24/11/2014 - 06:15

Por: Isa Sousa

"Não dá para construir um novo MT sobre um alicerce trincado"


   Responsável por coordenar a equipe de transição do governador eleito Pedro Taques (PDT), o prefeito Otaviano Pivetta (PDT), de Lucas do Rio Verde, faz uma análise extremamente crítica sobre a situação do Executivo Estadual. “Dinheiro o Estado tem, o problema é que se gastou muito, se gastou mal e foram feitas muitas dívidas”, avaliou, em entrevista ao MidiaNews. 

   "Não é segredo para ninguém que há um déficit previsto, para o ano que vem, de R$ 1,2 bilhão, que nós precisamos equalizar. Não é segredo pra ninguém, também, que nós estamos rompendo o limite constitucional de gastos com pessoal", disse. Ao lado de uma equipe, subdivida por sua vez em 12 grupos de estudo, Pivetta tem feito um diagnóstico detalhado sobre a situação que será "herdada" por Taques. 

   Oposição desde que se elegeu senador, em 2010, Pedro Taques quebrará uma hegemonia no Poder Executivo que começou em 2003, quando o atual senador Blairo Maggi (PR) foi eleito, sendo reeleito em 2006 e passando o bastão ao seu então vice, Silval. 

   Segundo Pivetta, Taques vem com fôlego e vontade da mudança. “Nós precisamos fazer um pacto por Mato Grosso e colocar gente que possa trazer resultado para o povo. E foi com essa bandeira que o Pedro Taques se elegeu”, disse. 

Confira os principais trechos da entrevista: 

MidiaNews – Há uma curiosidade da população em saber o que a equipe de transição do governador eleito Pedro Taques tem encontrado da administração Silval Barbosa (PMDB). Em linhas gerais, como está o Estado? Quais os pontos mais críticos? 

Otaviano Pivetta – Em primeiro lugar, é natural que haja curiosidade porque está se fazendo um trabalho de diagnóstico, de busca de informações e é natural que a sociedade, em especial a imprensa, estejam curiosos em saber de detalhes. O que nós podemos falar talvez não seja tudo que nós já sabemos, porque queremos manter essa relação cordial com o Governo até o final por uma questão de sinergia, de conveniência para a sociedade. É importante que a equipe que o governador eleito começa a definir já comece a entrar nas secretarias com a devida autorização do governador Silval, que já se colocou a disposição, para iniciar a transição já do mandato. Nós estamos em um período de transição do governo, mas a transição é um prossegue por um período dentro do mandato do futuro governador. Então, nós imaginamos que neste fim de semana o Pedro deve falar com o Silval para pedir licença para os secretários já escolhidos, que ele deve anunciar na segunda ou terça-feira, para que entre nas respectivas secretarias para conhecer as equipes, os servidores de carreira, as pessoas que estão na função de confiança e já dar uma forma mínima para a continuidade de serviços e a formação da equipe com conceito, perfil com disposição de cumprir o mandato que o Pedro recebeu. Nós não queremos fazer críticas porque isso não leva a nada. 

MidiaNews - Mas a "herança" é grave, por exemplo, na situação financeira? 

Otaviano Pivetta - 
O fato é que o Estado vive uma situação de bastante dúvida em relação as suas finanças. Não é segredo para ninguém que tem um déficit previsto para o ano que vem de R$ 1,2 bilhão, que nós precisamos equalizar. Não é segredo pra ninguém também que nós estamos rompendo o limite constitucional de gastos com pessoal, isso já acontece neste mês de novembro e dezembro. Então, é preciso de uma reforma e ela está sendo elaborada com a equipe de transição, com a ajuda da Fundação Dom Cabral e do Movimento Brasil Competitivo. Mas eu acredito muito em Mato Grosso, na capacidade de recuperação do Estado, na capacidade de um Governo bem montado tem de mudar o cenário no médio prazo e nós estamos preparando tudo para isso. 

MidiaNews - O que tem sido encontrado em termos de planejamento?

