Antonio Costa
Consta nos anais da igreja católica de Cáceres-MT, presenças de dedicadas mulheres que deram grande parte de seu tempo ao serviço religioso, como se a igreja fosse extensão do lar de cada uma delas.
Assim que nesta oportunidade estamos estampando como forma de homenagear àquelas dedicadas servas que prestaram grande oficio e comprometimento com as causas do Senhor neste lado do pantanal mato-grossense. Hoje a nossa bicentenária cidade festeja seus 248 anos, quantas vidas, lutas e uma história recheada de significativas intervenções ao serviço divino, como este nosso recorte.
Pela disponibilidade de informações prestadas pelo sobrinho Mariano Leal de Paula, o Mariano Peregrino, escolhemos uma beata que marcou história, a conhecida e saudosa Dona Fia do seu Chico, moradora das imediações da Praça Vilas Boas na Rua Bom Jardim.

Também nesta oportunidade reverenciamos a vilabelense Dona Teodora que por décadas puxou o canto nas celebrações da Catedral São Luiz, ela que foi integrante fervorosa do Apostolado da Oração.
Outro merecedor da nossa lembrança: Joaquim Ponciano, artesão de mão cheia na confecção de utensílios em madeira, a exemplo do remo, colher de pau, gamelas, e até mesmo canoas. Ele por vários anos tinha a incumbência de acordar logo cedo e caminhar da Rua Bom Jardim até a Praça Barão do Rio Branco, para tocar o sino da Catedral São Luiz, promovendo marcantes e inesquecíveis badaladas que ressoam através das memorias daqueles que viveram essa época.
Mariano Leal e sua esposa Joana D´Arc com a tia Fia
Ariadné Leal de Arruda e Silva, a Dona Fia, nasceu em Cáceres, em 22/03/1918, faleceu em 09/09/2011, Cuiabá; costureira, em especial nas fardas militares, especialista em fazer doce de figo, foi casada com Francisco de Arruda e Silva.
Dona Fia, carinhosamente tia Fia, conforme Mariano, era uma pessoa simples e humilde que no seu jeito teve uma vida voltada na prática do bem, sempre conciliando o seu tempo com os afazeres da igreja e servindo ao próximo.

Quando provocada, gostava de dizer em alto e bom som que era Católica Apostólica Romana, e assim grande parte de sua vida foi dedicada a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, bem como a Catedral de São Luís, muitas vezes trabalhando como verdadeira operária de Cristo na organização e limpeza dessas igrejas e até mesmo na casa do bispo.
Era membro ativa da Congregação do Apostolado da Oração e foi através da “tia Fia que tive o privilégio e a bênção em ter o meu nascimento para vida cristã. E tudo começou quando criança fui morar com ela na rua Bom Jardim, quando a minha mãe – Joanita Leal de Paula, – irmã da tia Fia – e demais irmãos, saindo da pacata cidade de Rio Verde de Mato Grosso, foram morar um período na cidade do Rio de Janeiro, levado pelo seu querido irmão, Oriente Leal, por sinal vindo a ser meu sogro”. Recorda Mariano.
“Posso dizer sem medo de errar que esse meu tempo com a tia Fia, era todo voltado na grande religiosidade que ela cultivava, já no alvorecer saíamos para a missa das cinco horas celebrada pelo saudoso e bondoso Padre Paulo Maria Cabrol. Sempre me vem à mente essa caminhada diária, rezando o sagrado Terço e ao passar pela praça Duque de Caxias, à nossa espera estava na porta de sua residência a querida prima Neuza Cardoso Pinto de Arruda”.
Carta enviado pelo Padre Paulo à dona Fia no Rio de Janeiro
Tia Fia e Padre Paulo, segundo Mariano, nutriam muito respeito, admiração na vivência católica. E nesse engajamento, ele revela que aconteceu a sua participação como coroinha do bom padre, estendendo aos padres Elias, Amadeu e ao nosso então bispo Dom Máximo Biennés.
Dessa confiança adquirida junto ao Padre Paulo, Tia Fia no seu trabalho voluntariado passou a ser, podemos dizer assim, uma grande colaboradora nas rezas e visitas aos lares da cidade e em especial uma correspondente em ajudar e levar aos fiéis a Revista da Família Cristã e a Revista da Família, essa última uma publicação anual da Editora do Servo de Deus, Padre João Baptista Reus, sacerdote jesuíta, popularmente conhecido como Padre Reus.
A história do Padre Reus é toda voltada para a cidade gaúcha de São Leopoldo, onde encontra seu túmulo junto ao Santuário Sagrado Coração de Jesus, seu processo de canonização está em trâmites no Vaticano.

A Revista da Família, entre tantos e variados assuntos, em algumas páginas é sempre colocado algo sobre a vida do Padre Reus, a história, os relatos de graças, a Oração da Novena. Assim, Mariano Leal, acredita que por esse Servo de Deus ter dedicado e ser devotíssimo do Sagrado Coração de Jesus e da Virgem Imaculada; tenha estimulada a tia Fia ser do Apostolado da Oração; pelo trabalho do Padre Paulo, culminou sendo uma grande devota, “e junto me levando nessa fonte de fé”.
“O interessante que olhando a história, para os padres das antigas, o Padre Reus tinha em comum com o nosso Padre Paulo, a mesma caminhada da evangelização na visita aos lares diariamente.”
Ainda dentro da curiosidade, em 1974, indo buscar meus estudos na cidade de Rio Grande-RS, frequentava a Matriz de São Pedro, e lá o Padre Reus foi pároco no começo de 1900, ocasião em que os padres da congregação franciscana, vindo de Albi – França, chegavam à Cuiabá e aos poucos eram designados para as cidades de Nossa Senhora do Livramento, Poconé, Cáceres e Guajará Mirim, RO.

“Em 1976, fiz a minha primeira visita ao Santuário Sagrado Coração de Jesus, embora ainda não canonizado é conhecido como Santuário do Padre Reus, sempre que posso retorno a esse Templo Sagrado. Na minha vida de peregrino, tive a oportunidade de conhecer a bela cidade de Albi, terra de Dom Máximo, ex-padre Amadeu e local onde se encontram os restos mortais de Dom Galibert.”
Da minha fé – prossegue Mariano -, da minha vivência católica com a tia Fia, lembro com muitas saudades, como ela era forte na fé, nas preparações e nas missas, nas músicas a voz dela ressoava por toda igreja, entre algumas que não esqueço e mexe muito comigo: “Coração Santo, Tu Reinarás”, “Tão Sublime Sacramento”, “Queremos Deus”, e “A nós descei Divina Luz”. Pura vibração!
Tia Fia no seu jeito viveu para servir. Amém!





























2 respostas
Tive o privilégio de conhecê-la, participei várias vezes do Sagrado Terço todos os sábados a tardezinha. Sua sala era repleta de quadros e santos, todos com um significado explicado em detalhes pela saudosa dona Fia. Andava sempre com um crucifixo pendurado no pescoço. Sempre que meus filhos a via na rua, corriam para beijar a imagem. Enfim, frequentava muito a casa da minha mãe, Sebastiana, costureira da rua Sabino Vieira.
A ela todo nosso respeito e admiração. Exemplo de Fé a ser seguido.
Mariano, quanta história linda e abençoada você resgata nesta matéria! E quantas pessoas contribuiram para a grandeza da nossa Santa Igreja Católica!