22/03/2021 - 07:00

Por: Antonio Costa / Zakinews

Descendente dos Guatós, o comandante Totico fez história na navegação pelo Rio Paraguai


 

 Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews

Uma volta ao passado na navegação pelo rio Paraguai, aponta um pouco da história do comandante Antônio Enésio de Oliveira, mas conhecido por Totico. Ao longo de aproximadamente cinquenta anos, ele navegou pelas águas dos principais rios que formam a bacia pantaneira, especialmente o Paraguai no trajeto entre Cáceres e Corumbá-MS e vice-versa. O pai Xolô era descendente dos índios Guatós, os canoeiros do Pantanal.

ANTÔNIO ENÉSIO DE OLIVEIRA (Totico)

Natural de Corumbá-MS
Nascido em 21 de janeiro de 1916
Pai: Eulálio Soares de Oliveira (o Xolô), descendente da etnia Guató, que viveu 108 anos.
Mãe: Idalina Lemes de Oliveira
Esposa: Rosa Rocha de Oliveira
Filhos: José Rocha de Oliveira (Rochinha - in memoriam), Odete de Oliveira, Mary de Oliveira, Lenice Oliveira, Deise de Oliveira, Antonio Rocha (Tonico), Oliveira Rocha, Luiz Paulo Rocha (Paulo Rocha, radialista da Rádio Jornal).
Faleceu em: Cáceres-MT em 2007, aos 91 anos.

 

Trajado com uniforme da BAcia do Prata - Foto arquivo de família


Totico foi criado em meio as águas da Baía da Gaíva, também acompanhou os pais na região do Amolar e da Bela Vista.

A maior parte de sua vida foi nas embarcações da Bacia do Prata. Integrante da Marinha Mercante, Antônio Enésio, esteve embarcado no navio curral Nabileque, Cabixi, Jório, Americana, Piquirí, além de integrar a Kassar Navegação. Posteriormente mudou-se para Cáceres e aqui ainda trabalhou no Rebocador São Paulo, pertencente ao cunhado Mamede Lacerda Cintra, além de também comandar o Barco Cruzeiro do Pantanal, da Espanhol Tur.

Conforme  a Wikipedia, o Serviço de Navegação da Bacia do Prata foi uma autarquia federal criada pelo Decreto-Lei nº 5.252, de 16 de Fevereiro de 1943, responsável pela navegação no Rio Paraná e Rio Paraguai. Possuía sede na cidade de Corumbá.

Assumiu o controle das linhas do Lloyd Brasileiro entre o Rio de Janeiro e Mato Grosso, via estuário platino.

Em 17 de Abril de 1944 é assinado por Getúlio Vargas o Decreto n.º 6.428, que incorpora ao SNBP as embarcações, a Estrada de Ferro Guaíra a Porto Mendes, assim como os materiais e instalações fixas, instalações portuárias e todas as instalações, pertencentes a Cia Matte Laranjeira. Pelo mesmo decreto é encampado o Distrito de Guaíra.

Também é incorporada a Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso, responsável pela navegação no Alto-Paraná.

Em 1946 o SNBP foi o responsável pelo transporte, de Montevidéu para Corumbá, dos materiais necessários para a construção da Estrada de Ferro Brasil-Bolívia. As obras propostas nunca foram executadas e as condições de operação pioram muito com o passar dos anos. A ferrovia encampada da Matte Laranjeira estava praticamente extinta em 1955 sendo erradicada em 1959. Em 1963 a Cia Siderúrgica Guairá (hoje Gerdau), adquire via leilão, maquinaria, locomotivas e trilhos.

A Lei nº 5.186, de 8 de dezembro de 1966, autorizava ao SNBP a os bens imóveis, de sua propriedade. Em 10 de Fevereiro de 1967 foi editado o Decreto-Lei nº 154 que extingue a Autarquia Serviço de Navegação da Bacia do Prata e autoriza a constituição do Serviço de Navegação da Bacia do Prata S.A., com sede em Ladário, município que fica totalmente inserido dentro de Corumbá.


 


Tornou-se comandante das águas

Com a família moradora de Corumbá-MS, a companhia próxima ao rio, logo o homenageado da semana, o popular Totico, teve a sua inclinação voltada para integrar uma das companhias que fizeram história na atuação de transportes de cargas pelo estuário da Prata.