Otaviano Pivetta -
 O quadro, e eu não me sinto bem em fazer crítica, mas a satisfação popular em relação aos serviços públicos notadamente não é boa. Os índices de Educação que qualificam teve um decréscimo no ranking nacional e isso é péssimo para um Estado que é uma referência em produção, referência em desenvolvimento. Nós precisamos virar isso muito rapidamente e, para isso, precisa gestão. Não é também novidade para ninguém que o serviço de Saúde também não está a contento. O problema da terceirização da Saúde em alguns lugares é satisfatório, mas na maioria dos lugares é lastimável, é ruim. 

MidiaNews - Mas é compreensível esse respeito pelo Governo atual, mas não é possível ficar dourando muito a pílula né?

Otaviano Pivetta –
 É, não dá. 

MidiaNews - Pode se dizer que a situação é catastrófica? O quadro é caótico?

Otaviano Pivetta -
 O governador diz que não, né? Isso é uma discussão política. Nós temos números, constatações, o próprio orçamento que estava na Assembleia, a Lei Orçamentária Anual (LOA), que mostram que a situação econômico-financeira do Estado piorou muito nos últimos quatro, seis anos. E os serviços não melhorar. 

MidiaNews - Mas uma das justificativas do governador é exatamente essa, de que, devido à Copa do Mundo, o Governo foi atípico. 

Otaviano Pivetta –
 Eu concordo que foi um Governo atípico por conta deste evento, mas houve um endividamento do Estado proporcional. As obras que foram feitas retirou quase que totalmente de uma fonte de receita que nós tínhamos que é o Fethab (Fundo Estadual de Transporte e Habitação). 

MidiaNews - Então o argumento não serve de desculpa?

Otaviano Pivetta - Não, não serve de desculpa. Quer dizer, teve empréstimo com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), com o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte), com a Caixa Econômica, Banco do Brasil, Fethab. A gente sabe da onde saiu essa grana toda para edificar as obras da Copa. O que se tem hoje é um espólio da Secopa (Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo) que não sabemos o que fazer. Eles não sabem e nós não sabemos. Eu me reúno duas, três vezes por semana com a equipe da Secopa e está se buscando saída. Como é que o Estado vai proceder, por exemplo, com a Arena Pantanal? Qual é o caminho? A privatização? A venda? Uma parceria? Um leilão? Vender e com isso fazer todos os hospitais que o Estado precisa...sanar a questão da Saúde.

MidiaNews - Então, uma possibilidade seria o leilão?

Otaviano Pivetta - Eu, Otaviano, vejo como uma possibilidade. Não sei se o Pedro vai considerar isso ou não. Já coloquei esse pensamento pra ele. Porque se você imaginar que um estádio absorveu R$ 700 milhões mais ou menos de investimentos, isso de juros, pela média, vai dar R$ 70 milhões por ano, mais a conservação, a manutenção, depreciação, são R$ 100 milhões por ano. Quer dizer, o Estado não tem como carregar isso. Qual é a contrapartida social disso? E muito pequena. 

MidiaNews – Fora esse espólio da Arena, o que mais preocupa em relação aos "legados" da Copa? 

Otaviano Pivetta –
 O VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). O VLT é uma coisa curiosa. É como se você tivesse em seus planos de vida fazer uma casa boa, mobiliar e comprar os eletrodomésticos dessa casa. E você começa a executar o projeto comprando os móveis e eletrodomésticos. Se encanta com isso, compra tudo e manda entregar e a casa não está pronta. Você nem começou a casa ainda. E aí faltou dinheiro pra fazer a casa. Tá lá os móveis e eletrodomésticos, quem sabe daqui quatro ou cinco anos você vai aprontar a casa, os eletrodomésticos já estão defasados, já saíram outros melhores, os móveis já estarão meio danificados. É incompreensível como é que o Estado desembolsou até hoje R$, 1, 070 bilhão com apenas 20% da obra efetivamente feita. Nem concluída, mas 20% da rede com os trilhos instalados e gastou quatrocentos e poucos milhões com vagões e mais duzentos e poucos milhões com os equipamentos complementares, de TI (tecnologia da informação), imagem, enfim. 

