04/01/2021 - 07:00

Por: Wilson Kishi

MARCO DO JAURU – o maior monumento histórico de Mato Grosso


Autor do desenho: Wilson Kishi
Marco do Jauru em dois momentos: foto da esquerda, final dos anos 20 do século XX e a foto da direita, registrada em 2018

 

Um novo ano se inicia. Trazer uma matéria sobre o maior monumento histórico existente em Mato Grosso é motivo de orgulho para todos os cacerenses que amam a sua terra.

Estamos falando do Marco do Jauru, monumento localizado na praça Barão do Rio Branco, ao lado de outra grande edificação, a Catedral São Luiz.

Muitos não conhecem a sua história e para que todos tomem conhecimento do que significa esse marco, que é mais antigo que a própria cidade de Cáceres, o Zakinews traz até você, a íntegra da palestra proferida pelo historiador e professor, Natalino Ferreira Mendes, no ano de 1981, quando a Princesinha do Paraguai era administrada por Ivo Cuiabano Scaff.

O professor Natalino, sempre presente nos principais eventos cívicos de Cáceres, passou por dezenas de prefeitos, trabalhando como Chefe de Gabinete, e nunca se omitiu a participar de acontecimentos oficiais, oportunidade em que aproveitava para fazer os seus registros.

Exímio historiador, seus discursos e palestras chamavam a atenção de todos os presentes, pelos conteúdos ricos em detalhes nos quais Natalino transmitia suas palavras e nessa, especificamente, sobre o Marco do Jauru, você leitor, conhecerá detalhes sobre essa peça, que virou símbolo do glorioso 2º Batalhão de Fronteira, hoje com a denominação de Comando de Fronteira Jauru/66º Batalhão de Infantaria Motorizada. 



MARCO DO JAURU

Palestra proferida no Quartel do 66º Batalhão de Infantaria Motorizada, de Cáceres, a convite do seu Comandante, Cel. LÉO ANTUNES GOYANA DE OLIVEIRA, no dia 17 de junho de 1981, por Natalino Ferreira Mendes.

Foto do Cel. Léo A. Goyanna de Oliveira, então comandante do 66º BIMtz


O historiador Natalino Ferreira Mendes subdividiu a sua palestra em 8 partes: Introdução; O Tratado de Madri; A Concepção do Marco; Assentamento do Marco; Anulação do Tratado de Madri; A Transladação do Marco; O Tombamento; e Símbolo Perene.

Assim iniciou a palestra...

Senhores,

É preciso não ter o sentimento do justo e do honesto – diz Macedo Soares, citado pelo Dr. Agenor Ferreira Leão – para não arar, cheio de respeito, diante de um velho marco, solitário da vastidão dos campos, ou à beira da estrada pública ou no ermo do mato virgem, guarda fiel da propriedade, testemunha incera de um direito...

O Marco – acrescenta o Dr. Ferreira Leão – invoca, desperta, acende em nós o senso de justiça, honestidade e respeito, como se fosse, no seu viver mudo e solitário, um eterno mausoléu diante do qual, num gesto de humana reverência, simples e espontâneo, levamos a mão à cabeça e nos descobrimos, curvando o corpo para a frente, num digno sinal de profundo acatamento”.

Não há quem, pela primeira vez, se aproxima da “Pirâmide chantada no centro da Praça Barão do Rio Branco, desta cidade, que não pare e a contemple em respeitoso silêncio. Eis que está diante de um monumento que não é somente uma peça material de fixação de limites de domínio territoriais, mas também um símbolo. Ele foi construído para marcar a fronteira dos domínios das Coroas Ibéricas na América e perpetuar o espírito de entendimento e desejo de justiça e de paz entre duas grandes Nações colonialistas da época: Portugal e Espanha.

Concebida, há 231 anos, pelo gênio de um brasileiro na Corte de Lisboa – Alexandre de Gusmão – a “Pirâmide” da Praça Barão do Rio Branco é uma página eloquente da nossa História, que tentarei esboçar nesta despretensiosa palestra.

O TRATADO DE MADRI

Como bem disse o Dr. Luis Philippe Pereira Leite (1): “O fim do século XV foi assinalado por importantíssimas descobertas marítimas, cabendo a glória delas aos portugueses e espanhóis, sobretudo os portugueses que foram os primeiros que as iniciaram e com o seu exemplo impulsionaram as navegações dos outros povos”.

