14/12/2020 - 09:00

Por: Antonio Costa / Zakinews

Jornalista Luizmar Faquini, o goiano que fincou raízes em Cáceres para ser feliz


Luizmar Faquini, nos primeiros anos quando chegou em Cáceres - Foto: Facebook

Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews


Alguns anos atrás, o jornalista Luizmar Faquini, ainda funcionário da Câmara Municipal de Cáceres, resolveu após muita insistência do também jornalista Antonio Costa, seu colega de redação em tempos do jornal Correio Cacerense, revelar o depoimento inédito que agora Zakinews traz para deleite dos seus fiéis leitores.

O inédito depoimento foi concedido para que fizesse parte das páginas de um livro deste jornalista que escreve às segundas-feiras para este site.  Por motivo de força maior o referido livro não foi para a editora. Mas, os leitores, não vão ficar privados de saber da trajetória de lutas do jornalista Luizmar Faquini que nesta oportunidade é o grande homenageado da semana.

O jornalista Luizmar Faquini, aos 74 anos, ainda na ativa na Rádio Difusora de Cáceres, é um dos profissionais da imprensa cacerense mais respeitados


LUIZMAR FAQUINI

Natural de: Goianira-GO
Nascimento: 04 de dezembro de 1946
Pais: João Natal Faquini e Romilda Vasconcelos
Casado com a cacerense: Anely Paesano Ortiz Faquini
Nove filhos: Gleice, Ronaldo, Adrinaldo (Binho), Queila, Quênia, Júlio César, Liana, Júnior e Marcelo
Time do coração: Palmeiras

 

O homenageado chegou a Cáceres no ano de 1974 – 46 anos atrás - gostou da “terrinha” e por aqui ficou para criar raízes e constituir a sua família, haja vista que foi em Cáceres que ele conheceu a sua companheira que com ele vive até os dias atuais.

Trabalhou nas redações dos jornais da cidade; foi assessor parlamentar da Câmara Municipal; entrou para o serviço público quando o Legislativo tinha na presidência Juracy Marcelino de França. Lá ficou até se aposentar.

Posteriormente, Luizmar Faquini, do jornalismo, foi parar nos microfones levado pelo radialista e amigo Ildefonso Rosa. Trabalhou nas rádios Jornal, na antiga Clube FM, onde conseguiu alcançar índices elevadíssimos de audiência no comando do jornalismo da emissora, quando a mesma era dirigida por Luiz Alberto Zattar, o Rico (in-memorian), e o diretor artístico José Carlos Carvalho, com o programa Canal Aberto. Atualmente Faquini é ícone no programa jornalístico Espaço Livre, da Rádio Difusora de Cáceres com uma reconhecida e fiel audiência.

No momento, se encontra recluso por causo da pandemia e passa as horas em seu aplausível sítio na localidade do Facão.

Em tempos de pandemia, Faquini sabe muito bem aproveitar o isolamento social

Em meio ao contato com a natureza, ele passa o tempo cuidando das árvores, das frutíferas, da horta. Tem uma predileção enorme de mexer com a terra. Sua origem na infância foi no mato na companhia dos saudosos pais.

Adora uma pescaria. Reunir a família para rodas de bate-papo quase sempre na degustação de um cardápio por ele preparado, a exemplo de churrasco e peixada.

Adora exercitar a mente e por em dia o conhecimento na palavra cruzada e na leitura de bons livros. Com a pandemia nos últimos meses, ele tem sentido muito a ausência mais próxima dos membros da família e dos mais chegados da sua extensa legião de amigos.

Goiano de nascimento, ele recebeu o título de Cidadão Cacerense no ano de 2007, outorga do então vereador e atual diretor do Zakinews, Wilson Kishi. Também a cidadania mato-grossense oferecida pela Assembleia Legislativa em 20 de junho de 2012, de autoria do deputado Dr. Antônio Azambuja.