MidiaNews – Esse foi um erro?

Otaviano Pivetta – Eu imagino que sim, porque essa tecnologia também passa por inovações anuais, periódicas. Então, eu não sei com base em que decisão que fizeram isso. Gastaram mais de R$ 700 milhões entre os veículos e as instalações, como os painéis e instalação de câmeras e sistema de softwares, que são as últimas coisas a serem feitas. E aí, a casa está apenas no início. Os próprios técnicos da Secopa falam que o Estado, diante do pedido da CR Almeida de prorrogar a obra por mais um ano, tem que dar parecer negativo porque eles não acreditam que termine nesse em 2015. Talvez não termine em 2016. Então nós já vamos estar pagando juros de cerca de R$ 700 milhões – ou seja, é um outro estádio – pelos veículos e instalações que o Estado só vai usar daqui dois anos. São mais de R$ 200 milhões só do custo da dívida neste período. São muitos negócios mal feitos, mal conduzidos, muito prejuízo para a sociedade. O legado da Copa é realmente preocupante. Ou o “largado” da Copa, como falou o cuiabano. É preocupante. Nós já temos um grupo que está cuidando só desse tema e deveremos passar o espólio da Secopa para a Gerência Estadual de Projetos Estratégicos. 

MidiaNews - A Secopa vai ser realmente extinta?

Otaviano Pivetta –
 Pela lei, a Secopa acaba no dia 21 de dezembro e o novo Governo não pretende dar sequência a ela. 

MidiaNews – Voltando um pouco na questão do VLT, é possível afirmar que o governador Pedro Taques vai dar continuidade às obras de Silval Barbosa?

Otaviano Pivetta –
 O Pedro reafirmou inúmeras vezes que vai concluir as obras iniciadas. O que está definido é que o Governo não paga mais nenhum centavo sem concluir essas obras. Não tem como continuar desembolsando dinheiro, detrás pra frente, pra não se ter nenhum benefício. É preciso agora fazer uma revisão contratual, sentar com as empresas, com o consórcio, e renegociar. Eu acredito que a gente possa dar os veículos em garantia, que foi eles que entregaram, pelo valor que entregaram, as instalações, que são os softwares e equipamentos de informática, que eles também faturaram, tudo é uma obra “chave na mão”. Eu acho razoável que o Estado ofereça esses bens em garantia e só pague o saldo devedor na hora que terminar e que a gente der a primeira volta em cima desse trenzinho aí. Porque a responsabilidade de botar isso pra funcionar é do consórcio. O Estado não tinha conhecimento, como não tem até hoje, é uma coisa exótica em Mato Grosso. 

MidiaNews – O senhor acredita que o consórcio tinha conhecimento e capacidade técnica sobre um projeto dessa magnitude?

Otaviano Pivetta –
 Eu tenho dúvidas. Ainda não houve avanços o suficiente para saber. Ainda assim, a CR Almeida, que é líder do consórcio, é uma empresa muito bem conceituada. 

MidiaNews – Mas não nesse segmento...

Otaviano Pivetta –
 Ela trouxe a CAF, que é espanhola e faz parte do processo. O fato é que, segundo também os técnicos da Secopa, era de responsabilidade do consórcio entregar o projeto de desapropriação e não entregou até hoje. Isso é uma falha grave e terá que se fazer uma revisão geral disso tudo. Ainda não é o tempo do novo Governo, mas nós estamos preparando tudo para que vire o ano e nós possamos chamar esse pessoal pra conversar e mostrar a realidade pra eles. É preciso que eles assumam a realidade deles. 

MidiaNews – E caso sejam oferecidos esses vagões, como seria? 

Otaviano Pivetta – Eles ficariam aqui mesmo, não tem nem para onde irem. Servem pra cá. Mas é curioso isso. O consórcio construtor entregar os móveis dois, três anos da casa ficar pronta. Sendo que o Estado comprou a obra chave na mão. Então o próprio consórcio deveria saber que é cada coisa no seu tempo. Primeiro é o projeto, depois o projeto executivo, projeto de desapropriação, a construção civil, a instalação dos trilhos, elétricas...