Foi assim que ele compôs o quadro de funcionários do Serviço de Navegação da Bacia do Prata. Um período antes, porém, o mesmo atuou como marinheiro de convés no lendário Vapor Etrúria (adquirido em Gênova-Itália, a embarcação foi lançada ao mar em 1890 por Giazone Rebuá. Em 1898 chegou à Cáceres comprado por José Dulce S/A).

Ao pegar gosto pela profissão, Antônio Enésio de Oliveira, como integrante da Marinha Mercante, passou a trabalhar nas embarcações pertencentes à Bacia do Prata. Os navios currais Nabileque, Cabixi, Jório, Americana. Embarcações essas que conforme o Capitão da Reserva da Marinha do Brasil, Renato Thomaz, certamente saíram do Arsenal da Marinha na Ilha das Cobras.

Tinham como características o calado pequeno para o porte deles, mas bastante rápidos. Isso possibilitava agilidade na locomoção na maioria das vezes em áreas alagadas, para salvar o gado, que estava ilhado na época das grandes cheias do Pantanal.

O rebanho era levado para área altas e seguras – de uma fazenda para outra -. Cada embarcação transportava cerca de setecentas cabeças.

Permanece pra contar a história desse tempo passado, o casco do Nabileque, que hoje dá sustentação e suporte para toda a estrutura do moderno e luxuoso barco-hotel Pato Bravo, que costumeiramente, tem como ancoradouro às proximidades da Ponte Marechal Rondon.

Comandante Totico, experiente e respeitado mestre das águas


Socorro ao rebanho bovino nas cheias do Pantanal

Comandante Totico, conforme o filho caçula, 63, Paulo Rocha, radialista da Rádio Jornal, trabalhou durante anos na região pantaneira da Fazenda Descalvados, Baixada da Conceição, Poconé, Porto Cercado, etc. Além de socorrer o rebanho bovino em época de cheias, as embarcações comandadas pelo comandante Antonio Enésio, no retorno à Corumbá-MS, levavam carga de grãos, a exemplo de arroz, feijão, milho, além de toneladas de banana da terra. Um produto muito apreciado pelos sul-mato-grossenses das bandas de lá.

Ainda revela o filho Paulo Rocha, o pai Totico comandou outras embarcações mais modernas para a época. Cita ele os navios 21 de Setembro e 13 de Junho de fabricação holandesa.

No Espanhol Tur, ele comandou seguidas viagens de turismo pelo Rio Paraguai


Cimento e cerveja eram transportados de Corumbá

O comandante também atuou em outras embarcações além dos navios boiadeiro ou boieiro como eram chamados, eram eles Piquirí e a muito conhecida à época, o rebocador São Paulo e a chata Santo Antonio, de propriedade do saudoso empresário Mamedes Lacerda Cintra.

Na Piquirí, que anteriormente pertenceu ao empresário nordestino Isaac, que durante anos, manteve um comércio forte e bem abastecido na esquina da Rua Dr. Sabino Vieira com a Porto Carreiro, o comandante Totico trazia cimento para o empresário Ernani Martins, que posteriormente tornou-se prefeito de Cáceres.

Consta na história, que em 01-04-1957, Ernani inaugurou o seu comércio na esquina da Rua Coronel Faria com a Marechal Deodoro. Em 1965 foi inaugurada a nova sede, na Rua Coronel Faria com a Seis de Outubro, com o Nome EMACO Materiais para Construção Ltda.

A Companhia Cimento Itaú, fornecia cotas de cimento aos comerciantes, e a EMACO chegou a ter a maior cota do produto, 10 mil sacos de cimento.

Foram várias viagens num enorme sacrifício conforme relata Oto Marques. Em época de seca as viagens chegavam aos 20 dias de Corumbá à Cáceres. “Era uma luta feroz para passar por bancos de areia com dez toneladas de carga”, relembra ele, hoje com 53 anos, na época jovem aos seus 18 anos.

Adquirida por Mamede Cintra, a Piquirí continuou abastecer Cáceres com regulares cargas de cimento, produto que destacava a Emaco Materiais de Construção, como um dos maiores empreendimento do ramo do interior do estado.

Enquanto isso, a Lancha São Paulo passava a transportar a Cerveja Antarctica que vinha de São Paulo através dos comboios de carga pela estrada de Ferro Noroeste do Brasil até o Porto de Corumbá. A carga então era embarcada e chegava pelo rio para abastecer o comércio local.

Mamede e o conhecido Chico da Brahma, foram os pioneiros na comercialização do referido produto em Cáceres e região.