“Natural que surgissem disputas fronteiriças entre os povos líderes das descobertas e a autoridade espiritual e supra terrena da Igreja se fez sentir como árbitro nas demandas fronteiriças, através de bulas papais, as quais procuravam, quando possível, definir os direitos dos povos soberanos que demandam até que os próprios estados soberanos decidiram defini-las e resolvê-las através de tratados bilaterais, notáveis documentos registrados pela História durante muitos séculos”.

“Destacado instrumento definidor de tais direitos foi, sem dúvida, o Tratado de Tordesilhas, celebrado na cidade espanhola do mesmo nome em 07.06.1494 e ratificado na cidade portuguesa de Setúbal em 05.09.1494; estabelecia a divisão do mundo conhecido e a descobrir em hemisférios, por um meridiano distante 370 léguas das Ilhas do Cabo Verde, deixando à Espanha tudo que ficasse a Ocidente e a Portugal o que se contivesse no Oriente”.

Entretanto, jamais se pôde fixar com exatidão o meridiano estabelecido em Tordesilhas, surgindo dúvidas e controvérsias que punham os dois Reinos em constante vigília, levando-os a sérios desentendimentos que afetavam enormemente os seus domínios na América do Sul.

Havia necessidade de se entenderem os dois países ibéricos sobre as suas conquistas no Ocidente e no Oriente.

A ocasião propícia para esse fim surgiu pela aproximação, pelos laços do matrimônio, entre as famílias reais das duas Nações.

Escreve o Dr. Jaime Cortesão (2) que “desde o começo da subida ao trono de Fernando VI, D. João V soubera inspirar confiança ao seu desconfiado genro, fazendo-lhe rasgadas promessas de auxílio pessoal com seus conselhos e valimentos, tanto mais que o novo Rei iniciava o seu reinado em plena guerra e em condições alarmantes para a monarquia espanhola. A avaliar pela resposta de João V à carta de sua filha, o monarca português alimentava as maiores esperanças de realizar enfim um tratado de limites com a Espanha conforme as suas velhas ambições de estender o Brasil até ao estuário do Prata”.


Busto de Alexandre de Gusmão. Maurice Félix Charpentier (encomendada pelo Barão do Rio Branco). - Foto da Mapoteca do Itamaraty ICO 30.579 C05-21


Enquanto isso, um brasileiro galgava, na Corte de Lisboa, posição chave – Alexandre de Gusmão – que, segundo Cortesão, or volta de 1735, tornou-se homem providencial. “Viu e previu os problemas da soberania no estuário platino em toda a sua complexidade. Propôs e definiu com meridiana claridade, os novos métodos para resolvê-los. Revelou-se enfim, o único homem capaz de arcar, no futuro, com as pesadas responsabilidades de solucionar a premente questão dos limites entre a América portuguesa e espanhola”. (3)

Mapa dos confins do Brazil com as terras da Coroa da Espanha na América Meridional. 1749. Biblioteca Nacional. Mais conhecido como Mapa das Cortes, foi feito em Lisboa, sob a direção de Alexandre de Gusmão, no contexto das negociações do Tratado de Madri.

Alexandre de Gusmão foi decisivo na negociação do Tratado de Madri, assinado em 13 de janeiro de 1750. Nele se estabeleceu as linhas de fronteiras, nos traçados das ações dos bandeirantes sendo reconhecida como mais forte do que as linhas imaginadas no século XV. O tratado deu equilíbrio geográfico, com Portugal ficando com a bacia fluvial do Amazonas e a Espanha, a do rio da Prata. Alexandre nasceu na cidade de Santos-SP em 30/12/1695

Alexandre de Gusmão, diz Cortesão (4), “afirma-se definitivamente como estadista e inspirador oculto da política exterior portuguesa, em tudo que se relaciona com o Brasil       “.

“É ele – continua Cortesão (5) – que tudo medita, pesa, mede, planeja, ordena e redige”.

Assim é que, após vários anos de estudos e negociações, graças ao esforço e pertinácia de Alexandre de Gusmão, é finalmente assinado, na Capital espanhola, a 13 de janeiro de 1950, o Tratado de Limites que passou à História como o nome de Tratado de Madri.