MidiaNews – Mas eles podem alegar que essa foi uma determinação do Governo, não?

Otaviano Pivetta –
 Não vejo como. Porque o Governo comprou a porta fechada. É uma obra que tem que entregar pronta. Estranho é ter vindo esses equipamentos tanto tempo antes da hora. Por que a preocupação de entregar tão cedo esses vagões? Ah, atrasou o cronograma da obra. Mas é um problema do consórcio também. A obrigação de fazer e comprar os equipamentos é dele. Então fica ruim pra explicar. Acho que o Estado tem um bom direito nisso aí e estamos trabalhando com a hipótese de sentar e chamar as partes e o Estado exigir uma solução. 

MidiaNews – O candidato Pedro Taques falou muito, ao longo da campanha, da situação financeira do Estado. Ele citava um déficit em torno de R$ 9 bilhões. Se comprou esse dado, neste processo de transição? Qual a real situação financeira? 

Otaviano Pivetta – Nós não tivemos acesso ainda a esses números todos. Nós não sabemos como vai fechar o ano financeiro do Estado. Nós não sabemos quanto tem de restos a pagar, por exemplo. Nós temos especulações, que dão conta de números diferentes e eu não gostaria de entrar nisso. Mas, pela avaliação que nós fizemos, o Governo entrega o Estado com saldo negativo do ano. Ou seja, nos primeiros 10 dias do ano que vem tem que pagar as contas dos últimos 10 dias deste ano. 

MidiaNews – Em torno de quanto?

Otaviano Pivetta –
 Em torno de R$ 250 milhões a R$ 300 milhões. Precisa ter R$ 400 milhões em caixa, segundo a própria Fazenda e nós fizemos tudo que é cálculo e não vai ter. Não vai ter. Tem uma oportunidade que talvez nos ajude que é o Governo Federal, aliás, os atrasos do Governo Federal. Se atrasar e não pagar este ano, pode ser que tenhamos alguma coisa. 

MidiaNews – E há uma expectativa por conta da Lei Kandir? Algo em torno de R$ 200 milhões... 

Otaviano Pivetta –
 É, também temos essa expectativa. Esse ano deve acontecer o mesmo atraso do anterior, porque por lá o cofre também não está tão cheio assim. De qualquer forma, eu não sei porque é um repasse que o Governo está contabilizando para este ano ainda. 

MidiaNews - Mas o governador Silval Barbosa tem dito que deixará R$ 1 bilhão em caixa. É ficção? 

Otaviano Pivetta –
 Não vou discutir com o governador, mas ele precisa dizer, mostrar, então, quais são as contas. É fácil dizer. Em relação aos convênios realmente tem. Tem um financiamento do Banco do Brasil, na ordem de R$ 450 milhões para construção de pontes, com juros de mercado, juro alto, mas é um empréstimo com perfil de prazo interessante e acho que com uma revisão contratual vai ser necessária. Vamos avaliar os preços dessas pontes e talvez seja possível fazer muito mais do que está contratado. Esperamos fazer isso logo no início do ano. Tem também outro empréstimo para restauração de rodovias, algo em torno de R$ 240 milhões. Todos os contratos serão analisados e nós vamos ver se é possível fazer mais com o que temos, já que os juros são altos. Mesmo porque tomar empréstimo é uma coisa legal, até porque é receber o dinheiro que a gente não tem. O que não dá para deixar de pensar é que um dia vence. Então, dinheiro emprestado tem que fazer muito por pouco, pra fazer valer a pena. Porque o custo da dívida é muito alto. Esse empréstimo das pontes mesmo, vai dar R$ 50 milhões só de juros por ano. Ou seja, se não for pra fazer ponte com preço justo, bem ajustado, não vale a pena fazer. O que a gente percebe é que essas pontes são caras... muito caras. 

MidiaNews – Durante esse processo de estudo, de aprofundamento da situação do Estado, quais são os setores mais preocupantes? 

