Zaki News

18/12/2012 - 00:40

Por: Revista RDM

Caverna do Jabuti


Wilson Kishi
   Chegar a Curvelândia é muito fácil. De Cuiabá, vai-se a Cáceres, a 200 km, e daí mais 30 na rodovia para Porto Velho, e mais 30 a direita. É uma cidade pequena e aconchegante, com cara de Minas, Goiás ou interior de São Paulo. Era chamada antes de Curva, porque há alguns anos um caminhão de bois capotou na curva de estrada da via que fez uma engenharia de nome e acabou Curvelândia. Seu passado inclui o ciclo da peaia. Hoje a força está na pecuária de leite, tocada por nordestinos, paulistas, mineiros e paranaenses. A população oscila em torne de 5 mil habitantes.
Wilson Kishi

   Porém, a sua riqueza está no potencial turístico que poderá vir da maior caverna de Mato Grosso, a Caverna do Jabuti. Tem 4 mil km de extensão dentro da Serra do Padre Inácio. Foi descoberta por caçadores na década de 1970. Da cidade até lá, dá 9 km em boa estrada municipal. Daí, mais um quilômetro nas fraldas da serra, até a boca da caverna, escondida no mato. Tem sete metros e meio de largura, por um e meio de altura.

   A Caverna do Jabuti não tem área de extensão em linha reta. Ela vai se bifurcando em um labirinto de corredores que leva a lugares muito bonitos. Lá dentro, a escuridão e o silêncio reinam absolutos. Para enxergar, precisa-se de muitas lanternas e para fotografar, luzes de bateria de carro. Na estrada, um grande salão com forte cheiro de terá molhada da água que desce da serra dá as boas vindas. Depois, o primeiro salão, batizado de “Nossa Casa”, completa as honrarias. É imenso. Tem 100 metros por 70, e altura de uns cinco metros.

   As estalactites pendentes do teto seguraram lentamente as gotas de água calcária descida das rochas superiores e formaram belíssimas esculturas penduradas no teto do salão. Algumas se soldaram com outras, chamadas estalagmites, de formação rochosa diferente, nascidas do subsolo, formando colunas calcárias brancas, rosadas ou amareladas. Elas crescem à razão de 3 centímetros por século. As formações de três metros dão uma ideia da idade da caverna.

Wilson Kishi

   Em outros lugares da caverna existem lugares como “Cortinado”, onde as estalactites formam uma renda que cai como cortina. O “Pão de Açúcar” é outro monumento formado em outra parte da caverna, num ponto mais alto, a figura rosada e branca com dois metros de altura. Os lugares são muitos e estão em corredores distintos, formados por lugares batizados como “Cabeça de Porco”, “Vaca Seca”, “Escondidinho”, “Repolho”, “SexShop”, “Cocada”, “Altar das Virgens” e “Abismo”.

   O “Abismo” faz jus ao nome. É um buracão de uns 15 metros no fim do corredor principal. Por ele se desce por rapel ou contornando cuidadosamente a parede. Lá embaixo, nascem outros corredores e novos labirintos, muitos desconhecidos, fazendo supor que a caverna é ainda maior.

   BATISMO. Nesse ponto, o ar é pesado, mas a temperatura é agradável. Até a entrada da caverna, dá uns 800 metros. Em frente ao “Abismo”, a bióloga Fabiana Bezerra, secretária municipal de Turismo, pede tradicionalmente aos grupos de visitantes um momento de silêncio, que ela chama de “batismo”. Com as lanternas apagadas, o silêncio e a escuridão chegam a ser sufocantes. As gotas de água que caem da parede no “Abismo”, parecem sons de sino. Os nomes dos lugares são lembrados um a um por Fabiana, entusiasta apaixonada da caverna. Ela acredita que a “Caverna do Jabuti” pode mudar a orientação econômica de Curvelândia quando se tornar completamente conhecida como ponto turístico, tanto por ser a maior do estado como por sua beleza e representatividade geológica.

   Não existem insetos, a não ser os impertinentes pernilongos brancos. Um ou outro morcego amarelo. Algumas pedras soltas aqui e ali e estalactites pendentes do teto em quase todos os lugares. E algumas formações rasteiras de solo em forma de zigue-zague, chamadas de travertino, que se transformarão em estalagmites ao longo dos séculos. Fabiana orienta e pede cuidado ao pisar. Em alguns corredores se passa caminhando de lado, e no “Escondidinho”, o túnel apertado termina num lugar aberto sob o qual tem que se rastejar para entrar num salão belíssimo.

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   Ali perto, uma entrada de luz, a “Clarabóia”, por onde entram alguns animais silvestres que vêm lamber sal no chão da caverna. Por ali se supõe a existência de uma outra entrada ainda desconhecida. Próximo dali,  no “Cortinado” tem que se abaixar, mas a beleza até justificaria esforço maior do que esse. O salão da “Vaca Seca” homenageia, segundo Fabiana a escultura de uma cabeça de vaca em pedra no meio do salão, assim como a “Cabeça de Porco”. Como Fabiana, o seu auxiliar Cassiano Germano dos Santos, igualmente apaixonado pela caverna, também navega por ela com extrema desenvoltura e conhecimento.

   Já existem alguns sinais de depredação com estalactites quebradas. Mas Fabiana cita os mandamentos da caverna para os depredadores: “da caverna nada se tira, a não ser fotos. Nada se leva a não ser lembranças, e nada se deixa a não serem as pegadas, nos lugares certos”. “A Caverna do Jabuti” fica numa propriedade de 1.400 alqueires, do fazendeiro Siderlei Corso, que doou a área de 250 hectares à prefeitura para nela se criar a unidade de conservação ambiental do Monumento Natural da Caverna do Jabuti. Esse tio de unidade é criada em lugares considerados de beleza rara. O local é um remanescente da floresta da serra do Padre Inácio e guarda a beleza de uma região muito bonita.

Wilson Kishi

   MANEJO SUSTENTÁVEL. Porém, até a abertura permanente da caverna à visitação pública, ainda serão necessários alguns procedimento legais como o plano de manejo espeleológico, feito por uma consultoria ambiental, para depois o Ibama examinar e dar a licença final. O projeto de manejo custará em torno de R$ 100 mil e o centro de visitação na entrada da reserva, com estrutura para orientação e guia dos turistas, mais R$ 150 mil.

   O Ibama já mapeou a caverna e os técnicos consideram que ela poderá receber até três grupos de 10 a 15 pessoas por vez em três roteiros diferentes, sem se encontrarem lá dentro. Mas esses recursos ainda terão que ser captados. Existem promessas de parlamentares, como dos deputados estadual Airton Rondina, que é da região e o federal Pedro Henry.

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   O prefeito Elis Mendes Leal Filho, também aposta no turismo nacional tanto comercial quanto científico, e internacional para a caverna do Jabuti, mesmo sem contar, de imediato, com as outras 22 existentes no município.

   Para a população local, a ideia ainda parece um tanto distante. Mas é uma questão de tempo para perceber eu o turismo é a melhor das indústrias para municípios como Curvelândia conservarem sua pureza e não se perderem na paranoia do crescimento econômico desordenado.

Revista RDM, Edição de Março/2008


Veja imagens do interior da Caverna do Jabuti
Fotos de Wilson Kishi

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