11/01/2021 - 08:00

Por: Antonio Costa / Zakinews

O “Correio” na época da tipografia e da linotipo


Wilson Kishi

Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews

 

Toninho Costa revela que seu primeiro emprego, aos 17 anos, foi na empresa de José Wilson de Campos, no jornal Correio Cacerense. 



Sinceramente nem sei o motivo que me levou a enveredar para a oficina do jornal Correio Cacerense, à Rua Marechal Deodoro, no ano de 1974, quando iniciei no meu primeiro emprego.

Também nem fui atrás de saber o porquê, apenas sabia perfeitamente que tinha eu que ir à luta, ganhar alguns “trocados”, buscar a me ajudar a sustentar, atendendo o impulso da minha saudosa mãe Odete e que não esqueci jamais. Meu pai João Costa, à época era o responsável pela fazenda Água Verde, em pleno Pantanal, pertencente ao abastado pecuarista Tião Maia, que mais tarde fora criar boi na Austrália.

Voltando ao meu primeiro emprego, o semanário Correio Cacerense, onde convivi com Valdemar de França, Orácio (sem agá mesmo) Pedro de Alcântara (hoje no Banco da Amazônia), Hélio da Costa Nunes, que infelizmente, por problemas do coração, não está mais entre nós. A chefia da Oficina a cargo de Fernando Lustig.

Akio Kishi
José Wilson de Campos, fundador do Jornal Correio Cacerense


Na direção o fundador e editor, médico Veterinário José Wilson de Campos, que também respondia juntamente com seu pai, tabelião Aurélio Olegário de Campos, pelo Cartório do 2º Ofício, na Rua Coronel José Dulce.

Revelou-nos o seu primo, médico Renato Roberto Freire Rostey, que Zé Wilson quando da criação do “Correio” contou com valiosa colaboração do jornalista Pedro Rocha Jucá, que cedeu vários clichês com fotos de personalidades políticas da época, também algumas logomarcas que serviriam para ilustrar o recém-inaugurado semanário.

Único jornal em circulação em Cáceres, o Correio saía aos domingos. Passávamos a semana nos desdobrando na composição das matérias, a maioria transcritas dos jornais de Campo Grande, hoje Mato Grosso do Sul, e de Cuiabá. Além dos avisos, documentos perdidos, editais, as colunas sociais a cargo da glamourosa Ceila Rondon, e sobre o esporte, professor Eduardo Benevides Lindote e a sua comentada “Brasinha Esportiva”.

A manchete da primeira página ficava a cargo do Zé Wilson, como era chamado o diretor-proprietário, quase sempre um enfoque local.

Cada assunto era escrito letra por letra, uma a uma colocada no componidor. Quanto trabalho! Qualquer descuido e lá se ia uma manhã inteira sentado à frente de uma caixa de tipos (letras) todas ao chão, tudo embaralhado! A maneira como o jornal era confeccionado e os recursos disponíveis à época, exigiam que a circulação fosse semanal, além do fato de não serem tantas as novidades assim, e que merecessem outra forma de circulação.

Além de tipógrafo, eu era o impressor. Uma Marinoni manual se encarregava de imprimir os quase quinhentos exemplares que circulavam. Detalhe interessante: a cada edição eram postados vários exemplares para órgãos do governo, autoridades e para muitos cacerenses que moravam fora, especialmente filhos de tradicionais famílias, que estudavam nos grandes centros e que os pais não os deixavam perder o contato com a “terrinha”.

Com o seu idealismo de cacerense nato, José Wilson preencheu um marco relevante na comunicação de Cáceres e que tivemos a honra de ajudar a construir nos tempos em que labutamos ao lado de valiosos companheiros como os por nós citados. Tombou ele assassinado numa tarde fatídica de sábado, deixando a dor estampada no seio de toda uma sociedade, dos familiares, da esposa Fussae Hayashida, ainda gestante da pequena Wilsinelli. Seu pai, Seo Aurélio de Campos, não mais cortou a barba, em sinal de luto ou protesto conforme ouvíamos alguns afirmarem.