Otaviano Pivetta –
 Pela ordem: as pessoas que estão perdendo a vida ou sofrendo pela falta de estrutura mínima do Estado na saúde de alta complexidade. O Estado tem que 530 UTIs entre públicas e privadas. Nós precisamos dobrar, ter 500 só públicas nos próximos quatro anos para poder atender a demanda normal do Estado. Olhando outros estados, que atendem razoavelmente sua população, as UTIs per capita é o dobro de Mato Grosso. Então a Saúde é prioridade. O setor tem problema estrutural, problema de conflito com esse modelo que foi empurrado de uma vez só pra cima dos servidores, que foram jogados para escanteio na secretaria. Nós vamos resgatar esse pessoal agora, fazer um sistema misto, manter as OSS (Organização Social de Saúde) que comprovadamente estão fazendo um bom trabalho por um preço justo, rescindir as que não estão fazendo isso e o Estado vai assumir o “reestatizar” aquelas unidades hospitalares que precisam. 

O que preocupa muito o governador eleito é o status da Educação em Mato Grosso. Nós estamos sacrificando gerações porque o Estado não educa ou educa mal suas crianças e jovens. Nós precisamos dar um choque nisso imediatamente. Os problemas de infraestrutura que são históricos e a reorganização do Estado também são prioridades. Nós precisamos de uma equipe de gestores, com baixa interferência política - claro, não se pode dizer que não vai ter interferência alguma, mesmo porque o Estado é um espaço político, que tem que entrar em sintonia, por exemplo, com a Assembleia Legislativa, que é outro espaço político -, mas nós precisamos fazer um pacto por Mato Grosso e colocar gente que possa trazer resultado para o povo. O Pedro se elegeu com essa bandeira. 

MidiaNews – O senhor diria, com base em tudo que tem sido avaliado, que será preciso começar do zero? Ou seja, absolutamente nada se aproveita em termos de gestão e planejamento? 

Otaviano Pivetta –
 Olha, só pra você ter uma ideia. Tecnologia da Informação e Comunicação, um item chamado TIC. Nós temos o Cepromat, que tem um orçamento de R$ 138 milhões e vende serviço para outros órgãos. Nós não sabemos ao certo a receita do Cepromat, mas sem exceção, todas as secretarias compram softwares, compram programas cada uma para um lado e a manutenção também. Nós estimamos que o Estado gaste hoje em torno de R$ 400 milhões a R$ 500 milhões em Tecnologia da Informação e Comunicação anualmente. Nós precisamos baixar isso para R$ 100, R$ 120 milhões. Isso é um escândalo. E além disso, o pior: não têm informação de qualidade. Não têm e não convergem. Cada setor e uma ilha e não se conversam, não se comunicam, não têm sinergia nenhuma. Parece que são órgãos pertencentes a países diferentes. Isso dá para perceber claramente. Então, a reforma do Estado e a mudança de cultura são as atitudes mais importantes que podem acontecer neste início de mandato. 

MidiaNews - Insistindo. Tem que começar do zero, então?

Otaviano Pivetta –
 Eu acho que tem que fazer um Estado novo. Tem que fazer um Estado novo e, para fazer um novo, tem que quebrar o velho, começar do zero. Não tem como começar a construir um Estado novo em cima de um alicerce cheio de trinca, como está aí. 

MidiaNews - E por tudo que os senhores têm visto, analisado, percebido, o “monstro” é mais feio do que pintavam?

