Ana Lúcia Fornanciari
Foto: Acervo de Ana Lúcia |
Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews
A cidade tem os seus tipos. Ela é o retrato daqueles que nela vivem. Assim que nesta oportunidade a história de uma mulher que somente soube se dedicar a fotografia na maior parte de sua vida, passa a ser contada como forma de homenagear ela e a sua reconhecida arte de fotografar eventos, festas e gente, na terra que escolheu para viver e fazer aquilo que mais gosta.
Seu nome: Ana Lúcia Fornanciari, 58 anos, 4 filhos, filha de pais capixaba José João Fornanciari e de Cecília Maria Thabach Fornanciari. Ela nasceu em Rio Branco-MT quando ainda o município era uma gleba pertencente à Cáceres. Foi registrada na cidade considerada mãe dos demais da região Oeste. No ato do seu casamento teve definitivamente a cidadania rio-branquense atestada em sua Certidão de Casamento.
![]() Ana Lúcia e o pai, José João Fornanciari Foto: Acervo de Ana Lúcia |
Com a mãe Cecília Maria Trarbach
Foto: Acervo de Ana Lúcia |
Seus pais chegaram com as duas filhas – Luzia e Maria – em 1960 procedentes do Espírito Santo. Vieram atraídos pelas férteis terras que o governo estadual entregava àqueles que estavam dispostos a colonizar a imensa região. Época em que diariamente os paus de araras vinham de todas as partes do país transportando famílias que desejavam ter uma melhor sorte ao contrário daquela adversidade que experimentavam em suas origens.
A localidade onde eles foram morar era conhecida como “Corgão”, alí a família enfrentou todas as adversidades na formação do sonhado sítio. Permaneceu no local aproximadamente 10 anos até o pai ter que mudar-se para Cáceres onde veio fazer tratamento de saúde.
A família ficou abrigada na residência do grande amigo Caetano Marques na região onde hoje está o populoso Bairro do Junco. Ana Lúcia a homenageada, afirma que seus pais mantiveram estreita relação de amizade com o Seu Caetano, este segundo ela, possuía um enorme coração bondoso e ajudou muito a sua família até esta se encaminhar novamente após a mudança para a cidade.
Passado algum tempo o pai José João foi trabalhar onde permaneceu por vários anos na Serraria Cáceres, a principal indústria madeireira da Cáceres de antigamente. Antes ele atuou como marceneiro, profissão que aprendeu com o velho pai ainda no Espírito Santo.
As irmãs Fornanciari: Em pé: Ana Lúcia e Marlene; Sentadas: Sônia, Luzia, Maria da Penha e Lourdes
Foto: Acervo de Ana Lúcia |
Sonhava em ser astronauta
Na sua imaginação de uma criança inocente, Ana Lúcia chegou a exercitar em sua fértil mente a possibilidade de vir a ser uma astronauta. Nas noites de céu límpido onde as estrelas e a lua se faziam presentes, ela, no Sítio Córgão, ficava com as irmãs contemplando o universo, enquanto na sala o pai e os vizinhos em volta do rádio ouviam música caipira e notícias.
Foi assim que aquela criança criou em sua imaginação a possibilidade de visitar à lua conforme os astronautas haviam vividos em 1969. O bombardeio de informações com o feito só aguçava a mente daquela criança, enquanto os amigos do pai discutiam contrariados com a “tamanha afronta” no pensamento deles. “Imagina o homem ir à lua”, resmungavam indignados…
Outras vezes eles comentavam sobressaltados…sobre a estrada que estava sendo aberta por debaixo da terra no Rio de Janeiro…era simplesmente um túnel que estava sendo cavado…Haja imaginação para a criançada que estava por perto e ouvia tudo…
A menina cresceu…Passou a estudar inicialmente com a própria mãe que foi professora dos filhos, enfermeira e dona do lar. Ana Lúcia já na cidade, estudou no Colégio Frei Ambrósio no Bairro do Junco onde morava; posteriormente frequentou a sala de aula do CEOM, Imaculada Conceição, Escola Técnica de Comércio Raimundo Cândido dos Reis.
Fachada do Fotorama na Rua Coronel José Dulce, próximo ao Banco do Brasil
Foto: Acervo de Ana Lúcia |
Já na fase da adolescência conseguiu o seu primeiro emprego. Foi secretariar os irmãos Wolski que acabaram de chegar do Paraná para em Cáceres montarem o primeiro laboratório de fotografia colorida, o ano era 1979. A rua escolhida pelos empreendedores com a grande novidade era a Coronel Faria em prédio alugado do saudoso Hugolino Corbelino.