Em 20 de junho de 2012, Luizmar Faquini recebe o Título de Cidadão Matogrossense. Ao seu lado, o autor da propositura, deputado Dr. Antônio Azambuja (PP) - Foto: ALMT


A homenagem surpresa do site Zakinews ao jornalista Faquini, teve a participação do filho caçula do homenageado, Luiz Mar Faquini Júnior, formação em Ciências Econômicas que prontamente convidado a participar, foi bastante solícito no questionário formulado pela reportagem.

Pela sua dedicação, desenvoltura e contribuição com a escrita, com a história e cultura de todo o Estado de Mato Grosso, Luizmar Faquini teve o reconhecimento da Academia Lítero-Cultural Pantaneira que outorgou-lhe o título de Comendador da Ordem Acadêmica Lítero – Cultural Pantaneira. Ele foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de Cáceres (IHGC) e criador do personagem Zé Bacuri, o implacável.

Hobby favorito: Luizmar e Luiz, saboreando um pacu assado

Ajudou a criar o FIPe

Através da história, o homenageado jornalista Luizmar Faquini, haverá de ser sempre lembrado como um dos criadores do Festival Internacional de Pesca de Cáceres, o Fipe.

No distante ano de 1980, em companhia do seu compadre Aderbal Michels, o pai Bertolino e o pequeno Adilson Michels, estiveram conhecendo o festival que a vizinha cidade de Barra do Bugres promovia pela primeira vez.

Imediatamente, a ideia daquele festival foi apresentada ao então prefeito Ivo Scaff que imediatamente abraçou a proposta.

Logo, os idealizadores do FIPe com a ajuda do Pirangueiro que coordenou o festival em Barra do Bugres, promoveram o primeiro festival de Cáceres. Evento maravilhoso que sempre contribuiu para divulgar a cidade ao mundo.

Aos 74 anos de idade, cujo aniversário transcorreu no último dia 04 deste mês, o jornalista Luizmar Faquini, o criador do inimitável “Zé Bacuri: o implacável”, revela detalhes de sua rica história de vida, como conseguiu fugir de Brasília e parar em Cáceres nos dias turbulentos da ditadura, e como e por que surgiu o personagem Zé Bacuri.

Em tempos de repressão...salve-se como puder!
(O seu próprio depoimento... INÉDITO)

 

Membro do Grêmio “Pedro II” do Colégio “Tomas Jefferson”, em Brasília, participo de uma grande passeata estudantil pela Avenida W-3. O protesto é generalizado e se eclode sobre as principais capitais do País – Rio de Janeiro, Recife, Belo Horizonte, S. Paulo e, agora, o Distrito Federal. Momento singular na história nacional em que tudo conspira contra tudo e se encaminha para protestos generalizados nos meios operários, facções ideológicas e absoluta onda de rebeldia estudantil. O Brasil passa por momentos de espetaculares transformações socioeconômicas e culturais e, por fim, mergulha-se inteiro em turbulências políticas que se recrudescem com a renúncia de Jânio Quadros (25 de agosto de 61) e segue até o cerco militar a Jango (então presidente João Goulart, que também renuncia, em 31.03.64). É o golpe dos militares, com apoio dos americanos, se borrando de medo do comunismo na América do Sul.

A data é 29/30 de março de 1964. A fatídica caminhada conta com pelo menos cinco mil inflamados jovens estudantes que marcham e bradam gritos de guerra rumo à Esplanada dos Ministérios, quase todos secundaristas (eu ainda no antigo curso de Admissão ao Ginásio). O que ninguém da nossa “turba” sabia é que o “circo” já estava armado nos quartéis e que o golpe militar seria só questão de mais algumas horas. Abria-se ali à nossa frente uma nova página na história do Brasil. Dura página, mas também de boas lembranças e muito aprendizado.

Tanques de guerra tomam conta de Brasília em 31 de março de 1964
Foto: Acervo do Arquivo Público de Brasília

O encontro

Esse se dá por volta das nove da noite, debaixo das plataformas da grandiosa Estação Rodoviária, já próximo ao local previsto para a grande concentração, que seria os entornos das famosas cubas côncava e convexa de Niemayer (plenários das casas do Congresso), e também da sua obra prima: a Catedral de Brasília. O palco não poderia ser mais interessante... Coração da República.