Otaviano Pivetta – Eu acho que há uma desorganização quase que generalizada. Algumas delas existem índices nacionais para medir, caso da Educação e Segurança. Os índices mostram Mato Grosso, principalmente a Capital e Várzea Grande, como recordistas nacional em criminalidade, mas há outras que ninguém mede, como a eficiência e qualidade do gasto público. Se o Estado tem uma receita corrente líquida de R$ 10 bilhões, dividido por três milhões e 200 mil habitantes, isso dá aproximadamente R$ 3 mil por habitante ao ano. Ora, R$ 3 mil por habitante ao ano é dinheiro que dá para tratar cada mato-grossense pelo nome e não pelo número. A intenção do novo Governo é tratar os mato-grossenses pelo nome, não deixar ninguém pra trás. Porque dinheiro o Estado tem, o problema é que foi gastado muito, foi gastado mal, foram feitas muitas dívidas e os serviços delas nos próximos anos vão dar em torno de R$ 600 milhões, só os serviços da dívida, sem contar a amortização. E já começam a vencer as parcelas dos financiamentos que foram feitos. Então, no ano que vem, o Pedro deve ter cerca de R$ 1 bilhão entre parcelas e serviços. Tem um orçamento estimado para pessoal que passa dos R$ 7,5 bilhões. Não sobra quase nada para investimento. Se o novo Governo não tiver a competência de fazer remanejamentos, cortes, uma reengenharia para realocar esses recursos de maneira que se possa iniciar um novo ciclo, o Pedro Taques já vai ser reprovado no primeiro ano e nós precisamos mexer o caldo e mexer rápido. 

MidiaNews – Então a sociedade pode se preparar para um ano de muito ajuste e de poucos investimentos, ou quase nenhum?

Otaviano Pivetta – Não, nós teremos investimentos sim. Têm esses empréstimos que eu falei, tem o MT Integrado (programa de pavimentação no interior), eu não sei de quanto exatamente, mas sei que tem um bom dinheiro do programa e dá pra revistar os contratos também. 

MidiaNews - Mas, diante da expectativa que foi despertada durante a campanha, não vai ser um ano de poucas obras ou investimentos?

Otaviano Pivetta -
 Não, não vai ser um ano de poucos investimentos. E eu te explico por quê. Nós vamos iniciar três hospitais. Vamos concluir o Hospital Central e estamos com projetos para ele. O governador está se encarregando de desembargá-lo na Justiça Federal e nós vamos concluí-lo no primeiro ano; provavelmente ele será o Hospital Materno-Infantil. A alvenaria já está pronta, tinha até algumas coisas instaladas, mas roubaram, depredaram. A alvenaria está pronta e é uma bela de uma estrutura. Nós fomos ver e já temos uma equipe de técnicos trabalhando nisso. Ali, serão 135 leitos. 

O Governo também vai conveniar com Cuiabá e construir o Hospital Central de Cuiabá, que vai ser ali perto do Centro de Eventos Pantanal, com 320 leitos e com o Pronto-Socorro anexo. A prefeitura deve estar licitando já. Nós também vamos “relicitar” o Hospital Universitário Júlio Muller, que foi iniciado sem projeto. Ele é um hospital que tem uma contrapartida do Estado de R$ 60 milhões e até pouco tempo atrás o Estado não tinha colocado nada, dois anos de inadimplência, já era pra estar pronto, e o Estado não deu contrapartida nenhuma. O convênio era entre a UFMT e a Secretaria de Cidades, do senhor Chico Daltro. Até agora o Governo do Estado, pelo menos até o dia que eu visitei lá, não tinha colocado nada. Eu sei que agora houve a rescisão por parte do Estado. 

MidiaNews - Não há como se convocar o segundo colocado no processo licitatório?

Otaviano Pivetta - Interessante é que não teve segundo colocado. Não podia colocar o segundo colocado e convidá-lo para continuar a obra porque surpreendentemente não teve a figura do segundo colocado. Só teve o ganhador e mais nada. Agora, vamos fazer o projeto executivo. Não sei se a UFMT já providenciou, mas vamos licitar novamente a obra. Talvez deva ser feito um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com os governos Federal e Estadual e UFMT para deixar registrado isso. Além disso tem também o Hospital São Benedito, pronto para operar com 120 leitos. Com essas ações, nós vamos colocar em um período de dois anos 800 leitos. Como o compromisso do governador era 350 leitos e nós tivemos essa visão de conhecer todas as oportunidades, eu acho que a Capital de Mato Grosso fica muito bem servida em termos de hospitais públicos. O MT Integrado também continua, até porque o financiamento dispõe de recurso para isso e é do Estado. Esse Governo não conseguiu fazer, o próximo vai fazer só que vai ser feito revisão dos contratos, vamos ver a que preço está sendo feito e se não conseguimos fazer um pouquinho mais. 