Por esse Ajuste, “Os Sereníssimos Reis de Portugal e Espanha, desejando eficazmente consolidar e estreitar a sincera e cordial amizade, que entre si professam, consideram que o meio mais conducente para conseguir tão saudável intento, é tirar todos os pretextos, e alhanar os embaraços, que possam ao diante alterá-la, e particularmente, os que se podem oferecer com o motivo dos limites das duas Coroas na América, cujas conquistas se têm adiantado com incerteza e dúvida, por se não haverem averiguado até agora os verdadeiros limites daqueles Domínios, ou a paragem donde se há de imaginar a linha divisória, que havia de ser princípio inalterável da demarcação de cada Coroa. E considerando as dificuldades invencíveis, que se ofereceriam se houvesse de assinalar-se esta Linha com o conhecimento prático, que se requer; resolveram examinar as razões e dúvidas, que se oferecem por ambas partes, e à vista delas concluir o ajuste com recíproca satisfação e conveniência”. (6)

Diz o Artigo VII do Tratado de Madri:

Desde a boca do Jauru pela parte Ocidental prosseguirá a fronteira em linha reta até a margem Austral do rio Guaporé de fronte da boca do rio Sararé, que entra no dito Guaporé, pela sua margem Setentrional; com declaração que, se os Comissários, que se hão de despachar para o regulamento dos Confins, nesta parte da face do País, acharam entre os rios Jauru e Guaporé outros rios ou balisas naturais, por onde mais comodamente, e com maior certeza se possa assinalar a Raia naquela paragem, salvando sempre a navegação do Jauru, que deve ser privativa dos Portugueses, e o caminho que eles costumas fazer do Cuiabá para o Mato Grosso, os dois Altos Contraentes consentem, e aprovam, que assim se estabeleça, sem atender a alguma porção mais ou menos de terreno, que possa ficar a uma ou a outra parte. Desde o lugar, que na margem austral do Guaporé for assinalado para termo da Rais, como fica explicado, baixará a Fronteira por todo o curso do rio Guaporé até mais abaixo da sua união com o rio Mamoré que nasce na Província de Santa Cruz de La Sierra, e atravessa a Missão dos Moxos, e formam juntos o rio chamado da Madeira, que entra no das Amazonas, ou Maranhão, pela sua margem Austral”.

Na boca, pois, do rio Jauru, importantíssimo, na época, para a ligação entre Cuiabá e o Amazonas, haveria de ser plantado um Marco que exprimisse, através das suas legendas, e pelo seu valor intrínseco, uma conquista humana no campo das idéias e da diplomacia, em busca da paz pela justiça, conseguida por duas grandes Nações possuidoras de imenso império colônia na América.

A CONCEPÇÃO DO MARCO

É ainda o grande pesquisador do Instituto Rio Branco, Dr. Jaime Cortesão (7) quem nos dá conhecimento de como foi concebido o Marco, de que estamos falando, através da própria carta de Alexandre de Gusmão ao Embaixador português em Madri:

As provas que Vossa Excelência deu da sua prudência e atividade em toda negociação deste Tratado moveram a benignidade de Sua Majestade a dar a Vossa Excelência o agradecimento e louvor, que receberá na carta junta. Bem pode Vossa Excelência ter a satisfação de que esta grande obra lhe deixará honroso nome, não só entre os naturais, mas também entre os estranhos, assim por ter superado muitas dificuldades, que até agora pareciam invencíveis neste negócio, como por haver ajustado em poucos artigos o maior giro de limites sobre que se fez nunca tratado no Mundo, não por linha imaginárias, com as quais é fácil repartir o globo todo, mas por confrontações claras e individuais”.

Noticiava-se já – explica Cortesão – a nomeação de Gomes Freire de Andrade para comissário dos limites do sul. E comunicava-se ainda:

Também vai incluso um desenho dos marcos, que aqui se querem mandar fazer de mármore, para se assentarem nas partes mais notáveis da fronteira, a onde se puderem conduzir, sem grande incômodo; na mesma folha verá Vossa Excelência as inscrições que se entende pôr nas quatro faces da agulha ou termo. Vossa Excelência comunicará tudo com os ministros de El-Rei Católico, para que convindo essa Corte se ordene aqui esta obra e possam ainda ir algun marcos semelhantes...”

