Acho que é por isso que eu não queria ficar velho… É a treva, como diria a mocinha da novela… Depois dos 60 é isso aí, só recordações de momentos bons e ruins também, não tem como você escolher só as boas…
POLÍTICA
Tia Ana (Ana Garcia), morava em frente à Prefeitura, de vez em quando eu e Aparecida íamos na casa dela beber um cafezinho. Numa dessas eu perguntei a ela:
– Tia, a senhora imagina quem vai ser o nosso Prefeito?
Era o tempo da “gloriosa”, quando os Prefeitos de Cáceres, por ser município de Fronteira, eram indicados… Aí ela nem contou até um e respostou:
– Eu ‘atcho’ que vai ser o Dr. Luiz Ambrósio, ‘cabei’ de falar com ele, minha boca ‘inda’ tá quente…
SERENATA
Final dos anos 60, início dos 70 do século XX, a Jovem Guarda dava o tom do som e dos gostos musicais da época, nós os jovens de então, fazíamos, prás nossas namoradas, lindas serenatas, com lua e sem lua… à meia noite apagavam-se as luzes da cidade (o fornecimento de energia era por grupo gerador), aí começava as atividades dos seresteiros. Utilizávamos as vitrolinhas à pilha, eram 6 ou 8 pilhas “A”. Antes de apagar as luzes, escolhíamos os “long plays” de 33 rotações, em cada um o lado, A ou B e, naturalmente as faixas que tocaríamos com a seqüência certa, isso era anotado num papel e cada participante fazia as suas escolhas, via de regra cada participante da serenata podia escolher até 3 músicas, dependendo do número dos partícipes, também era obedecido o roteiro das casas onde moravam as namoradas. Logo após apagarem-se as luzes, chegávamos, bem devagar, sem fazer o menor ruído à janela da escolhida e começávamos a serenata. Havia por parte dos pais, uma tolerância tácita e muito dificilmente alguma rusga por parte deles. Era bonito e bom. Como era bom. Havia certa voluntária ingenuidade nesses procedimentos, com muito respeito às moças e às suas famílias.
Isso acabou! Não tem mais serenata, não tem mais respeito às moças, não tem mais respeito às famílias. Nostálgico, penso que nem elas mesmas se respeitam mais…
DIRIGIR CAMINHÃO
Conta o Herly, que em tempos idos, no interior de Goiás, lá prás bandas de Mineiros, (que nos anos 80 foi um grande centro médico-hospitalar interiorano, bem interiorano e, com certeza, o motivo de tal boom médico-local, não foi a tecnologia empregada, mas a humanidade empregada. É com prazer que me lembro de ter levado, juntamente com papai, o meu irmão Jorge para tratar-se de um mal gástrico. O tratamento foi bom, mas muito melhor foi o tratamento humano recebido no Hospital pelos médicos, enfermeiros e auxiliares, e ainda melhor, foi a recepção que tivemos do Seu Aldemar e Dª Idoquir, in memorian, pais do amigo e irmão Herly), um senhor já de idade comprou um caminhão zero bala e deu pros seus dois filhos. O mais esperto era o “Guele” (Miguel), numa das viagens os irmãos tinham que passar numa estradinha bem estreita, entre duas árvores que estreitavam ainda mais a estradinha estreita, quando o Guele sentencia:
– Temos que voltar, o caminhão não passa aqui, é muito estreito…
Aí o irmão mais novo tem um momento de estranha lucidez e grita:
– Guele, afasta o caminhão, açulera que ele afina e passa…
Não deu outra, foi só pedaço de boléia e carroceria que voou.
Por incrível que pareça, também aconteceu em Custódia PE, meu torrão natal no sertão pernambucano, idêntico caso. A diferença era o veículo, tratava-se de um Jeep 1954 do Seo Joaquim Pereira, um ilustre e ilustrado conterrâneo, dono da Farmácia “Pereira”. Em frente ao Posto Fiscal haviam uns moirões que impediam o trânsito de veículos que não fosse pelo vão central, onde havia uma grande cancela… Ao lado do vão central podia passar veículos pequenos, mas seu Joaquim Pereira descuidou-se um pouquinho, o suficiente para arrancar o pneu de estepe que ficava ao lado. Perguntado por Pedrinho, seu filho Cirurgião Dentista, bom de Latim, disse dando ênfase as palavras:
– Não foi nada, isso foi um simples toque!
