, a conhecida e respeitada Doninha.

Grande festa de Bodas de Ouro do casal Elídio e Lídia rodeados pelos 12 filhos


Em sua visão, Doninha previu coisa boa para Elídio

Laurinda Cintra Lacerda, a Doninha, nasceu em 19 de março de 1904 na localidade denominada Tanque Novo, região de Poconé-MT.

Em 1930 ela começou a ter visões de uma moça de olhos claros e rosto sereno, vestida de branco, muito bonita e por ela denominada de Santa, conhecida como “Maria da Verdade”, e após “Jesus Maria e José”.

Com essa sua visão de poder, logo estava praticando cura em pessoas desenganadas pelos médicos. Inicialmente seus pais a condenaram e passaram a chama-la de abobalhada. Ela então passou a viver em meio às famílias pobres da fazenda, e, com as filhas dos peões. Era como se fosse desprezada pelos seus familiares que tinham terras, gado e posses.

 
Divulgação

Doninha, grande líder religiosa de Poconé que atraía milhares de pessoas

Doninha logo se viu solicitadíssima para consultas de pessoas não só da região de Poconé, mas de outras partes do estado, inclusive, Cáceres. Àqueles que a ela recorriam pedindo ajuda espiritual nos mais diversos tratamentos e soluções para os mais distintos problemas, ela sempre em seus trabalhos, dizia que “a santa disse” para você fazer isto ou aquilo. Suas respostas aos pacientes era sempre orientações da santa que através dela se manifestava.

Tiveram aqueles que também ouviram dela, o aviso que uma terrível peste haveria de se abater em todo mundo, ceifando milhares e milhares de vida. Finada Licina Costa Arruda, foi uma dessas pessoas, que sempre lembrava preocupada com a previsão feita pela vidente.

Devota de São Sebastião, se apegava ao santo com muita fé quando se via ameaçada com alguma doença ou peste que ameaçava as criações do seu sítio na região da morraria. O seu filho mais velho foi batizado com o nome de Sebastião numa alusão ao santo que se comemora no dia 20 de janeiro.

Em busca de uma orientação sobre o momento ruim de sua vida, foi assim que em (1963) Elídio Neves e um companheiro durante dois dias seguiram de bicicleta de Cáceres até o Tanque Novo para consultar com Doninha. Lá chegando ela os atendeu…e de pronto, descartou o companheiro de Elídio ao dizer que ele estava alí somente para bisbilhotar, e que ele não acreditava em Deus.

À Elídio, antes mesmo que ele contasse a sua história e o porquê estava alí,  ela deu conselhos otimistas e que vieram dar-lhe tranquilidade. Doninha disse que Elídio assim que retornasse à Cáceres iria conseguir serviço…e, que ele, iria trabalhar no estado. Não se desesperasse, muitas pessoas iriam ajuda-lo a criar os filhos…não precisaria retornar ao trabalho na fazenda. A vidente foi além, previu que ele seria uma pessoa muito feliz, iria viver bastante. Iria adquirir uma casa na primeira esquina antes do local conhecido como Cumbaru de Ouro. Inclusive, teria uma vida longa e uma velhice bastante tranquila e feliz.

Após a consulta e se sentindo bastante feliz, Elídio fez menção de retornar naquela tarde-noite. Doninha disse a ele que aguardasse pois não estava na hora. Deu-lhe comida e pouso. Noutro dia serviu-lhe café e por volta das nove horas lhe disse que poderia então seguir viagem.

Eis que, por volta do meio-dia quando ele saia da estrada da fazenda e entrava na estrada principal, ouviu um barulho do motor de um caminhão. Era o fazendeiro Átila José da Silva, que a princípio, sem entender, o que o seu amigo estava fazendo naquela distância pedalando uma bicicleta. Elídio pôs a bicicleta no caminhão, pulou na carroceria, e, só então foi entender o que Doninha lhe havia dito. (ainda não está na hora). Era para que desse o tempo necessário para ele pegar a carona no caminhão e retornar à Cáceres.

Empreitada para fazer cerca

Assim que retornou da consulta com a líder espiritual, Elídio foi procurado por José Pinto de Arruda que lhe oferecia uma empreitada de cerca de arame liso em uma de suas propriedades.

Na hora topou o serviço. Permaneceu na fazenda durante cinco meses, e, ao retornar para a cidade, seu pai Aureliano de Souza Neves, que já trabalhava no Grupo Escolar Esperidião Marques, lhe avisou que o grupo necessitava de uma pessoa para o setor de limpeza.