E comenta o ilustre historiador Jaime Cortesão:

Era necessário dar ao Tratado um remate simbólico: celebrar sobre o próprio terreno e êxito e a execução do convênio, proclamando por forma monumental o espírito de concórdia e de respeito mútuo dos interesses, que inspirara as negociações. Alexandre de Gusmão, que tinha alma de artista, imaginou e fez construir esse feliz símbolo. Um grande número de marcos de mármore em forma de pirâmide quadrangular, assente sobre um alto pedestal e este sobre um vasto sôco com degrau, foram talhados em Lisboa, ostentando, entre outras inscrições, o seguinte versículo do Eclesiastes: Justitia et pax osculatae sunt.

Vê-se pela correspondência supra, que vários marcos foram projetados e executados sob a inspiração de Alexandre de Gusmão. Um deles foi trazido para a foz do rio Jauru, como veremos adiante.


Figura acima - Vista do lugar onde se colocou o Marco de Limites. Vista do rio Paraguai acima do rio Jauru. In. Atlas Mapa geográfico dos rios do Prata, Paraná e Paraguai - Autor: Miguel Ciera, 1758. Lápis, linta e aquarela sobre papel. Dimensão: 37x28 cm. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

ASSENTAMENTO DO MARCO

Em “Pantanal Matogrossense”, do eminente historiador Virgílio Corrêa Filho, lê-se o seguinte sobre o assentamento do Marco:

Assim foi que, diplomaticamente homologada a expansão bandeirante pelo tratado de limites de 1750, negociado pelo descortino pacifista de Alexandre de Gusmão, coube ao Sargento-Mor José Custódio de Sá e Faria, por parte de Portugal, e D. Manuel Antonio Flores, Capitão de Fragata da Real Armada e primeiro Comissário espanhol, a incumbência de chantarem na foz do Jauru o marco de escolhida rocha lusitana, trazido de propósito pera assinalar a frontera.

A 21 de setembro de 1753 saltaram em Assunção, com os respectivos colaboradores, entre o quais se incluíam profissionais de reconhecido saber.

A partida lusitana – diz o notável historiador mato-grossense – compunha-se de José Custódio de Sá e Faria, Sargento-Mor de Infantaria, com exercício de engenheiro e prmeiro comissário; o Dr. Miguel Ciera, comógrafo; Gregório de Moraes e Castro Pimentel, segundo comissário e capitão de Infantaria; João Bento Pithon, ajudante de Infantaria com exercício de engenheiro e cosmógrafo; Manuel da Silva, tenente de Infantaria e comissário, além de capelão, cirurgião e auxiliares.

A castelhana apresentava-se com Dr. Manuel Antonio Flores, capitão de Fragata, primeiro comissário; D. Atanázio Varanda, tenente da Real Armada, segundo comissário, cosmógrafo; D. Alonso Pacheco, alferes de navio e cosmógrafo; D. Manuel de La Quitana, tenente de Infantaria com o mando de 24 soldados; Padre José Quiroga, capelão do exército, cirurgião e auxiliares”.

O marco e finalmente colocado na foz do rio Jauru no dia 18 de janeiro de 1754 (8). O mesmo historiador mato-grossense, Virgílio Corrêa Filho, assim nos conta o desfecho da missão:

No pontal que examinaram mais detidamente só encontraram terra frouxa e baixa, que alagam as enchentes e assim pelo não expor a que se enterrasse ou caísse, resolveram afastar o marco para uma tapera sensivelmente mais alta, sobre as ruínas de uma casa, onde vivu alguns anos um português com sua família natural de Cuiabá, persuadidos por isso de que estava seguro de inundações.

Terminada a ereção do marco, mediante o qual surgiu no eio dos pantanais singular monumento de rocha estranha, habilmente afeiçoada por escultores luitanos, rodaram os expedicionários contente por terem ultimado a sua tarefa”.