Com o súbito desaparecimento de seu fundador, o Correio Cacerense voltou a funcionar mais tarde, graças ao pioneirismo do paulista Dércio Cruz, (in-memorian), que aqui chegou, casou-se com uma cacerense e resolveu apostar na reedição do jornal.

Foi então que Cáceres ganhou sua primeira Linotypo. Inaugurando desse modo a época do chumbo. A máquina era operada pelo linotipista (profissional vindo de Goiânia) que “datilografava”, as matrizes (letras) iam sendo agrupadas, até formarem a linha que posteriormente ia para receber chumbo derretido de uma caldeira.   Mesmo sendo uma confecção um tanto quanto confusa, ainda assim o sistema estava bem à frente, do não menos valioso trabalho prestado por nós tipógrafos.

As inovações não pararam então. Dércio tratou logo de adquirir um aparelho de telex ou teletipo, que curiosamente só transmitia notícias internacionais, do famoso canal até hoje em circulação France Press. Muita evolução para a pacata Cáceres e os comentários se sucediam com a curiosa máquina noticiosa. O empresário tinha a intenção de expandir o jornal, fazer sua circulação na região, inclusive atender os municípios próximos, a exemplo os de Barra do Bugres e Tangará da Serra.

Dércio Cruz assumiu o JCC e trouxe a primeira Linotypo e em seguida o telex (ou teletipo)


De semanário passou a circular três vezes na semana. Um “fusquinha” era o veículo que servia de transporte do informativo que passou a veicular informações locais, como também as das regiões que começavam a surgir, especialmente as chamadas glebas, hoje prósperas cidades como Mirassol d’Oeste, Quatro Marcos, Araputanga, Rio Branco, Jauru e Salto do Céu.

O progresso exigia investimentos maiores no jornal. Foi assim que o Correio Cacerense adquiriu em São Paulo, duas intertypes, máquinas com recursos maiores que a linotipo. Quem iria operá-las? Técnicos de centros maiores, caso do paulista Francisco Valle, e os irmãos goianos Sebastião e Nadir Machado. Qualquer problema nas máquinas, lá vinha o mecânico também de Goiânia, Seo Lázaro para consertá-las e garantir a funcionabilidade do jornal.

Aos poucos surgiram outros profissionais, e o que é melhor, feitos na própria casa, caso de Evandro, Romildo, Devalnei, Daltro Boa Sorte entre outros.

Wilson Kishi
Máquina de composição de tipos de chumbo, criada em 1886, pelo alemão Ottimar Mergenthaler. Na época foi chamada de "Oitava Maravilha do Mundo" e inaugurou a Era Moderna da publicação


Na direção da empresa sai Dércio Cruz e assume o comando Odilon Viegas, Capitão Cláudio José de Carvalho, posteriormente Aloísio e Maria Barros, até finalmente chegar às mãos da família Michelis, com quem permanece ultimamente.

Então o Correio passa à sua circulação diária o que veio causar estupefação geral: jornal diário no interior de MT?

São quase cinquenta anos, ou perto de meio século a serviço da informação imparcial e compromissada com o leitor. Durante a nossa permanência no Correio, subimos de posto. Da oficina fomos parar na redação. Onde prazerosamente convivemos com nomes como Lindolfo Lemes da Silva, dono de uma inteligência fantástica, ex-vereador numa época que não existia o tal subsídio. Sinézio Nunes de Alcântara engatinhava à época como trepidante repórter, hoje para nossa satisfação é o editor-proprietário do conceituado jornal Expressão. Também nas reportagens ainda lembramos do Bento Matias Gonzaga, professor de literatura na Unemat; Escalante, Jorge Maciel (O Paródia) que hoje milita na imprensa cuiabana. Os colunistas, professor Geovanil Sacramento, Elair Carvalho (profª. da Unemat), Luci Leite de Souza, professora Sandra e a também carioca Célia Regina. Na paginação, o bem-humorado “Badeco”; o encarregado da revisão Sargento Campos, que já partiu. Não posso esquecer da nossa secretária Azize Ferreira de Campos, que após emprestar seus préstimos no Gabinete do Prefeito, merecidamente se aposentou.