Ana Lúcia então começou a ter as primeiras noções sobre a fotografia, não imaginava que essa arte lhe garantiria uma profissão no futuro, o que acontece até hoje, 40 anos depois.
Ao lado de amigas, época que Ana Lúcia iniciou suas habilidades na fotografia
Foto: Acervo de Ana Lúcia |
A presença feminina na cobertura de eventos chama atenção
Passados dois anos, ela e o namorado Orlando Wolski montam o Fotorama na Rua Coronel José Dulce. A essa altura ela já sabia fotografar e fazer a revelação. Eles então passaram a fazer as coberturas fotográficas dos principais eventos que aconteciam em Cáceres, tais como casamento, aniversários, Baile de Debutantes, formaturas, etc. Foi ai que a presença feminina no mundo da fotografia, chama atenção dos cacerenses, que imaginavam que somente o homem poderia atuar na referida profissão, principalmente externamente…
Ana Lúcia quebrou esse possível estigma arraigado na sociedade local com competência e talento além de uma imensa vontade de vencer.
Ana Lúcia, no início dos anos 80, na loja do Fotorama
Foto: Acervo de Ana Lúcia |
Assim ela conseguia dominar a arte como uma veterana. Regulava a máquina, distância, abertura e o click certeiro na retratação de uma espetacular foto. A parceria com um dos patrões agora seu marido mostrava um entrosamento total. Nas festas de debutantes, por exemplo, o casal utilizava duas máquinas (120), uma era disparada pelo Orlando e a outra Ana Lúcia preparava para ser utilizada na sequência… assim numa dinâmica rotativa eles conseguiam cobrir os eventos sem perder nenhum lance de emoção.
Nos festivais internacionais de pesca, Fotorama montava um estúdio de campanha
Foto: Acervo de Ana Lúcia |
Do analógico para o digital
A evolução tecnológica mexeu bastante com a primeira mulher a cobrir reportagem fotográfica externa em Cáceres. Ela, que domina o mundo analógico onde aprendeu lidar e a dominar as máquinas fotográficas, suas companheiras de jornadas iniciais na profissão, eis que de repente passa a deparar com dificuldades para inserir no mundo digital, não poderia mesmo ser diferente.
Teve que buscar ajuda de um amigo que lhe passou as noções básicas iniciais, recorreu a internet, revistas, e atualmente já domina a nova era.
Ana Lúcia sabe perfeitamente que o seu limite está próximo de expirar na profissão que abraçou por essas quatro décadas.
Atual localização do Fotorama, esquina da Rua Padre Casemiro com a Antonio Maria
Foto: Wilson Kishi |
Ela ainda se mantém com as portas abertas na Rua Padre Casemiro com a Antonio Maria graças ao trabalho de restauração de fotos antigas, que a bem da verdade, ficam totalmente novas após a dedicação e esmero das mãos da profissional mais antiga em atividade na praça de Cáceres.
O local também neste início de ano, é bastante visitado pelos estudantes que procuram a foto 3×4 para a documentação escolar.
A profissional sente-se realizada. Sabedora que o seu comércio de prestação de serviço fez muito pela população cacerense ao longo dos anos que passaram. Sempre presente nos principais eventos que marcaram a vida da cidade, ao oferecer um trabalho com eficiência, presteza e competência.
Assim, Ana Lúcia, a fotógrafa mais antiga em atividade em Cáceres, ocupa grande parte de seu dia com a arte da fotografia como numa simbiose entre a câmera e o ser.
Na loja atual, Ana Lúcia esbanja simpatia com sua ferramenta de trabalho
Foto: Wilson Kishi |
![]() |
Entregando uma restauração de fotografia para uma cliente
Foto: Acervo de Ana Lúcia |
Ana Lúcia entre seus quatro filhos: Ludmila, Pedro, José e Alexandre
Foto: Acervo de Ana Lúcia |
Entre filhos, nora, genro e netas
|
Em passeio na Itália, com o filho Alexandre e a nora Paula
Foto: Acervo de Ana Lúcia |

































Uma resposta
Boa Tarde!
Gostei muito de poder ler um pouco da história de Ana Lucia Fornanciari. Pois, a conheci há muito, quando, pude trabalhar em sua casa, seu lugar mais precioso, e compartilhar um pouco de sua essência e humanidade. Gratidão por toda a aprendizagem e amizade.