ANULAÇÃO DO TRATADO DE MADRI

Onze anos depois, novo tratado anula o de Madri. É o Ajuste do Pardo, em 1761. Em consequência, o Marco do Jauru perde a sua finalidade estatuída no Artigo VII. A fronteira dos dois Reinos, graças aos esforços, à clarividência e tato diplomático do quarto Governador de Mato Grosso e fundador desta cidade – Capitão General Luiz de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, vai avançar para o Oeste. A “Pirâmide” de Gusmão cai pouco a pouco no esquecimento.

Desenho que retrata a posição do Marco assentado às margens do rio Jauru



Hercule Florence foi especialmente, em 1827, ao Jauru para ver o marco e assim traduz as suas impressões:

Partindo às duas horas da madrugada (de 11.09.1827), às 9 horas da manhã chegamos ao rio Jauru, à direita. Em vão procuramos a princípio enxergar a Pirâmide que vínhamos ver: descobrimo-la afinal à direita da embocadura, por trás de árvores que a ocultam das vistas.

Não é possível enxergar com indiferença um monumento qualquer de mármore branco e de arquitetura regular que de repente se nos depara no meio dessas vasta regiões, onde sem partilha reina a natureza”.

A seguir, Florence nos dá a descrição do monumento:

É a Pirâmide quadrangular e tem 12 e meio pés de alto, incluindo o pedestal e a cruz de pedra que a cerca. No lado N.54ºO, estão gravadas a arma de Espanha, sob as quais se lê esta inscrição: SUB FERDINANDO VI HISPANIAE REGE CATHOLICO. A coroa está quebrada: só restam os florões.

No lado S.54ºE, estão as armas de Portugal e esta inscrição: SUB IONNE V LUSITANORUM REGE FIDELISSIMO. Falta de todo a coroa.

Lê-se no lado N.36ºE: EX PACTIS FINIUM REGUNDORUM CONVENTIS MADRITI. IDIB IANVAR MDCCL.

Enfim no quarto lado: IUSTITIA ET PAX OSCULATAE SUNT.

A Pirâmide, compreendendo o pedestal, é de alto a baixo separada em duas metades, ambas de uma só pedra. A junção forma, nos lado N.36ºE e S.36ºO duas linhas que marcam a direção de um raio de mais de cem léguas de limites”.


Imagem que retrata a posição do Marco do Jauru, período em que existia a Igreja Matriz na Praça Barão do Rio Branco - Acervo do Museu de Cáceres Emília Darci de Souza Cuyabano

O Marco do Jauru e ao fundo as obras de construção da Catedral São Luiz por volta de 1930


A TRASLADAÇÃO DO MARCO

Mais de um século permaneceu a Pirâmide no seio da floresta, no ponto em que o Jauru tributa suas águas ao Paraguai, até que em 1880, por ofício de 28 de maio, o Tenente Cel. Antonio Maria Coelho – herói da retomada de Corumbá e comandante do Distrito Militar de Cáceres – solicita à Câmara Municipal desta cidade, permissão para colocar no centro da então Praça da Matriz (hoje Barão do Rio Branco) o Marco do Jauru.

A Câmara responde-lhe nestes termos:

“Esta Câmara Municipal tem a honra de acusar o recebimento do Ofício que V. Sa. Em data de ontem se dignou dirigir-lhe, no qual manifestou a ideia que concedeu de colocar na praça da Igreja Matriz desta cidade o Marco que outrora se destinou para marcar o limite da possessão portuguesa e espanhola nesta parte da América. A mesma Câmara conhecedora do gênio patriótico dos desejos de todo e qualquer melhoramento, assim como formoseamento dos pontos que reside, não pode ela furtar-se de louvar a V. Sa. por tão nobres sentimentos, mas não sendo aquele monumento de origem brasileira, entende ela que não deva figurar em sua praça, entretanto, não querendo que prevaleça sua ideia a tal respeito, vai nesta data consultar a Exma. Presidência e de sua resposta dará ciência a V. Sa. a quem Deus guarde”. (Ao Sr. Tem. Cel. Antonio Maria Coelho, Com. Distrito Militar. João Antonio da Fonseca, Presidente).

Infelizmente, não encontramos o ofício dirigido ao Presidente do Estado nem a resposta deste à Câmara.