MidiaNews - Em relação ao tamanho da máquina, a Fundação Dom Cabral está concluído um estudo dessa reforma administrativa. Naquele primeiro momento foi anunciado pelo senhor um quadro bem enxuto de secretaria, com 12. O que pode ser falado neste momento? 

Otaviano Pivetta – 
Deve ficar entre 11 e 13 secretarias. Eu acredito que é uma estrutura necessária e suficiente para se ter uma boa gestão. Isso não é conclusivo, como eu tenho falado, quem vai dar a última palavra é o governador, mas ele tem se mostrado muito preocupado com a eficiência, com o enxugamento da máquina, com a diminuição do custo, com a austeridade, que é dever do governante. E ele tem chancela para isso, credibilidade para isso, porque o povo elegeu ele para isso. Ele sempre falou que o Estado não é Sine, que o Estado tem que ser leve, eficiente, honesto, rápido, então ele vai fazer tudo para que o Estado seja o Estado que ele assumiu o compromisso de fazer. 

MidiaNews – E em relação aos nomes que devem compor essas pastas?

Otaviano Pivetta -
 Até agora foram três. Marco Aurélio Marrafon (Planejamento), Júlio Modesto (Administração) e Jean Campos (Comunicação). O Jean será o Superintende de Comunicação, a secretaria vai perder o status de secretaria e vai ficar enxuta. Só nos órgãos do entorno do gabinete do governador são cerca de 170 funcionários e deverão passar a ser 50, para se ter uma ideia do enxugamento. Mas essa tática já havia sido apresentada por Taques no Senado. Ele tinha direito de contratar até 80 assessores, se não me engano, e ele só contratou 22 pessoas. E, no entanto, o mandato dele é reconhecido no Brasil inteiro. Então, não é quantidade de pessoas que faz um bom Governo, é muito mais a qualidade das pessoas. 

MidiaNews - E outros nomes?

Otaviano Pivetta -
 Eu não posso falar ainda sobre os que não foram anunciados, quem vai anunciar é o governador e eu acredito que no início da próxima semana ele deve anunciar mais uns quatro ou cinco. 

MidiaNews - Sem citar nomes, então, o que se pode esperar dessa equipe? São pessoas com perfis extremamente técnicos, por exemplo, são pessoas que nunca militaram na área política... 

Otaviano Pivetta –
 O que a sociedade pode esperar é um grupo de pessoas do "fazimento", pessoas inquietas, de trajetória ilibada, com muita energia, com muita disposição, idealistas, o idealismo aí está falando mais alto que todo o resto. O Pedro, neste momento, tem essa vantagem que as pessoas, os jovens querem fazer parte do projeto porque estão vendo oportunidade de fazer história no Mato Grosso. 

MidiaNews - É um dos critérios que ele está observando? 

Otaviano Pivetta –
 Sim. O que eu vejo nessa turma que se aproxima é isso. Acreditam que o Pedro Taques na liderança pode ser o agente transformador que vai dar condições para eles também fazer sua história, deixar seu legado, traçar sua trajetória. É um momento diferente. Eu participei ativamente da eleição do Blairo Maggi em 2002, pós-eleição também. Ele fez um mandato considerado muito bom, mas o sentimento que eu percebo agora é muito forte. É um momento único na história de Mato Grosso. 

MidiaNews – E por que não, já que participou da organização da campanha, está coordenando a transição, ficar no Governo? Para poder, inclusive, colaborar com esse novo momento? 

Otaviano Pivetta –
 Porque neste momento eu tenho que cumprir um compromisso que eu assumi. Eu passei por uma campanha muito disputada lá em Lucas e estou na metade do mandato. Eu tenho um vice bom, sem dúvida faz um bom trabalho, mas eu não tenho coragem de renunciar no meio do mandato que me foi dado. 

MidiaNews - Mesmo se a população aprovar?

