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Da lida à liderança: a pecuária diante de um novo tempo

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A pecuária participou ativamente da formação econômica e territorial do Brasil. Mais do que produzir alimentos, ajudou a ocupar o interior, movimentar o comércio, formar comunidades e integrar regiões que permaneciam distantes dos grandes centros.

Durante o século XX, políticas como a Marcha para o Oeste e diferentes programas de colonização, crédito e infraestrutura incentivaram a ocupação produtiva do Centro-Oeste e da Amazônia Legal. Mato Grosso foi diretamente alcançado por esse movimento, recebendo famílias, trabalhadores e investidores que enfrentaram distâncias, estradas precárias, doenças, falta de energia e acesso limitado à saúde, à educação e à comunicação.

Foram pessoas que aprenderam a observar as chuvas, as secas, as cheias, os campos e o comportamento dos animais. A construção das propriedades exigiu coragem, resistência, capacidade de adaptação, visão estratégica, liderança e disposição para tomar decisões em condições de grande incerteza.

O gado teve uma função muito maior do que o fornecimento de carne. Representou alimento, leite, couro, trabalho, comércio e reserva de valor. Em regiões sem bancos, estradas ou mercados estruturados, o rebanho era um patrimônio vivo, capaz de crescer, deslocar-se e ser comercializado.

Ao redor da pecuária surgiram feiras, armazéns, charqueadas, curtumes, matadouros, frigoríficos, laticínios, transportadoras e serviços veterinários. A atividade gerou trabalho, renda e demanda por máquinas, medicamentos, combustível, crédito e assistência técnica.

O cavalo também foi indispensável. Transportou pessoas, mensagens, mantimentos e medicamentos. Permitiu reunir e conduzir os rebanhos, atravessar grandes distâncias e alcançar lugares inacessíveis por outros meios.

No Pantanal, essa parceria adquiriu um significado ainda mais profundo. Adaptado ao calor, às cheias e às longas jornadas, o cavalo pantaneiro tornou-se parte do trabalho, da cultura e da identidade regional. Homem, cavalo e gado construíram uma relação marcada pela sobrevivência, pelo conhecimento da natureza e pela produção.

A agropecuária, portanto, não é apenas uma atividade econômica. É também história, cultura e pertencimento.

Durante décadas, o produtor foi incentivado a ocupar, abrir caminhos e produzir. Mais recentemente, parte da pecuária passou a se sentir apresentada como se toda a atividade fosse incompatível com a conservação ambiental.

É necessário separar as diferentes realidades. Existem irregularidades que precisam ser fiscalizadas. Existem produtores que necessitam realizar adequações ambientais, trabalhistas, produtivas ou documentais. Entretanto, também existem muitos pecuaristas que conservam a vegetação nativa, protegem nascentes, recuperam pastagens, previnem incêndios e cuidam dos animais e dos trabalhadores.

Responsabilizar condutas ilegais é necessário. Mas generalizar a culpa enfraquece o diálogo e desvaloriza quem produz corretamente.

Muitas práticas atualmente associadas ao ESG já existiam nas propriedades antes de receberem essa denominação. Elas nasceram da compreensão de que não existe produção duradoura sem solo protegido, água disponível, pastagem bem manejada, animais saudáveis e pessoas comprometidas.

As mesmas competências para uma nova missão

O desafio da pecuária mudou. Antes, o chamado era ampliar a fronteira. Agora, é produzir mais e melhor nas áreas já utilizadas.

A coragem dos pioneiros precisa ser direcionada à adoção de tecnologias. A capacidade de adaptação deve ajudar a enfrentar as mudanças climáticas. A visão estratégica precisa orientar investimentos em recuperação de pastagens, genética, nutrição, reprodução, bem-estar animal e rastreabilidade.

Intensificar sustentavelmente não significa apenas aumentar o número de animais por hectare. Significa utilizar melhor o solo, a água, as pastagens, os animais, o trabalho e o capital.

Na perspectiva ESG, isso envolve conservar os recursos naturais, cuidar das pessoas e dos animais e administrar a propriedade com planejamento, regularidade, transparência e indicadores.

Essa transformação também depende do poder público. Não se pode exigir uma produção moderna e rastreável sem estradas, energia, internet, saúde, educação, segurança, assistência técnica, crédito e segurança jurídica. A permanência da produção sustentável depende da permanência digna das famílias no campo.

A pecuária precisa ampliar suas boas práticas, mas também tornar conhecido aquilo que já realiza.

Fazer corretamente é essencial; registrar, medir e comprovar também. Uma nascente protegida, uma pastagem recuperada, um trabalhador capacitado ou uma melhoria no bem-estar animal precisam ser transformados em evidências.

Comunicar sustentabilidade não é criar propaganda. É apresentar com transparência os processos adotados, os resultados alcançados e os compromissos de melhoria.

Quando o produtor não conta sua história, outras pessoas passam a contá-la — muitas vezes sem conhecer a complexidade da atividade e a realidade de quem vive no campo.

Por meio do projeto Vozes da Pecuária, estamos nos organizando para ouvir os produtores, compartilhar experiências e participar das decisões que afetam o setor. Queremos atender às novas exigências, mas também contribuir para que sejam construídas de acordo com as diferentes realidades da produção brasileira.

São justamente essas reflexões que a Pecuária Tropical pelo Clima, por meio do projeto Vozes da Pecuária, vem promovendo: um espaço de escuta, diálogo e construção coletiva sobre o passado, o presente e o futuro do setor. Ao reunir pecuaristas e diferentes atores da cadeia produtiva, o projeto permite reconhecer os avanços já realizados, identificar os desafios que ainda precisam ser enfrentados e construir soluções compatíveis com as diversas realidades da pecuária brasileira. Mais do que responder às mudanças, buscamos participar delas, fortalecer o protagonismo de quem produz e ampliar, entre nós e nossos pares, uma cultura de sustentabilidade baseada em conhecimento, experiência e resultados comprováveis.

A pecuária ajudou a construir o país. Agora, precisa utilizar sua coragem, experiência e capacidade de adaptação para liderar uma nova etapa: produzir com eficiência, comprovar seus resultados e tornar conhecida sua contribuição para um Brasil sustentável.

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