Achamos, porém, na ata da sessão da Câmara Municipal de 27 de agosto de 1883, o seguinte:

“Foi lido um ofício ao Sr. Ten. Cel. Antonio Maria Coelho, Comandante deste Distrito, pedindo a esta Câmara o pagamento de 93$975 rs. que gastou com a colocação do monumento que se acha na largo da Matriz, nela concordando ordenou ao seu procurador que fizesse o efetivo pagamento da referida quantia, respondendo-se o dito ofício nesse sentido”.

Local onde o Marco do Jauru foi fixado pela primeira vez em 02/02/1883. No lado direito da foto, parte da Catedral São Luiz em fase inicial da sua construção; no plano de fundo, atrás do marco, a antiga fachada do Colégio Imaculada Conceição (CIC)


Ficamos, contudo, sem saber a data em que se deu o assentamento do Marco na praça Barão do Rio Branco.

Até que um dia, em conversa com o reverendo Pe. Paulo Maria Cabrol, então Vigário nesta cidade, disse-nos ele que vira anotada, num livro antigo, pelo Vigário da época, o virtuoso Padre Casimiro Ponce Martins, a data em que se deu o fato. Verificando o livro, por consentimento do Reverendo Pe. Paulo, constatamos lá o que vínhamos procurando, há tempo, o dia exato em que e assentou em frente à nossa Igreja Matriz, o Marco trazido do Jauru por iniciativa, como vimos, do Ten. Cel. Antonio Maria Coelho – dia 02 de fevereiro de 1883.

Outra imagem que registra a posição original do Marco do Jauru. Essa foto provavelmente foi registrada no final dos anos 20 do século XX  -  Acervo Nudheo/Unemat


Por ocasião do bicentenário do Tratado de Madri, em 1950, aqui esteve o historiador, Dr. Jaime Cortesão que pronunciou, junto ao Marco do Jauru, um discurso sobre o monumento e o seu inspirador – Alexandre de Gusmão.

Cortesão acha que o Marco do Jauru “é o único existente dos muitos monumentos semelhantes que, com grande trabalho, foram conduzidos até aos lugares onde devam assentar. Depois do Tratado do Pardo (1761) os espanhóis mandaram destruir todos os marcos que haviam sido colocados nas fronteiras do Sul”.

O TOMBAMENTO DO MARCO

Em 1977, o arquiteto Edgard Jacintho da Silva, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, propõe a esta Entidade, o tombamento do Marco do Jauru, nos termos seguintes:

Senhor diretor,

No momento em que cuida do inventário e da tomada de medidas práticas para a proteção do acervo histórico e artístico na área de Mato Grosso, impõe-se seja inscrito nos livros do Tombo Histórico e Artístico o denominado MARCO DO JAURU, localizado na praça Barão do Rio Branco, na cidade de Cáceres, na referida unidade da Federação.

Trata-se de um monumento de expressivo conteúdo histórico valorizado por seu aporte à epigrafia brasileira que, perpetuando o tratado de Madri, evoca para a posteridade o vulto do insigne estadista patrício Alexandre de Gusmão, proclamado como um dos seus inspiradores e artífice da grandeza territorial do País. O marco foi erigido em 1754 na barra ou boca do Jauru com o rio Paraguai por diligência da Terceira Partida da Comissão encarregada da Demarcação dos Limites da América Meridional entre os domínios português e espanhol e que teve como Comissário o então Sargento-Mor engenheiro José Custódio de Sá e Faria.

Como baliza que assinalou o recuo da linha de Tordesilhas, o marco era “Formado de oito peças (pedra de Lioz), a primeira he o soco; a segunda he a base; a terceira e quarta he o corpo composto de duas peças; a quinta o capitel; a sexta a cruz, e as outras duas são as coroas (desaparecidas) que estão sobre as armas”... “e está colocado de modo que da banda das armas de Portugal olhão rectamente ao NE...”

Sua transladação do sítio em que originariamente foi levantado “a275 toezas até a boca nova do Jauru” para uma primeira posição no outrora Largo da Matriz de Cáceres, se deu a 02 de fevereiro de 1883 por iniciativa do então Ten. Cel. Antonio Maria Coelho, herói da retomada de Corumbá na guerra do Paraguai e futuro Barão de Amambai”.