Otaviano Pivetta -
 Mas não tem como saber isso. Eu tenho 32 anos de Lucas do Rio Verde e por mais dois anos eu não vou fazer isso. Eu acho que é romper um compromisso sem eu ter a obrigação de vir. Eu me propus e fui um dos idealistas desse projeto, vibrei e me envolvi de corpo e alma na campanha e agora, que tem sido mais intenso que durante a campanha, mas o meu mandato é lá. Lá é minha cidade, minha sociedade, onde eu tenho história. Aqui eu sou um voluntário por cinco meses. Eu tenho certeza que com esse governador que Mato Grosso elegeu, com essa equipe que ele está formando, tendo apoio na Assembleia, que também vai conseguir porque é articulado e muito competente, ele vai fazer um grande mandato. Nós vamos estar ligados, ele precisando eu estarei atento para algum aconselhamento e torcendo e fazendo tudo que pudermos para que daqui pra frente o Governo dele seja de muito sucesso. Estou muito otimista. Tenho convicção. Ainda mais depois do time que tem sido escolhido, a maneira que estamos fazendo a transição, a tranquilidade que ele está fazendo as escolhas. Ele é muito preparado, se preparou muito pra isso. Todo povo tem o Governo que merece e acredito que o povo amadureceu e fez uma bela escolha. 

MidiaNews - Pelo contato direto, o que o senhor pode falar sobre o perfil do governador Pedro Taques?

Otaviano Pivetta –
 O Pedro é inquieto, determinado, não toma decisão sem convicção, não toma decisão sem ouvir bastante. De todas as qualidades, não vou falar os defeitos, que ele também tem, como todos nós temos, mas acho que ele tem até um pouquinho mais de defeito, uma das maiores e o desapego pelas coisas materiais. Ele não tem plano de ter chácara, fazenda, casa de fim de semana, não tem plano nenhum. Ele só pensa nisso que ele se propôs a fazer... Trabalhar, fazer um Governo revolucionário e deixar um legado que na minha esperança, na minha expectativa, vai ser um Governo que vai chamar a atenção do Brasil todo. Mato Grosso tem as condições para isso e ele tem o desapego necessário, a liberdade necessária, ele se elegeu com o apoio de centenas de pessoas que acreditaram, ajudaram a financiar a campanha, e que não estão pedindo nada em troca. A prova está aí...Na seleção que está fazendo para tocar o Estado. 

MidiaNews - O senhor acredita, de fato, em mudanças profundas?

Otaviano Pivetta –
 Tenho convicção em relação a isso. Nós vamos viver um momento totalmente diferente, que eu acredito até que nos primeiros tempos deve dar algum ruído, porque será totalmente diferente do que foi nos governos passados, mas que no médio e longo prazo vai estabelecer um novo conceito, nova cultura. E aí, como nós fizemos lá em Lucas, que é considerada uma das boas cidades do Brasil, depois de oferecer à população boas escolas, bom sistema de Saúde, uma boa estrutura urbana, cidade sempre limpa, bem cuidada, o povo não aceita mais retroagir. Não venha mais querer fazer escolinha de maneira antiga que o povo não vai mais aceitar, o governante não se sustenta mais sem fazer daquilo ali pra cima. Você estabelece conceito que quem vier depois via ter que fazer daí pra cima, e com isso quem ganha é a sociedade. Alguém que possa a vir depois com a ideia de retroagir, de fazer as práticas antigas, a sociedade repudia e não aceita mais. Nós precisamos disso: criar novos conceitos, e o Pedro e isso. Um novo conceito de governar que começa em janeiro, que vai pagar um preço por isso, as mudanças serão profundas, mas no médio e longo prazo vai ser reconhecido.

Comentários: ( 1 ) cadastrados.
Por: Narcísio Dias
Cuiabá
esta entrevista resume tudo o que está acontecendo no estado. O Otaviano é um exemplo de político que não tem medido suas palavras. Fala o que pensa e pensa certo, isso é o mais importante. Falar por falar, temos muitos políticos. Falar com conhecimento? são para poucos. Parabéns Piveta pela entrevista.
25/11/2014 06:09:17

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