Crônicas

Seu Arcide o meu corpo pede trabáio!

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Anos 60 do século XX, Cáceres fervilhava. Nunca vi tanta gente vindas de todos os quadrantes desse nosso Brasil varonil e nós não tínhamos a menor estrutura para receber tal contingente.

O município de Cáceres era um gigante despovoado. Com o advento da Ponte Marechal Rondon, tem início o desbravamento de toda essa Amazônia legal, com a natural expansão da fronteira agrícola. Era Governador do Estado o Dr. Pedro Pedrossian, que homenageou os imigrantes-colonos, com uma grande enxada estilizada fincada ao pé da ponte Mal. Rondon, com a inscrição: “Aperto as mãos calosas dos colonos como se apertasse contra o peito o coração da própria terra”.

A CODEMAT abria e povoava Rio Branco e Salto do Céu com a doação de Lotes de Terras de 24 e 48 ha, surgia Lambari, Panorama, Cristinóplis e Reserva do Cabaçal com imigrantes do Nordeste, de Minas Gerais e Espírito Santo. Concomitantemente os paulistas chegavam a Mirassol d’Oeste e São José dos Quatro Marcos, comprando lotes de terras das Empresas Colonizadoras. Araputanga nasce com os mineiros, também com vendas de lotes de terras. É nesse momento histórico que Alcides Vidal Salomé adquire, por compra ao Dr. Nelson Costa Marques, uma pequena fazenda bem próximo ao povoado. Para abrir a fazenda, torná-la habitável e agricultável deu trabalho. Lembro-me que o Alcides muitas vezes viajara de bicicleta, levando tudo que podia, era brinquedo não… E abriu e habitou e cultivou, tornando-a viável e rentável.

Quando ouço ou vejo o famigerado MST, arbitrariamente invadindo terras, exigindo terras para pessoas que, na maioria das vezes não são da terra nem de terra, e recebem de mão beijada a tal terra, dinheiro a fundo perdido para construir casa etc etc etc… não consigo deixar de comparar, a atividade passiva de só receber e exigir direitos desses pseudos agricultores que, via de regra, vendem o que recebem para de novo, em outro lugar, receber, de novo, nova terra e de novo vender num círculo vicioso e interminável faz-de-conta que sou da terra… com a luta árdua e brava do verdadeiro desbravador e agricultor, Alcides Vidal Salomé.

Depois de tudo arrumado, casa de alvenaria construída, fazenda cercada, algumas cabeças de gado, precisava de um ajudante para dar conta da lida no campo, quando aparece um senhor acompanhado do seu filho, um rapaz de 19 ou 20 anos, forte, musculoso. Acertado e combinado o trabalho a ser realizado e o pagamento do salário, o Seu Armando e seu filho, Alberto, ficaram na primeira casa construída, de tábua coberta de sapé. Ainda não havia clareado o dia e já lá estava o Alcides e Seu Armando rumando para o curral prá tirar o leite das vacas quando o Alcides pergunta:

– Ô Seu Armando e o seu filho não vem dá uma ajudazinha?

– Vem não Seu Arcide, ele disse que não tá bem não, acho que não dormiu bem e parece que tá com um mal estar…Tá lá dormindo.

E a lida dura no campo continuou. Já eram seis e meia quando eles foram comer o quebra torto (café da manhã reforçado com carne assada, queijo, leite, pão etc) para agüentar até a hora do almoço. À mesa estava o rapaz comendo com uma voracidade que dava gosto de ver. O Alcides então pergunta:

– E aí, você já melhorou do mal estar?

– Melhorei não Seu Arcide, tô ruim…

– Ah! isso é um mal muito perigoso. Já vi isso antes de um rapaz que nem você e ele quase morreu. Vou preparar um remédio que é tiro e queda, você vai ficar bom, mas tem um porém, enquanto você estiver tomando esse remédio, você não pode comer nada, nada, entendeu? só pode tomar de vez em quando um pouquinho de água e também não pode ser gelada.

E voltou com o tal remédio. Era um garrafa grande, de plástico, dessas de refrigerante cheia até a tampa de um líquido meio esbranquiçado e disse ao doente:

– Você vai começar a tomar esse remédio agora, é menos de meio copo desse de 200 ml, de 3 em 3 horas. Não pode esquecer de tomar na hora certa senão não faz efeito e o perigo é grande e não se esqueça não pode comer nada, entendeu? Fique deitadinho que sara mais depressa.

– Entendi Seu Arcide.

E voltou pra casa de tábua coberta de sapé com o remédio na mão e a dúvida na cabeça sobre a Arcideterapia.

No almoço o rapaz não apareceu, na janta também não, no quebra torto do outro dia, nada…Mas na hora do almoço eis que surge o jovem mancebo com um sorriso na cara falando bem alto, batendo no peito:

– Seu Arcide, tô curado. Meu corpo pede ‘trabáio’

Santo remédio a Arcideterapia: cinza de fogão a lenha com água.

(*) Emilson Pires de Souza
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Cáceres
30/08/2013. Um abração aos compadres “Pídio Véi”

4 respostas

  1. Cabra da peste, danado de trabalhar foi senhor Alcídes, lembro-me quando a família do mesmo morava ali na rua 06 de Outubro, próximo da Mapili, eu e meu irmão, íamos a rua residência, brincar com seus filhos, que era nossos colegas, lá no ISM.

  2. Que história, digna de um Monteiro Lobato. As aquisições de terras naquela época, deveria ser exemplo para os “tais” sem-terra de hoje!

  3. Se a reforma agrária no Brasil tivesse sido feita no século 19, como na Europa e EUA, nem haveria MST. A ganância dos grandes proprietários atrasou a agricultura brasileira e favelizou as cidades, gerando tantos problemas que poderiam ser evitados.

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