A Catedral e o Marco do Jauru são os dois grandes monumentos localizados na área central da cidade de Cáceres - Fotos:Wilson Kishi



Em 13 de setembro de 1978 – ano do bicentenário de Cáceres – o Sr. Ministro da Educação homologou o tombamento:

“Nos termos da Lei nº 6,292, de 15 de dezembro de 1975, e para os efeitos do Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937, HOMOLOGO o Tombamento do Marco do Jauru, localizado na praça Barão do Rio Branco, na cidade de Cáceres, no Estado de Mato Grosso, a que se refere o Processo de Tombamento nº 966-T/77-IPHAN”. (a) Euro Brandão.

Em 25 de setembro de 1978, o arquiteto Edgard Jacintho da Silva dirigiu ao Diretor-Geral do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ofício nestes termos:

Sugiro que no termo de inscrição do tombamento do Marco do Jauru, pelo imperativo histórico da inamovibilidade intrínseca a este gênero de monumento, seja nele acrescentada a ressalva da sua restituição ao local de origem – observadas fielmente as instruções geodésicas – quando no futuro se verificarem condições factíveis para a proteção e conservação a ser mantidas mesmo na paragem convencionada pelo Tratado de Madri e onde foi efetivamente chantado”.

O Marco do Jauru foi inscrito no dia 04 de outubro de 1978, no livro de Tombo Histórico, fls. 79, sob o nº 464, e no livro do Tombo das Belas Artes, às fls. 99, sob nº 530, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, justamente no mês e no ano em que Cáceres comemora o seu bicentenário.

SÍMBOLO PERENE

Assim, a cidade de Luiz de Albuquerque se orgulha de ostentar em sua praça principal, entre a Catedral e o rio Paraguai, o MARCO DO JAURU, esse expressivo monumento oriundo do Tratado de Madri – 1750 – Símbolo Perene, como dele disse o Dr. Luis Philippe Pereira Leite, que, em sua obra “Vila Maria dos Meus Maiores”, nos dá um trecho da oração proferida pelo imortal Arcebispo de Cuiabá, Dom Aquino Corrêa, por ocasião do bicentenário do Tratado de Madri.

Por último, Senhores, o que justifica plenamente esta liturgia sacra de ação de graças, e o espírito que presidiu à elaboração desse Tratado do qual com a sua ímpar autoridade, escreveu o Barão do Rio Branco, que deixa no ânimo de quem o estuda, “A mais viva e grata impressão de boa fé, lealdade e grandeza de vistas, que inspiram esse ajuste amigável de antigas e mesquinhas querelas, consultando-se unicamente os princípios superiores da razão e da justiça e as conveniências da paz e da civilização da América”.

E dirigindo-se à nossa Pirâmide da praça Rio Branco, atestado eloquente daquele Convênio:

Marco do Jauru: Tu perpetuaste para sempre, nos relevos artísticos das tuas quatro páginas, os nomes das duas augustas realizas, que foram as altas partes contratantes de Madri, a Majestade Fidelíssima de D. João V, de Portugal e a Majestade Católica de D. Fernando VI, de Espanha; mas nos lembra também, no teu sugestivo silêncio, todos quantos colaboraram no memorável pacto, que ora festejamos, e sobre os quais paira, excelsa e inconfundível, como alma que foi dessas negociações políticas, honrando sobremaneira a nossa Pátria e a nossa gente, a figura de ALEXANDRE DE GUSMÃO, o grande diplomata brasileiro”.

Cáceres, 17/06/1981

NATALINO FERREIRA MENDES


 

Solenidade de inauguração de um monumento similar do Marco do Jauru assentado no mesmo local onde foi colocado em 18/01/1754

 

Em 2019, em comemoração aos 80 anos de aniversário do 2º Batalhão de Fronteira, entre tantas solenidades comemorativas, foi programado a fixação de uma peça similar, com 50% menor, do Marco do Jauru, no mesmo local onde foi assentado em 18 de janeiro de 1754. Dada a importância do fato histórico, esteve presente nessa solenidade dois generais do Exército Brasileiro, Lourival Carvalho Silva, comandante do Comando Militar do Oeste (CMO) e Fernando Dias Herzer, comandante da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada.