Capa da Edição nº 565, de 05/01/1975 do Jornal Correio Cacerense  -  Aquivo Público Municipal

Nesse seleto ambiente redacional, também estivemos ao lado do jornalista Luizmar Faquini, que criou a coluna Zé Bacuri o implacável, para fugir da censura, (ele após conviver com Airtinho Montechi, Carlos Maldonado, Luttegards, Enio Dorado no extinto Jornal de Cáceres, aportou no Correio).

Voltando à oficina do “Correio Cacerense”, tempos de luta e sacrifício. Quantas noites em claro, mas o compromisso com o leitor falava mais alto. Logo cedo novamente o jornal circulava com as notícias quentinhas das últimas horas.

Outros profissionais dos grandes centros passaram por Cáceres, a exemplo do nissei Kavano, do Estadão de SP; Getúlio Malta, que teve como chefe no Zero Hora de Porto Alegre, Antonio Brito – da Globo e porta voz das últimas horas de Tancredo Neves.

Também acompanhamos a trajetória do jornalista Paulo Madeira Rosa, com passagem pela Tribuna de Santos, que promoveu alarde em toda cidade criando o tal Crioulo Voador. Meteu medo na periferia onde o “negão” atacava residências ao descer pelo telhado e comer a comida que sobrou do jantar. A plantação noticiosa servia para vender muitos jornais e deixar Cáceres em polvorosa.

Wilson Kishi

Cada noite o personagem fictício atacava em bairros diferentes e opostos contribuindo sobremaneira para aumentar o medo na população. Crioulo Voador atacava no Lobo Bom Jardim e, na noite seguinte ia “visitar” residências no Bairro Vila Real. O personagem fictício era mesmo um terror na obra imaginária do referido jornalista.

Foi esse mesmo jornalista que escreveu “que do alto de sua birosca de posse de sua luneta observou que Dom Máximo dá e dá mesmo...” Noutro dia os clubes de serviço, a maçonaria procuraram a direção do jornal exigindo explicação para tamanha afronta.

Paulo Rosa na edição seguinte fez a retratação: “Dom Máximo dá e dá mesmo, bênçãos aos fiéis...”

Antes disso ele mesmo já havia feito uma publicação que causou alvoroço nas hostes da política local. Em conversa in off com o então presidente da Câmara, Paulo Henrique de Oliveira (que Deus o tenha) ouviu o desabafo que “essa Câmara é uma verdadeira briga de cachorro”.

Na edição seguinte a espetacular frase estava na manchete de primeira página, a estourar o maior rebuliço entre os pares do legislativo.

Muitas histórias, causos, reportagens e lutas. Tempo em que tudo-tudo tinha que ser cuidadosamente trabalhado, sob pena de no outro dia ir ter com as barras do exército. Era tempos da ditadura e o jornalista Luizmar Faquini viveu na unha esse período cinza dos brasileiros, conforme depoimento inédito e exclusivo que recentemente veio para enriquecer as páginas do site.

A sua luta em meio às agruras do período de ditadura, agora pode ser conhecida na inédita revelação feita nos capítulos especialmente preparados. Faquini, pela primeira vez, resolveu revelar os perigos da época da ditadura e como por pouco conseguiu escapar e ainda vivo, felizmente, nos brinda com um fantástico depoimento histórico.

Assim, em Cáceres, o tempo de exceção trouxe sequelas irreparáveis que contrastavam com o cenário bucólico da estampa aparentemente calma e feliz do pântano e dos seus habitantes.

Virada a página após dor, angústia e desespero, os que ainda estão vivos para contar essa triste história ainda vivem inconformados, contrariados e tristes, caso do ex-fotógrafo e tipógrafo do extinto e histórico a Razão, que circulou por mais de trinta anos, Cipriano Santiago, (in-memorian) morador do bairro Cavalhada.

Merece também lembrança o saudoso jornalista Fernando de Mello (Fernando Substantivo), que era frequentemente preso no Quartel (2º B Fron, anos 70/80), sob pressão da campanha anticomunista que se desenvolvia à época.

Quanto aos que sucumbiram durante o período, as famílias ainda jorram lágrimas face ao precoce desaparecimento dos filhos, exemplo da jovem cacerense Jane Vanini, morta no Chile, cujo corpo nunca foi encontrado.