Naquele ponto a massa estudantil (desarmada) vê-se frente à “turba” armada da violenta Polícia Distrital de Brasília, até hoje famosa pela sua truculência forjada na têmpera do militarismo implacável dos anos de chumbo. Período também conhecido como “Anos Dourados”, pela revolução verificada no campo das artes, da música, da moda, do sentimento nacionalista e do incrível engajamento da sua juventude numa salutar rebeldia inovadora, criadora e libertária, de tal modo tão vigoroso que nem o tanque de guerra nem a baioneta militar, nem a censura, a tortura e as covas coletivas de inocentes conseguiram dominar essa (ou aquela) verdadeira revolução de ideias e de sentimento pátrio. Sobretudo, de coragem!

Mente quem diz que no momento do golpe de 64 não houve sangue, mortes. Eu mesmo vi colegas estudantes pisoteados pelas implacáveis patas da Cavalaria da PDF, muitos tendo cabeças quebradas sob coronhadas de fuzil e violentos golpes de cassetetes de madeira. Isso tem lá a Catedral e seus santos suspensos por eternas testemunhas. Muitos líderes estudantis que naquele dia e local acabaram presos nunca mais foram vistos. Momento de muita tristeza e revolta, mas também de silêncio absoluto. Servia-se ali, naquele fatídico instante, o amargo aperitivo do Golpe Militar que viria logo em seguida, e que duraria décadas.

A fuga

Até hoje perpassa a dúvida se não fui covarde. Deveria eu ter ficado até o fim, enfrentado aqueles “pit-bulls” de farda? Ser preso, arrastado feito lixo pela rua, depois exilado, quem sabe torturado, morto e jogado numa sepultura clandestina qualquer, a exemplo do que se deu com tantos companheiros que bravamente assim o fizeram? Fica a dúvida. Não tenho vocação pra herói, definitivamente.

O fato é que naquela terrível noite tomei a decisão de abandonar a frente de batalha, e fugi. Como um rato sem caráter passei a noite encolhido detrás de um monte de ferragens de um prédio em construção, que julgo ser o hoje imponente Edifício Sara Kubistchek (onde se situa o mais avançado centro de neurologia e traumatologia da América Latina). Enquanto o massacre acontecia na Esplanada eu tremia de frio e medo gatinhando naquele mocó sujo e sórdido. No alvorecer, quando tudo parecia serenado, restando o asfalto enodoado de sangue e fragmentos encefálicos de estudantes massacrados, fugia eu, sorrateiro e calhorda pelos orvalhados campos que ainda entremeavam maior parte da jovem formosa e já famosa Capital da República Planaltina, de arquitetura revolucionária e futuro incerto. Na noite/dia seguinte a cidade seria invadida por tanques de guerra que desfilariam como carros de passeio pelo coração da Capital do Brasil. Ninguém dava um piu, nem mesmo figuras como Tancredo ou Brizola, Sarney ou Ulisses. Ninguém estava autorizado a opinar sobre nada, dizer nada e nem mesmo soluçar alto. E olha que a Nação nem estava, ainda, sob os devastadores efeitos do AI-5. Era apenas o começo de um longo período de dura DITADURA.

Imagino ter escamoteado pelo mato, sempre margeante à rodovia, rumo a Goiânia, pelo menos uns 30 quilômetros, se não mais. Próximo ao lugarejo onde hoje floresce a bela Alexânia, consegui carona na caminhonete de um velho e desavisado verdureiro de Anápolis. Imagina, se a polícia aborda a tal caminhonete e me vê misturado àquelas caixas vazias de legumes. O que teria acontecido comigo e com aquele pobre homem que até então nem sabia de golpe militar nenhum, coitado! Mais alguns dias e mais algumas caronas clandestinas chega eu ao sítio dos meus pais, a 80 quilômetros a leste de Goiânia, onde aturdido e atarantado fico por alguns meses sem botar cara pra fora. Mesmo sabendo não passar de uma ameba no imenso e desarranjado intestino revolucionário, temia ser preso a qualquer hora, como tantos dos meus colegas o foram. Aquelas cenas horríveis não me saíam da mente. Covardia demais diante dos olhos de um inexperiente jovem estudante de 15 anos que só entendia de paz, bossa nova, cabelos longos, calças apertadas tipo boca de sino, camisa xadrez e muito rock´n´roll. Agora é arrastar enxada na roça e ponto. Adeus Brasília! Babau sonho de ser doutor.

