Crônicas

TU JÁ DISSESTES

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Lá iam os anos 60, início dos 70, Cáceres bombando em cultura e lazer… Eram 4 cinemas, “Palácio”, “Copacabana” “São Luis” e depois “Pedutti” na Praça Duque; Eram 4 clubes sociais, “Humaitá”, “Mato Grosso”, “União Operária” e “UBSSC”; Eram 2 jornais, “Correio Cacerense” e “Jornal de Cáceres”; Eram 3 grandes colégios, “Onze de Março”, “ISM” e o Colégio das “Irmãs”. O “footting” da moçada, os namorados de mãos dadas, o(a)s solteiro(a)s aos pares, no calçadão da Barão, do Hispano Hotel ao Bar do “Jucão”. Iam e vinham como uma onda do mar. O Dito, pelo auto falante, fazia a propaganda do filme do Copacabana. O perfume no ar. No Bar do Jucão as cervejas nas mesas, a catinga da fumaça do cigarro no ar. Quando chovia o dito atacava com “Chove Chuva” de Jorge Bem…

No Coreto da Barão, aos Domingos após a missa na Catedral, as memoráveis retretas com a sempre elogiável Banda do 2º B. Fron, sob a batuta do Capitão Lenírio e do Tenente Valdemar. Era bom, ô se era… Grande público a se deleitar com as lindas canções saídas dos metais tão bem executados por aqueles profissionais da música que se enchiam de orgulho pelos aplausos da grande plateia. Depois o “footing”, o flerte, o filme com a mão na mão no escurinho do cinema e a cerveja… Bons tempos, parecia uma grande família, todos conheciam todos…

Quanta saudade… estou ficando nostálgico. E hoje? O que temos? Temos, após a missa na Catedral, um bando de jovens com seus carros (a grande maioria dos pais, pois poucos trabalham),  cheios de som muito caro e muito ALTO, e o gosto das músicas, músicas??? São altamente discutível. É uma guerra de centenas de decibéis em cada carro, imbecilizando os executantes e os executados: nós outros, vítimas dessa desgraça…

E havia o Seu Garcia, Luiz dos Santos Garcia, severo e intransigente Inspetor de Menores. Do alto dos seus 1,80 m com sua inseparável lanterna de 3 elementos, olhava os meninos à entrada do cinema. Se o filme era proibido para menores de 14, só entrava quem tivesse mais… Se era proibido para menores de 18. pronto. Aí o bicho pegava. Não entrava mesmo!!! E não havia argumento que servisse:

– Seu Garcia, esqueci minha identidade em casa, mas já sou ‘de maior’, deixa eu entrar…

Não !

– Seu Garcia, completo 18 anos depois de amanhã, deixa eu entrar…

– Não !

– Seu Garcia, vou pedir prá papai falar com o senhor pra deixar eu entrar, tá bom?

– Não !

Num determinado Domingo, passava um filme proibido para menores de 14. Lá estava Seu Garcia, de pé, com sua lanterna debaixo do braço, atento a qualquer engraçadinho que quisesse burlar a sua vigilância… Aí se apresenta à sua frente, bem vestinha e perfumada a Iara Atala, ainda não completara os 14, muito jovenzinha, com as mãos na cintura e diz:

– Seu Garcia, quer dizer então que eu não posso entrar?

Imóvel feito uma estátua, respostou:

– Tu já dissestes!!!

(*) Emilson Pires de Souza
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Cáceres
09/08/2013. Um abração aos compadres “Pídio Véi”

8 respostas

  1. Apenas para esclarecer. Meu comentário refere-se ao João Marques Fontes que afirma ter fotografado a cidade. Com certeza há fotos de Cáceres em acervos privados que nem imaginamos. O ideal seria digitalizar todas as imagens, pois ao longo do tempo muitas vão se perdendo.

  2. Hoje moro em Cuiabá, mas jamais esquecerei da querida Cáceres, onde meu primogênito nasceu. Passei momentos inesquecíveis aí na princesinha do Paraguai. Parabéns por relembrar os velhos e bons tempos da nossa querida Cáceres.