Elídio e amigos em frente a Escola Estadual Esperidião Marques – Foto: Acervo de família


Iniciou o trabalho no G.E.E Marques, em 1964

Imediatamente Elídio procurou a diretora Ludy Mônaco Fontes (batizou um de seus filhos e tornou sua comadre) e no outro dia já estava empregado. A princípio o salário era insuficiente para ele criar a filharada que só aumentava. Dona Ludy propôs então que a esposa Lídia fosse contratada, mas, que ele Elídio, desempenhasse a função. Ele topou. Trabalhava pela manhã e no período da tarde respondia pelo trabalho que estava em nome da esposa. Melhorou um pouco a renda, mas ainda era insuficiente. Novamente a diretora reconhecida pelo seu sentimento de amor ao próximo, sugeriu que ele tocasse a cantina da escola.

Finalmente então Seu Elídio conseguiu ganhar o suficiente para manter a família e ainda guardar alguns trocados. Responsável pela cantina do grupo, ele passou a ter uma grande ajuda dos representantes da Bolacha Tostine que lhe fornecia os produtos alimentícios com prazo de um mês para o acerto. Era segundo revela 5.5 milhões de cruzeiros em mercadorias todo mês. Com o negócio andando de vento em popa, surgiram outras pessoas que lhe deram a mão.

Segundo ele, o professor Milton Marques Curvo, foi uma dessas pessoas. Ele era a principal autoridade educacional em Cáceres, como se fosse o representante do estado, e se tornou o segundo pai do Seu Elídio.

Professor Milton deu o aval para que ele fosse o responsável em fornecer alimentação para 250 professores durante 45 dias de curso de férias, com verba federal de custeio. Ao término do treinamento ele estava com sete milhões livres após deduzidas as despesas.

Próximo de completar 100 anos, Elídio ainda desfruta de boa saúde física e foi solícito com a reportagem ao Zakinews


Adquiriu casa próximo do cumbaru de ouro

Com o lucro obtido, Elídio conseguiu adquirir uma casa do fazendeiro José Palmiro da Silva no valor de 1,2 milhão de cruzeiros. Imóvel onde ele reside até hoje, e que se localiza nos cruzamentos da Avenida Getúlio Vargas com a Rua Tiradentes. Curiosamente – como previu Doninha – alguns metros do local onde misteriosamente havia uma árvore da espécie cumbaru, e, que segundo a lenda, havia uma grande quantidade de ouro enterrada embaixo de suas raízes. Daí o local ser conhecido como cumbaru de ouro.

Segundo Elídio, correu boatos em tempos idos, que o conhecido Nhozinho conseguiu desenterrar e ficar com uma parte da riqueza que estava embaixo do cumbaru.

Curiosidades

Em 1947 Elídio viajou no vapor Etrúria até a localidade de Porto Esperança. De lá seguiu de trem pela estrada de ferro Noroeste do Brasil até Campo Grande. O Etrúria segundo ele, era um verdadeiro hotel de luxo.

– Cáceres era atendida por duas companhias aéreas: Cruzeiro do Sul, e Vasp. Além de passageiros os aviões transportavam também a ipecacuanha (poaia). Cáceres também recebia voos regulares dos aviões de carga tipo búfalo, eles davam assistência aos destacamentos do exército na região da fronteira.

– Em 1948 numa madrugada, se ouviu forte estrondo que assustou a população da pacata cidade àquela altura da noite. Bugios, jacarés e outros bichos reagiram ao estranho barulho. Ao amanhecer tudo foi esclarecido: a catedral em construção havia desabada.

– Os principais comerciantes da época, segundo o entrevistado, eram Luiz El Chamy, Lulú de Pinho, Casa Fontes (do pai do médico Antonio Fontes), Foad Gattas. Eram os principais compradores de poaia e peles de jacaré, lontra, etc.

– UDN e PSD eram os principais partidos. A sua comadre e diretora do Esperidião Marques, Dona Ludy Fontes, entregou o cargo para Benedita Tedesco (Dona Didi), que pertencia ao PSD que saiu vitorioso em uma das eleições.

-O fazendeiro e influente político da época, Átila Silva, tinha por Elídio muito respeito e consideração. O tinha como um fortíssimo cabo eleitoral.

Elídio de Souza Neves, é um grande privilegiado em termos de vida longa. E, na velhice, perto de chegar aos 100 anos, apresenta lúcido, sereno, conforme se constata nas precisas informações repassadas ao zakinews. Um pouco de dificuldade na visão não é suficiente para que o mesmo deixe de demonstrar todo seu contentamento e felicidade no cotidiano ao lado dos familiares. Assim, ele   cumpre a sua rotina diária, se orgulha dos filhos “todos encaminhados”, feliz e tranquilo até o dia que Deus quiser.

REGISTROS DE 50 ANOS DE CASADO E 90 ANOS DO ELÍDIO NEVES

Bodas de Ouro do casal Elídio e Lídia

Nas duas fotos: momentos de festividades comemorativas aos 90 anos do seo Elídio Neves    =    Foto: Acervo de família

 

 

 

 

 

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