São Paulo foi à pique com carga de arroz

Na década de setenta, um trágico acidente ocorreu com o rebocador São Paulo e a chata Santo Antonio, na localidade conhecida por Passagem Velha. Após descarregar uma carga de cerveja, foram carregadas toneladas de arroz na referida embarcação que tinha o destino de sempre: Corumbá.

Não se sabe se por excesso de peso, eis que a embarcação foi à pique com toda a carga. Felizmente não houve um maior prejuízo, haja vistas que vidas foram preservadas.

Revela Oto Marques, que vinha na Lancha Piquirí com a tripulação sob o comando do Totico, que eles chegaram no local algumas horas depois do sinistro. O trecho ficou quase interrompido no local do acidente, embarcações pequenas conseguiam passar observadas normas de bastante cuidado e atenção.

Coube ao comandante Totico posteriormente, tirar do fundo do rio a embarcação sinistrada.

Paulo Rocha, filho caçula, participou do registro com imporantes revelações sobre a profissão do pai


O caçula relembra das viagens com o velho comandante

Um pouco da história deste que foi considerado um dos maiores comandante de embarcações que através da história zingaram os rios desta parte do Pantanal, só foi possível graças à disponibilidade do filho caçula, Paulo Rocha, radialista da Rádio Jornal.

Solícito com a reportagem ele prontamente atendeu ao site e revela ricas e inesquecíveis passagens que teve com o pai comandante quando ainda era criança. Foram várias viagens realizadas até a cidade de Corumbá-MS. Na descida eram três dias de viagem, na subida, a depender da carga, uma semana a observar um mundo mágico e encantador. Onde se vê uma paisagem única; pássaros, bichos, e, se tiver sorte, até mesmo uma pintada no barranco dá para se avistar.

Segundo Paulo, mais de uma vez eles avistaram a Onça Pintada tomando sol no barranco, isso, numa época em que a caça era liberada. Existiam caçadores que tiravam da pele dos animais abatidos o sustento da família. Alguns entrepostos de comercialização de peles funcionavam normalmente na Cáceres do passado. Felizmente isso ficou no passado.

Paulo também lembra que algumas vezes ao cair da tarde a tripulação embarcada posava na Baía da Gaíva. O local é reconhecidamente misterioso e perigoso, um mar de água se apresenta desafiador para aqueles que temerosos não se arriscam passar pelo trajeto durante a noite, onde imensas ondas se avolumam. A baía durante o dia se apresenta com as suas águas bem mais calmas. E, assim, no outro dia bem cedo o comandante Totico continuava o destino.

Trecho do documentário "História sem fim... do Rio Paraguai - o relato"


Baía da Gaíva, “travessia muito respeitada”  

A Baía da Gaíva, fica no rio Paraguai, ao norte de Corumbá, trata-se de uma travessia muito respeitada pelos navegantes, conforme avalia o Capitão da Marinha, Renato Thomaz. Segundo ele, geralmente ao cair da tarde e adentrando a noite, as águas costumam se agitar com fortes ventos e formar imensas ondas ameaçadoras.

É costume dos que por ali passam fazer a travessia logo ao amanhecer quando as águas estão calmas.

O misterioso local está distante aproximadamente quatrocentos quilômetros de Cáceres, se localiza no marco divisório dos limites com o território boliviano, próximo da divisa com o estado de Mato Grosso do Sul.

Para quem conheceu antigamente a referida baía, o pescador profissional Oto Marques, que foi ajudante de bordo da Lancha Piquirí, o local tinha muito mais água conforme se apresenta ultimamente. Ainda assim é um trecho que merece respeito.

Se despediu na Cruzeiro do Pantanal

Experiência, conhecimento e respeito com as águas e com as pessoas, assim sempre haverá de ser lembrado o grande comandante Antônio Enésio de Oliveira, que em vida, escreveu honradamente sua história ao navegar por mais de cinco décadas nas águas que formam os rios do Pantanal.

As testemunhas vivas daqueles que com eles conviveram diz muita coisa:

Totico, o Espanhol e filhos, numa das viagens

- Era um profundo conhecedor da navegação, dos rios da bacia pantaneira e suas peculiaridades, avalia o empresário do setor de barco-hotel, Teodoro Brailowsky Fernandes, do Cruzeiro do Pantanal.

Ele recorda que o Seu Totico há 25 anos atrás trabalhou com o seu saudoso pai, no barco Espanhol Tur. O conhecido Espanhol, que construiu as principais embarcações que trafegaram e ainda trafegam nas águas dos rios mato-grossenses.