  3. Belas lembranças. Cheguei em Cáceres-MT com minha Família nos anos 70. Eu tinha apenas 12 anos e fui estudar no ISM. Adorava ir de bicicleta para o Colégio dos Freis. No período da tarde tinha ensaio da Fanfarra sobre a regência do Frei Matheus, rígido quê só. Lembro muito bem o senhor Garcia. Boas lembranças quê ficam na história.

  4. Participei de tudo. Cinema em todas as salas, bailes em todos os clubes, missa em todas as igrejas, sendo a domingueira na CATEDRAL e muito mais. Garcia fez minha irmã, Maria das Graças, ir pra casa dormir mesmo estando acompanhada de meu pai João de Oliveira e minha querida mãe Luiza ( Luizinha Marques).
    Eita tempo bom.
    Mas tudo vai passando.
    Fui proibido pelo padre Jair de fotografar o interior da catedral (sem missa no momento) e o marco do Jaurú, com o argumento de que eu teria que ter autorização de órgão competente. Bem, temos que nos adaptar com a diversidade de ideias. Abraços aos conterrâneos.

    1. Que delícia ler o que vc escreve, realmente uma saudade que não acaba. De tudo que ando lendo das meninas da minha época, a preocupação com a idade,outras com o corpo, com a saúde, enfim, quase como antes com uma pequena diferença, eu pelo menos, nada que precise mexer com o corpo (artrose), mas continuo firme na vontade, dias atrás,fui em Aparecida,o ônibus um pouco apertado,e fui sendo empurrada cada vez que a passageira da frente se espichava, não tinha onde colocar a perna, se eu pendurava doía muito , depois de muito tempo,no dia seguinte, não aguentei e reclamei, pois se não faço isso, ia chegar em Aparecida sem poder mexer a ponta do pé. Trocamos de lugar, a organizadora da excursão falou com a viajante da frente. Melhorou… Minhas costas suportaram os joelhos da irmã de viagem,e fiquei quieta ( com o tempo passando velozmente, vamos, temos que aprender que o silêncio na maioria das vezes é um bem grandioso,). Apaixonei por Aparecida, esta Nossa Senhora é minha madrinha de batismo,sem humanos para representá-la. Minha mãe, a pedido da enfermeira colocou Yara para completar, pois seria apenas Benedita, para mim,sem problemas,pois São Benedito é maravilhoso também, foram 3 dias inesquecíveis, tudo valeu a pena, a madrinha não vai falar, algumas coisinhas, lindas igrejas: a pequena,perto do hotel e a outra toda trabalhada manualmente, enfim, só vendo para sentir as boas vibrações. Quanto ao seu Garcia, demos um trabalhinho para ele nos filmes ‘proibidos”, hoje a TV mostra tudo claramente, cuidarmos das nossas crianças para não pensarem que não existe mais Amor nos relacionamentos, existirá sempre, assim como no filme que assisti há muito, muito tempo atrás, e ontem revi na Netflix, COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE, um Amor tão grande,vai te envolvendo e vc,ri e também chora, chorei com vontade, mulheres como Tita, estão diminuindo sim, pois no tempo passado em que ela viveu, não deixou seu amor morrer, a colcha gigante que vai tecendo no tempo, é infinita como seu amor, não acaba NUNCA. Amigo Misim obrigado por ter lembrado de mim.

    2. Você comentou que fotografava a cidade. Vi um vídeo seu no YouTube sobre equipamentos fotográficos antigos. Por ventura, você possuí fotos antigas de Cáceres? Sobre o artigo, devo dizer que eu não morava em Cáceres nessa época, mas passava as férias universitárias na cidade e conheci o Sr. Garcia (“o guardião da moralidade”). Caso possua imagens da cidade e moradores seria muito interessante compartilhar.

  5. Memorável seu texto. Cheguei a pedir a morte do seu Garcia (!!). Ainda bem q ele viveu bastante pra eu ter tempo de pedir-lhe perdão. Grande figura!!!

  6. A NOSTALGIA DOS ANOS DOURADOS,

    MUITO BEM TRAÇADAS ESSAS LINHAS

    VIVENCIOU SUA PRÓPRIA INSPIRAÇAO.

    FICARAM SÓ AS CINZAS NA MEMÓRIA …

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