25/10/2021 - 06:00

Por: Antonio Costa / Zakinews

Timóteo Poconeano, uma vida dedicada à cadeira de balanço artesanal


 

 

Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews

O destaque da semana fica por conta da antiga e tradicional cadeira de balanço artesanal que deve estar bem próxima de alcançar o seu centenário de início da fabricação desta que se tornou em mais um Patrimônio Material de Cáceres-MT.

Relatos de antigos moradores da cidade revelam que a cadeira de balanço feita artesanalmente com tiras da espécie conhecida como urumbamba espinhenta, chegou a estas bandas do pantanal mato-grossense lá pelos idos de 1950 trazida pelo poconeano e exímio cantador de cururu, Timóteo de Almeida. Morador do Bairro da Cavalhada, Jardim Cidade Nova e o Jardim das Oliveiras, onde passou os seus últimos dias.

Ele tornou-se predileto amigo e companheiro nas cantorias e rezas de santo, do famoso cacerense Seu Lourenço da Guia Ferreira Mendes, 83, o artesão da viola de cocho.

Ambos se conheceram no ano de 1952. Recorda o artista cacerense que estava servindo no 2º. Batalhão de Fronteira oportunidade que conheceu um companheiro de farda que era tio daquele que viria ser reconhecidamente o maior fazedor de cadeira de balanço de Cáceres.

Poconeano de nascimento, ele mudou-se para Cáceres e trouxe a tradição de artesão da cadeira

Timóteo cantador das festas de santo

O tio havia perdido o contato com o sobrinho. Através do colega do exército Lourenço, que havia conhecido Timóteo Poconeano recém-chegado à cidade, este foi apresentado ao parente.

A partir de então nasceu uma profunda e respeitosa amizade entre eles, um vínculo que se rompeu depois de vários anos com a morte do artesão da cadeira de balanço aos 84 anos.

Seu Lourenço manteve uma amizade bastante estreita com o artesão. Nas rezas de santo a presença de ambos era uma constante. Timóteo cantava as toadas nas danças de cururu e siriri com entonação e destaque nos improvisos e arranjos sacros. Seu Lourenço aprendeu a “manha” com o saudoso amigo, ele não tem nenhum constrangimento de citar o seu professor como sua grande fonte de ensinamento e inspiração nessas cantorias que até hoje ele costumeiramente executa nos eventos em que é convidado a participar.

Consta que Timóteo de Almeida, 8 filhos, aprendeu o referido artesanato que foi através da vida seu principal ganha pão, com o velho pai ainda em Poconé-MT.

Integrantes da família sempre viveram da fabricação de cadeiras, foi então dos seus familiares que ele herdou a profissão que lhe ajudou a criar todos os seus 8 filhos.

Timóteo casou-se com a poconeana Pedrosa de Almeida que se tornou benzedeira famosa. Eles saíram fugidos e vieram morar definitivamente em Cáceres. O pai dela não aceitava o relacionamento.

Ele fez cadeiras até a idade avançada, aos 79 anos. Tinha seus habituais fregueses, a exemplo do saudoso João Costa Boiadeiro, que anualmente presenteava a mulher Odete com uma cadeira da fábrica de Timóteo. Ela costumava tirar uma reconfortante sesta diariamente logo após o almoço nos embalos do tradicional assento.

Vicência (Gia), uma de suas filhas
Foto: Toninho Costa

Devoto de São Sebastião durante 60 anos

Ouvido pela reportagem, uma das filhas do famoso artesão das cadeiras, Vicência a popular Gia, que na companhia do marido Santana Raizeiro comercializa ervas e raízes no Mercado do Produtor, se emocionou ao falar do velho e saudoso pai.

Ela garante que ele criou todos os filhos tendo a única renda da venda das cadeiras. O genro enfatiza que o sogro sempre foi uma pessoa “bastante tranquila, honesta e muito trabalhadora”.

