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A caminho para o Plano Municipal Climático de Cáceres: Um Território, Uma Responsabilidade Compartilhada

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Cáceres é um dos maiores municípios do Brasil, com cerca de 24 mil km² de área — e aproximadamente 65% desse território está inserido no bioma Pantanal, uma das áreas de maior relevância ecológica do planeta. Um dado fundamental que precisa ser reconhecido: as propriedades rurais mantêm, frequentemente, áreas de preservação muito maiores do que o mínimo exigido por lei. Somando unidades de conservação, Reservas Particulares do Patrimônio Natural, Áreas de Preservação Permanente e as Reservas Legais mantidas por produtores, estima-se que mais de 32% de todo o território municipal esteja sob proteção. Isso significa que a propriedade rural não é inimiga da preservação — é sua principal guardiã. O agro e a natureza aqui não estão separados: fazem parte do mesmo território.

Os dados e reflexões apresentados foram elaborados a partir dos resultados da Oficina de Mobilização e Planejamento Climático Municipal, realizada nos dias 17 e 18 de agosto de 2026, promovida pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo de Cáceres – SEMATUR, com apoio técnico e parceria da instituição francesa OpenClimate, responsável pela metodologia e plataforma CityCatalyst, além da colaboração do Programa Mutirão Brasil Cidades Amazônicas e da rede C40 Cities. Essa parceria internacional reforça a importância da realidade de Cáceres para as discussões globais sobre clima, ao mesmo tempo que traz ferramentas adaptadas à nossa realidade local.

Os números técnicos indicam que as emissões líquidas de Gases de Efeito Estufa em Cáceres somaram 10.565 ktCO₂e em 2022, sendo 98,2% delas relacionadas ao uso da terra e à cobertura vegetal. Esse dado pode parecer contraditório à primeira vista, mas ele reflete a dimensão do nosso território, não uma destruição generalizada: o Pantanal se preserva com os pantaneiros — são as famílias, produtores e comunidades tradicionais que, ao longo de gerações, mantiveram o modo de vida compatível com o bioma e conservaram o que temos hoje.

Os participantes da oficina, representando diversos setores da sociedade, poder público, produtores rurais, comunidades e conselhos municipais, reconheceram e votaram nos três principais desafios que precisam ser enfrentados com urgência: inundações e alagamentos urbanos, segurança hídrica e eventos de seca, e elevação da temperatura com ondas de calor. Completam o cenário os riscos de perda de biodiversidade e o aumento da geração de resíduos sólidos e poluição hídrica. Os problemas não vêm da produção — vêm do desrespeito ao território e da ocupação desordenada.

Diante dessa realidade, a dimensão do agro entende que é fundamental avançar unindo três perspectivas integradas: a perspectiva ambiental, que defende preservar nascentes, matas ciliares e respeitar os ciclos naturais, pois a produção só existe se a natureza for cuidada; a perspectiva econômica, que valoriza o que é produzido aqui, agregando valor e fortalecendo uma economia que respeita o território, inclusive com a estruturação de pequenos centros produtivos nas comunidades rurais; e a perspectiva social e cultural, que fortalece as famílias, o conhecimento tradicional e a identidade pantaneira, reconhecendo que quem cuida da terra merece viver com dignidade.

Os desafios climáticos não pertencem só ao campo, nem só à cidade: eles são de todo o território, e o que acontece em uma parte reflete na outra. A água que vem do campo abastece a cidade, e o cuidado que se tem na cidade protege os rios que correm pelo Pantanal. Na área urbana, os problemas das ondas de calor, das áreas inundáveis e do acúmulo de resíduos afetam a todos, mas também podem ser enfrentados por todos, sem culpas ou divisões.

A proteção do meio ambiente é, pela Constituição Federal de 1988, um direito fundamental de todos e um dever conjunto do Poder Público e da coletividade. Isso significa que não é preciso esperar apenas por grandes obras ou decisões de terceiros para começar a mudança: cada um pode contribuir com atitudes simples, que somadas fazem toda a diferença. Para proteger a água e evitar alagamentos: não jogar lixo nas ruas, bueiros, córregos ou margens de rios; manter áreas de solo permeável; respeitar as áreas de preservação; usar a água com cuidado e reaproveitá-la sempre que possível. Para amenizar o calor e proteger o clima: plantar e cuidar de árvores, preservar a vegetação existente e evitar desmatar sem necessidade. Para reduzir a poluição: substituir sacolas e copos plásticos por materiais reutilizáveis, separar corretamente o lixo, reaproveitar o que for possível e dar destino adequado a resíduos como óleo, pilhas e baterias.

Para construir o Plano Municipal Climático que realmente funcione e permaneça, é preciso ainda mais: aprofundar pesquisas e dados sobre a nossa realidade local, criar um banco de informações acessível a todos, garantir transparência sobre o uso dos recursos públicos e dar continuidade às ações iniciadas — não deixando que projetos importantes se percam com a troca de governos. O plano não pode ser de um grupo só, nem de uma gestão só: deve ser construído com a comunidade, discutido, apropriado e mantido por todos, para servir às gerações presentes e futuras.

A mudança que queremos não vem de um lado só: vem quando campo e cidade caminham juntos, reconhecendo que o bem comum depende da colaboração de cada um. Cáceres não precisa escolher entre o Pantanal e o desenvolvimento — precisa entender que um depende do outro, e que o caminho é construir soluções que respeitem o território, valorizem as pessoas e cuidem da nossa casa comum.

Referências:
Constituição Federal de 1988 (Artigo 225); Lei nº 12.651/2012 (Código Florestal); Lei nº 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos); Perfil de Emissões de Cáceres — Bússola Climática 2025; Plataforma CityCatalyst / OpenClimate (França); Diagnóstico de Áreas Críticas e Capacidade de Gestão para Adaptação do Clima — Cáceres 2025; Relatório da Oficina de Mobilização e Planejamento Climático Municipal — SEMATUR, 2026; Dados IBGE e SOS Pantanal.

Fernanda Machado,
Dra. Em Sustentabilidade, embaixadora do projeto Vozes Da Pecuária.

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