Clique no link abaixo para ter acesso a matéria referente aos 80 anos do 2º Batalhão de Fronteira:

Após 265 anos, similar do Marco do Jauru é fixado no local de origem

 





Comentários: ( 16 ) cadastrados.
Por: Santilha Coelho
Cuiabá
Cáceres querida!
Princesinha do Rio Paraguai!
Cáceres dos meus amores!
Cáceres de tantas personalidades ilustres, como Natalino, que é de família tradicional, Ferrera Mendes.
Marco do Jauru... Catedral... Ponte Marechal Rondon... Casarões... são obras que retratam uma cidade querida e saudosa.
Parabéns ao priprietário do site Zakinews, que traz nas histórias e marcas do passado, lembranças boas de ser colocadas aos mais jovens.
Wilson Kishi você é demais!!!
Parabéns!!!
09/01/2021 05:06:04

Por: claudio
caceres
parabens
05/01/2021 08:41:15

Por: Paulo Antonio
Cuiabá
Parabéns pela matéria, agora podemos contar aos nossos filhos a história do Marco do Jauru. Alguém poderia nos contar da mudança de lugar do Marco do Jauru na Praça Barão do Rio Branco, aproveitar e também falar do Coreto que lá existia...
05/01/2021 05:02:21

Por: Marisa Oliveira
Cuiabá
Que matéria rica em detalhes, é tão bacana poder observar também as fotografias e ver como era nossa cidade de Cáceres, a construção da catedral...impressionante.
04/01/2021 20:42:22

Por: Lourdes Souza
Cuiabá
Nao sabia a história do marco do jauru e sempre achei uma obra muito bonita
04/01/2021 20:10:20

Por: Nair Gonçalves
Cáceres
Bela matéria...Marco do Jauro é um monumento sensacional, não consigo imaginar nossa praça sem ele
04/01/2021 19:03:04

Por: Geraldo Coelho
Cuiabá
Que materia meu amigo Kishi, muito interessante...afinal, onde foi parar a coroa do marco do jauru? rsrs
04/01/2021 17:07:33

Por: Josué Florenço
Cáceres
Lindas fotos e bela história...marco do jauru é um patrimônio que devemos cuidar, ele carrega uma bagagem histórica muito grande
04/01/2021 16:34:29

Por: Rosangela Maria
Cáceres
Acho lindo esse monumento e compõe muito bem com a Catedral. Uma matéria muito interessante para ser passada nas escolas. Parabéns ao site por nos trazer estas informações
04/01/2021 16:31:05

Por: Carlos Roberto Bolzan
Campinas - SP
Excelente matéria!
04/01/2021 16:12:33

Por: Ezequiel Ângelo Fonseca
Cuiabá
Registro importante feito pelo amigo Kishi , parte da história da busca e conquista das nações Espanholas/Portuguesas e hoje solo Brasileiro. Parabéns
04/01/2021 10:17:30

Por: Péricles Gonçalves
RIO GRANDE-RS
Parabéns Kishi pela iniciativa de divulgar tão importantes momentos históricos e personagens que os integraram. Para mim propiciou as recordações, eternizadas em minha memória, do meu grande amigo Natalino Ferreira Mendes e do monumento objeto de sua palestra, inesquecível para quem o conhece e valoriza o seu significado histórico. Excelente resgate que merece reiterados parabéns.
04/01/2021 09:23:47

Por: Suely Canellas
Cuiabá
Parabéns,Kishi!....por nos presentear com essa magnífica aula de história.
04/01/2021 07:39:44

Por: Carmelita Amaral
Cáceres-MT
Kishi, você poderia dar palestras nas escolas sobre esses conteúdos tão ricos para nossos alunos... Poucos devem ter conhecimento dos detalhes dos fatos da nossa cidade. Obrigada por desenvolver esse trabalho nobre e de tanto valor.
04/01/2021 07:28:17

Por: Laerte Castrillon
CASCAVEL PR
Excelente o apanhado histórico sobre o monumento, que muitos olham e poucos sabem o significado. Parabéns!!!!!
04/01/2021 06:59:41

Por: Olga Castrillon
Caceres
Que maravilha, Kishi! Vc traz a memória do "documento-monumento" mais importante da nossa história fronteiriça, totalmente recriada a partir de uma pesquisa existente. Parabéns pelo belo texto!!
04/01/2021 06:15:13

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