Essa me fez lembrar do Faquini, quando da primeira viagem num fusquinha por todas as cidades da grande Cáceres, ele pilotando se dizia excelente motorista porque, inclusive, já havia pilotado um grande “Tissot”. Aloísio de Barros era o proprietário do Jornal “Correio Cacerense” e resolveu fundar o “Jornal dos Municípios”. Faquini era então o seu Redator Chefe. Essa viagem foi para o Faquini me apresentar aos Prefeitos de cada Município, com a finalidade de, semanalmente, eu fazer a captação de notícias. Eu saía na Segunda Feira bem cedinho e tinha que retornar no máximo na Quinta Feira de manhã, prá dá tempo de montar o Jornal que eu mesmo tinha de levar a cada município. Era um trabalhão, era puxado… Chegamos já tarde da noite em São José dos Quatro Marcos, após um lanche, dormimos num hotelzinho que não me lembro o nome, nós dois num mesmo quarto. Eu disse:
– Faca, enquanto você pega no sono vou ler essa “Veja” porque eu ronco… e é muito…
– Deixa de bobagem, deita aí porque nós temos que levantar cedo, eu não ligo prá ronco não…
Deitei. Quando começo a pegar no sono vem o Faca e me acorda com um sopapo, dizendo:
– Ouve aí ó, isso é o seu ronco que eu gravei, assim não dá…
Foi um rebuliço porque me senti ofendido, uma vez que além de admitir que eu roncava, avisei que era muito…
Passou.
SEU DITO CARTEIRO
Meus contemporâneos se lembram bem do Seu Dito Carteiro. Ele entregava as correspondências a pé, andava Cáceres inteira a pé, entregando as cartas. Ao tempo dava prá fazer assim porque Cáceres era o seu miolo, era bem pequena. Amigo querido de todos, não havia quem não gostasse dele, era unanimidade, com seu sorriso banguela era realmente muito agradável. Uma vez na casa do tio Namy Ourives, ele pediu um copo d’água e Namynho lhe pergunta:
– Seu Dito o senhor quer quente ou fria?
– Quente Namynho, eu quero quente…
Namynho pega da chaleira que estava no fogão, enche o copo e lhe dá. Aí ele ficou brabo…
Quando ele passava havia sempre alguém a lhe perguntar aos gritos:
– Seu dito, cadê a carta?
– Tá ‘escreveno’
respondia ele no mesmo diapasão, dando uma cusparada de lado…
MENINO, VOCÊ TOCA?
O tio Namy Ourives, coletor estadual, era excelente tocador de cavaquinho e bandolim, um verdadeiro chorão, isto é, executava como ninguém os chorinhos brasileiros, como o “brasileirinho…”. Certa vez estava tocando no Humaitá, e no intervalo, Zé Mário Castrillon, ainda menino, pega o cavaquinho e dedilha as cordas do instrumento, quando o tio Namy percebe, vai até ele e pergunta:
– Menino, você toca?
– Tocar num toco, seu Namy mas arranho…
– Vá arranhar o cú da mãe!!!
O Zé Mário se retirou, sem graça, encabulado e envergonhado…




























11 respostas
Não vou diser categóricamente que relembrar o passado seja a melhor coisa do mundo, mas que faz bem pra nossa mente e para nossa alma isso sem dúvida.
Obrigado Micim, é muito bom lê seus relatos como faz bem e nós viajamos nos tempos idos
Parabéns compadre Micin, momentos únicos na nossa vida que não voltam mais e só quem viveu com amor pode trazer vida nessas lembranças, Parabéns compadre obrigado por nós trazer essas recordações. 👏👏👏
Recordar é viver! Obrigado Emilson , por resgatares lembranças de pessoas queridas e “causos” curiosos. São viagens no tempo, por ti proporcionadas. Parabéns pela iniciativa. Fraterno abraço!
Micim e seu baú de memórias. Amoooo!!!!
Adorei Tio Micim. Fico lendo e imaginando cada cena. Sua habilidade de contar os “causos” é sensacional. Vai arranhar o cu da mãe foi demais. (Risos)
Parabéns tio. Só aguardando a próxima.
Boas recordações. Adorei. Principalmente da parte da serenata.
Parabéns Emilson, sabe das coisas.
Amigo Emilson
Parabens pelas crónicas,me considero teu Fã número UM, receba meu T:. F:. A;.
Muito bom Compadre e irmão Emilson!!
Parabéns.
Quando o Fachini viajava à noite, não dispensava a traseira de um caminhão tipo baú visando preservar a visão. Segundo ele próprio, os faróis dos veiculos o incomodava e não importava o tempo e sim a segurança de um de um caminhão baú.
Afora isso, seu velho fusca amarelo, retornava a Cáceres com sacos de feijão, banana, arroz e às vezes trazia até “porco”. Presentes que ganhava dos amigos onde ele ia redigir o “Correio da Região”.
Velho a tempos – Belos dias.
Muito importante essas histórias verdadeiras parabéns ao publicador