A filha na companhia de outros irmãos ajudou o pai carregar as cadeiras pelas ruas de Cáceres a procura de compradores. Ela se lembra que três modelos de cadeiras eram confeccionados: a tradicional, a de criança e a tipo namoradeira de dois ou três lugares.

 Ela recorda da devoção que o pai tinha com São Sebastião. Conta que a irmã Elenir Jacinta (Branca) foi acometida por alguma doença. O pai então fez promessa a São Sebastião, que se a filha sarasse, ele faria a reza e a festa em louvor ao santo durante o resto de sua vida.

Graça alcançada promessa cumprida, e ele durante aproximadamente 60 anos, na data de 20 de janeiro promovia grandiosa e inesquecível festança.

Antes de morrer ele pediu que Vicência desse prosseguimento com a devoção ao santo, o que ela faz com prazer, devoção e alegria.

Timóteo também durante grande parte de sua vida, foi festeiro e animador da festa de São João da Dona Leonía, antiga moradora da Rua dos Operários e que viveu 100 anos.

Com a morte do artesão, os seus filhos não deram continuidade ao trabalho de confecção da cadeira, nenhum deles pegou gosto pelo referido artesanato, e, assim a referida arte que por décadas compôs as residências das famílias cacerenses, por muito pouco não foi enterrada com o seu principal mentor/idealizador.

A filha Gia profunda conhecedora dos poderes das folhas e das raízes, ajuda o marido na comercialização desses produtos advindos da natureza, diz que o pai evitou ensinar os filhos na referida arte, em razão das dificuldades, mas, que com valentia enfrentava sempre que tinha que adentrar as matas para coletar a matéria prima. A maioria das filhas mulheres então ficou privada de prosseguir com a honrosa e quase extinta profissão.

Gabriel aprendeu a arte com o ex-sogro

A arte prossegue com o ex-genro

A cadeira de balança feita de urumbamba espinhenta continuará embalando as sestas dos cacerenses ainda por um bom tempo. Assim pensa o jauruense/cacerense Gabriel André, 52, morador da Rua dos Canários com a Lavapés, proprietário do Bar Canto da Sereia, ex-genro do poconeano Timóteo.

Gabriel, 4 filhos, durante 10 anos foi casado com uma das filhas do famoso artesão das cadeiras. Tempo suficiente para aprender a arte e dar sequência ao admirável trabalho que requer apurado talento e algumas doses de paciência. Assim como o ex-sogro, Gabriel retira as matérias primas utilizadas na confecção da cadeira de balanço nas matas da conhecida região do Taquaral.

Pelo menos uma vez por mês ele visita as matas da localidade e coleta feixes de urumbamba, cipó de macaco (utilizado para fazer os arcos) e a madeira lixeira (utilizada para fazer a base do balanço).

Após a retirada da mata a matéria prima é trazida para os fundos da casa do artesão, o meio de transporte utilizado é o reboque da motocicleta.

A urumbanba, matéria prima retirada da região do Taquaral
Foto: Wilson Kishi

O material passa por um processo de preparação até que ganhe as condições necessárias de ser trabalhado manualmente. A urumbamba é sapecada no braseiro para soltar a casca e ganhar a necessária maleabilidade após assada em fogo brando, com isso, possibilita que o artesão faça as tranças do assento e das costas e encape o cipó de encosto dos braços.

Gabriel revela que a matéria prima pode ser armazenada após coletada das matas. Basta deixar de molho na água que ela volta a tornar-se maleável como se reverdece.

Ele consegue fazer três cadeiras semanalmente, e comercializa cada uma ao preço de R$ 500,00, a renda ajuda muito na manutenção da família que ainda tem o Bar Canto da Sereia como fonte de renda.

Em sua distinta atividade artesanal, o microempreendedor, revela que as suas principais dificuldades recaem sobre a coleta da matéria prima nas matas. Nem sempre recebe autorização dos proprietários da terra para adentrar nas fazendas, com isso, as dificuldades aumentam, pois ele tem que tentar buscar a matéria prima para ser trabalhada em distâncias bem maiores.

