Crônicas

BOLIM BOLACHO, BOLE EM CIMA E BOLE EM BAIXO

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Estamos nos anos 40 do século XX, Cáceres tinha mais contato com a Europa do que com o resto do Brasil, os jovens de famílias abastadas iam estudar no Rio de Janeiro ou na Europa. A extração da ipecacuanha (poaia) estava a toda. As grandes casas comerciais negociavam com outras grandes casas comerciais europeias. As meninas ricas usavam costumes parisienses e o Colégio das Irmãs oferecia o que havia de melhor na educação e na cultura, a cultura francesa. Elas eram preparadas para serem verdadeiras “ladyes”: aprendiam além das matérias curriculares, desenho livre, trabalhos manuais, inclusive aprendiam bem a arte da música tocando piano… Eram efetivamente preparadas para serem as rainhas dos lares.

Como ainda não havia nenhum clube social na cidade, as festinhas aconteciam nesses bem cuidados lares. Não era diferente com o Carnaval, quando os jovens se reuniam e escolhiam esta ou aquela casa para a realização dos festejos de momo, podendo ser, como era, sempre mais de uma. As músicas eram sempre as mesmas: as preferidas marchinhas, sambas e de vez em quando um frevinho para animar a moçada… Era a Praça Barão do Rio Branco, mais precisamente o seu charmoso Coreto,  o “point” para tais reuniões e decisões.

Conta a veneranda Dona Marianinha, esposa do meu amigo Curvinho, de grata memória, que apareceu na época em frevinho animadinho que tinha um estribilho assim: “bolim bolacho bole em cima e bole em baixo”.

Na ausência de bandas ou conjuntos musicais, as músicas eram tocadas por alguém que tocasse algum instrumento de sopro, como era o caso do “Chô Fote” com seu clarinete arretado, aquele da feiúra, é que num desses bailes uma mocinha passa dançando em frente a ‘Chô Fote’ que manda ver um samba-canção melodioso em se clarinete, e pergunta em voz bem alta:

– Chô Fote, feiúra dói?

Chô Fote tirando o clarinete da embocadura respostou no ato do fosfato (como diria Valdete, também de grata memória):

– Num sei minha fia, mas se doê você deve gemer noite e dia…

Foi só risada. Mas voltando aos bailinhos de Carnaval, nesse não havia Chô Fote, nem nenhum outro tocador, cabendo tal responsabilidade a uma das encantadoras meninas que tocavam piano. E lá ia o baile toca uma, toca outra e outra até que obrigatoriamente, por falta de melhor e maior repertório, voltava ao “Bolim bolacho, bole em cima e bole em baixo”…

Dona Marianinha contava rindo, que no terceiro dia, quando o coro entoava “Bolim bolacho…” nem acabava o estribilho tinha gente correndo prá não vomitar fora do salão… O consumo de bolacha pela juventude, durante algum tempo, caiu quase a zero.

(*) Emilson Pires de Souza
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Cáceres
10/07/2014. Um abração aos compadres “Pídio Véi”

 

5 respostas

  1. Para o autor. Por acaso, a pianista de seu belíssimo relato não seria, Yolanda Widal, filha do meu avô, Coronel João de Campos Widal. Mamãe me contava dos bailes familiares que ela pilotava, por essa época, Tutu Melo

  2. Aplausos pra ti Micim( meu irmão), gratas lembranças, não sou contemporâneo a esse tempo, porém com a riquezas dos detalhes, agente consegue arremeter a esse tempo. Parabéns meu irmão

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