A dura passagem reflete por outro lado, a luta de idealistas para contribuir com o desenvolvimento da cidade, numa época em que os recursos dos dias atuais inexistiam. Internet, nem pensar.

Mesmo assim, estes baluartes chegaram juntos e ajudaram a empurrar Cáceres rumo ao desenvolvimento, até ter hoje uma imprensa ágil, transparente e eficaz, principalmente pela facilidade da comunicação virtual e da chuva de informações que caem a cada segundo, onde existir uma máquina conectada com o mundo virtual.

Isso hoje, graças ao modernismo. E antes, só quem viveu esse tempo sabe comparar como as coisas mudaram para melhor. Valeu a luta de todos em prol da informação no interior de MT. Valeu eternos companheiros, recebam a nossa singela homenagem!

Wilson Kishi








 

Comentários: ( 9 ) cadastrados.
Por: Paulo Cesar Homem de Melo
Cuiabá
Toninho Costa, uma coisa é saber as noticias, você liga a tv , Internet , redes sociais e pronto, está sabendo. Ler jornal impresso é outra coisa, é uma atitude, e lendo esse relato me junto ao amigo José Wilson, Dércio Cruz, Odilon Viegas, Cap. Claudio, Sra Ofelia e outros que continuaram com o Correio Cacerense . O jornal impresso está acabando para tristeza minha, dependente anímico de jornal. Antigamente em Cáceres lia-se o jornal da Capital Federal diariamente, pois tínhamos Cruzeiro do Sul todo dia , depois só através de amigos, Jari, João Gabriel, Carlinhos, Sid Maia, Cel Darci e outros viajantes. Por não mais chegar O Globo nem qq outro jornal do Rio em Cuiabá desde 28 de Janeiro de 2008, toda segunda ,os jornais da semana anterior chegam para mim enviados por amigo , lidos como do dia e repassados para outros adeptos. Desde que em agosto de 1953 em Corumbá, li meu primeiro jornal Correio da Manhã, com 8 anos, nunca mais abandonei esse saudável vicio. Parabéns, Kishi por editar através de outro veículo, e Toninho, pela sua bela experiência nas redações de jornal, por reverenciarem o jornal impresso, que teve seu inicio no século XVIII, e que hoje só sobrevive pela abnegação de poucos . Mas, a vida é assim ,traz evolução mas algumas belas atitudes vão sendo eclipsadas. Me perdoem o saudosismo . O Correio Cacerense é eterno !!!
12/01/2021 15:47:56

Por: Uberaci
Cuiabá
Os jornais de papel antigamente mostravam informações importantes, não só tragédias e coisas ruins como os do telejornal de hoje. Ver os destaques, fotos de eventos, as curtinhas, esportes...era diferente
11/01/2021 16:48:50

Por: Maryana
Cáceres-MT
Muito legal! Parabens!
11/01/2021 15:35:50

Por: Amilton
Cáceres
Correio um dos jornais mais consolidados de MT, muitos cacerenses fizeram parte das páginas desse veículo, assim como eles fizeram parte do dia-a-dia de muitas famílias. Merecida homenagem! Parabéns ao site por lembrar de quem merece destaque.
11/01/2021 15:12:55

Por: vanusa
caceres
o jornal correio cacerense marcou a vida de tanta gente,que bom que vcs trouseram essa homenagem a eles.
11/01/2021 14:57:12

Por: Tania Goreti Barbosa da Costa
Cáceres
Parabéns por mais essa belíssima matéria homenageando tantas pessoas e brindando os leitores e leitoras do site com os ricos detalhes dos fatos que marcaram a história de Cáceres.
11/01/2021 13:15:08

Por: Antonio Carlos
Cuiabá
Grande José Wilson que nos deixou cedo. Correio Cacerense é outro marco histórico da nossa cidade de Cáceres
11/01/2021 10:10:04

Por: Nair
Cáceres
Um dos principais meios de comunicação de antigamente, é nostálgico lembrar até mesmo do cheiro dos jornais. Uma matéria muito importante, parabéns.
11/01/2021 09:24:51

Por: Paulo fanaia
Cuiaba
Parabéns pela matéria! O correio cacerense tem um papel fundamental no jornalismo cacerense.
11/01/2021 09:16:22

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