Mesmo diante das dificuldades, ele gosta muito do que faz. Calcula que durante 30 anos de atividade, já confeccionou aproximadamente 500 cadeiras. A primeira foi feita e aprovada pelo mestre Timóteo aos 21 anos, desde então não mais parou com a fabricação.

Obra prima do artesão Gabriel do Canto da Sereia
Foto: Wilson Kishi


Tradição ameaçada não continuar

Ele lamenta que nem um dos filhos pegou gosto pela arte. Assim a cadeira de balanço de urumbamba lamentavelmente não deverá continuar sendo móvel de sesta e descanso dos cacerenses daqui alguns anos.

Gabriel ainda se orgulha de saber que a arte que aprendeu com o ex-sogro, está hoje nas residências de famílias fora do Brasil, a exemplo daquelas que levaram sua obra prima para o Japão, Holanda, Alemanha.

Confeccionar cadeira para ele que é devoto de Nossa Senhora Aparecida, é uma verdadeira terapia. Pois conforme assegura, ajuda “desestressar, torna-se uma distração e ajuda passar o tempo”.

Em 30 anos de profissão, o artesão considera um homem de sorte, pois nunca foi atacado por répteis ou animais peçonhentos. Ele que mensalmente visita as propriedades rurais e as matas para coletar matéria prima, assegura que somente algumas vezes foi picado por formigas daquelas segundo ele, bem “brabas” que vivem na árvore conhecida como pau-de-novato, mas garante que já está mesmo é acostumado com elas, as formigas, e elas com ele.

 

Comentários: ( 5 ) cadastrados.
Por: Eliziário Ramos
Várzea grande
Muito bom.
É sempre de muita valia essas iniciativas, para registrar uma história.
Este é um registro de fatos que deve orgolhar muito os familiares, sabendo que é grande contribuição para a cultura regional.
26/10/2021 19:08:27

Por: Carmen
Cáceres
Que homenagem linda, Parabéns a esse ilustre senhor, pelo seu dom, pela sua linda história. Essas cadeiras lindas, quase todo mundo tinha ou ainda tem uma em casa, eu lembro que minha mãe tinha, minha sogra tbm. Elas eram maravilhosas,
25/10/2021 19:06:17

Por: Nair Gonçalves

Parabéns ao Timoteo, essas cadeiras são lindas, um trabalho incrível
25/10/2021 15:49:08

Por: Ernane de Arruda Costa
Sinop-MT
Parabéns sr. Timóteo, belissima invenção. Que Deus o tenha. . Sr. Gabriel não deixe esse trabalho morrer. Essa cadeira de balanço faz parte da cultura dos matogrossenses. Meu velho pai tinha uma cedeira dessas e nos fins de tarde ele sentava na varanda pra se refrescar. Quanta saudade.
25/10/2021 14:06:01

Por: ROOSEVELT RAMSAY TORRES
Cáceres MT
Lembro muito bem do Sr. Timóteo, ele saia pelas Ruas de Cáceres com suas Cadeiras de Balanço, nós braços para vender. Nos bons tempo ,quando podíamos sentar nas calçadas calçadas de nossas Casas, sempre tinha uma Cadeira feita pelo Timóteo. Nas Fazendas Antigas, todas tinham Cadeiras de Balanço, presente do Proprietário para sua Esposa esposa e família. Recordo que na Fazenda Acorizal, tinha 3cadeiras de Balanço na Varanda da Frente. Após o Almoço,era uma disputar das crianças pelas cadeiras. Hoje só nos resta a Saudade. Ainda bem, que ficou um novo Artesão no lugar do Sr. Timóteo.
25/10/2021 07:06:44

Faça o comentário para a noticia: Timóteo Poconeano, uma vida dedicada à cadeira de balanço artesanal

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade do autor.
As mensagens com conteúdo abusivo poderão ser vetados da publicação.