“O comandante sempre foi super educado, disciplinado, amigo e um profundo conhecedor do rio, das matas, dos índios”. Ele era descendente assim como o pai, o velho Xolô, que viveu 108 anos, dos Guatós, remadores em pé em suas canoas.

 O empresário e o pai idealizaram tempos atrás, um curta metragem que está no youtube, “História sem fim...do Rio Paraguai – o relato. No documentário o velho comandante se emociona ao reencontrar parentes guatós que vivem até hoje na localidade do Amolar.

Trecho do documentário "História sem fim... do Rio Paraguai - o relato", onde Totico se emociona ao reencontrar
parentes guatós na região do Amolar

 


 

 

 

 

Comentários: ( 14 ) cadastrados.
Por: Marionely Araújo Viegas
Caceres
Tive o prazer de conhecer sei Totico e participar de pescarias com ele. Como diz o panta MB tiro CONHECIA E NAVEGAVA PELO RIO PARAGUAI DE OLHOS FECHADOS. Com certeza está navegado com Deus nosso pai!!!!!
23/03/2021 17:33:18

Por: Maria José Soares Nicodemos Bruzzon
Cáceres
Parabéns pelo brilhantismo do seus trabalhos. Ótima matéria
22/03/2021 19:37:40

Por: Maria Sueli Vieira Mattiello
Cáceres MT
Que HISTÓRIA, linda amigos da ZakiNews, - Fiquei emocionada de ver e lembrar de alguns detalhes e principalmente de pessoas. -Toda história, além dos personagens tem os testemunhos, Paulo Rocha, Renato Thomas como os filhos do ESPANHOL, Senhor Silvino, casado com D. Vera Brailowsky, e seus filhos. - Quanta HISTÓRIA !!! -Sou testemunha quando da construção dos primeiros Barcos de Turismo feitos sobre comando do saudoso "Espanhol" , na sua Empresa até hoje comandada por seus filhos. Não tenho dúvidas , toda nossa história de Cáceres está ligada ao nosso RIO PARAGUAI, que é o nosso cartão de visita.
22/03/2021 18:24:59

Por: Sidnei
Caceres
👏👏👏👏👏 conheci pouco o Totico, mas sempre ouvi sobre o homem trabalhador e do bem que era.
22/03/2021 17:33:29

Por: Lázaro Sérgio maciel
Cáceres
Merecida homenagem! Comandante admirável.
22/03/2021 17:13:33

Por: Fábio Rosa Conceição
Cuiabá MT
Sr. Totico um comandante Admirável, que para todos nós que o conhecemos ou tivemos o prazer em trabalhar ao lado dele, nesse Pantanal maravilhoso nunca o esquecerá.
22/03/2021 14:58:24

Por: tiago
caceres
parabens toninho pela materia
22/03/2021 14:13:47

Por: Roosevelt
Mirassol d’Oeste
Lindas lembranças, Sr. Totico e D. Rosinha pessoas especiais, dignos, alegres, donos de um sorriso cativante. Gostaria apenas de retificar a cerveja que traziam para Cáceres era Brahma e não Antárctica e também esqueceram de citar o nome do filho Jorge Rocha. Belíssima e justa homenagem.
22/03/2021 12:12:18

Por: Elza S.
Cáceres
A vida faz sentido se fizermos história, Sr. Totico não passou despercebido nessa vida....Belíssima homenagem!
22/03/2021 10:39:25

Por: Bento de Souza Ribeiro

Esse prático TUTICO eu conheci quando fiz a minha primeira viagem como praticante de prático na CABIXI... Paulo Rocha seu pai era um dos melhores práticos do Rio Paraguai e Rio Cuiabá...
22/03/2021 10:25:33

Por: Cida
Caceres
Kishi e toninho vocês estao de parabéns, esse trabalho é espetacular.. obrigado por manter vivas tantas memorias..
22/03/2021 08:38:48

Por: Jorge Almeida
Cáceres
Merecida HOMENAGEM! Abraços a toda familia.
22/03/2021 08:26:46

Por: Luciana
Cáceres-MT
Parabéns pelas historias sempre tao bem detalhadas, nem sempre conhecemos essas personalidades, mas nos levam a muitas lembranças da nossa vida..
22/03/2021 08:12:04

Por: Paulo Antônio
Cuiabá
Seu Totico pessoa serena, calma, que transmitia paz, foi um profissional exemplar, que merece todas essas homenagens,
22/03/2021 07:23:27

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