Cancelados os estudos restou-me a opção mais absurda: casar. Era preciso fugir de tudo e de todos que esboçasse qualquer ligação com os movimentos estudantis, fosse da UNE, sindicatos, grêmios, centros cívicos e tudo mais que lembrasse aquele pesadelo e, de quebra, ficar o mais distante possível do alcance da Polícia Distrital. Que pesadelo!

Voltar ao DF? Nem pensar. Nem mesmo pra buscar pertences íntimos. Meu radinho de pilha (tão em moda na época) restou abandonado na cabeceira da cama no meu quartinho da Quadra 10 Residencial. Bons tempos... Quanta saudade de ti, Camilla...

Vida nova

   No início dos anos 70, agora professor concursado pelo Estado de Goiás, descontente com o salário miserável da época e também face ao advento da Lei Federal 5692/71 de reforma do ensino (Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional), onde aluno começou a ganhar direito de cuspir impunemente na cara de professor, decidi abandonar o giz e aventurar bem longe, onde ninguém me conhecesse nem soubesse do meu passado de euforia ideológica, que os milicos chamavam de subversão. Enquanto Jane Vanini foge rumo do Chile levando honrosamente sua bandeira socialista, eu, na mesma época, com minha “bandeira” (ou rabo) entre as pernas, ganho o rumo do então “selvagem” e sedutor Mato Grosso, cujo nome por si só inspirava medo. Época em que por aqui a lei não tinha número. Tinha calibre (44). Muito embora isso estivesse mais pra folclore do que pra realidade, mas essa era a imagem.

Primeiro trabalho em Mato Grosso, (de novo) professor (só que agora) em Tangará da Serra. Na época, um pequeno povoado formado de meia dúzia de casebres de tábua, mas inspirando muito progresso, como de fato isso se deu em curto prazo. Pouco tempo depois, em Cuiabá empreguei-me na Assessoria de Imprensa do então Governo José Fragelli, ainda no antigo Palácio Alencastro (hoje prefeitura). Em seguida passei a trabalhar (também) no combativo e perseguido jornal Correio da Imprensa, de heroica memória. Ali tive o privilégio de tornar-me discípulo e trabalhar ao lado de figuras de primeira grandeza da academia literária e do autêntico jornalismo combativo de Mato Grosso, entre eles: o poeta, escritor e jornalista Ronaldo de Castro; o jornalista e fotógrafo Sílvio Gutierres; o exótico cronista esportivo e radialista GV (Geraldo Viana); o radialista e comentarista esportivo Antero Paes de Barros (mais tarde senador da República); o advogado, jornalista e político Gilson de Barros (o Huck do Congresso); o competentíssimo jornalista José Eduardo do Espírito Santo; o velho Jota Maia de Andrade; o jornalista, jurista, poeta e escritor imortal Silva Freire; o professor doutor, poeta, escritor e jornalista Ricardo Guilherme Dick, autor de vários livros, entre ele “Caieira”, com o qual conquistou o prêmio Remington de Literatura. Convivi ainda com os impagáveis jornalistas Jorge Vila; Vanessa Addad, Heloísa Helena e o saudoso Antonio Elpídio Fraga, meu professor de jornalismo político, ao lado de Ronaldo de Castro e Zé Eduardo. Grandes e imortais figuras da resistência ao regime militar, ícones da imprensa de Mato Grosso de todos os tempos que, censurados e perseguidos, presos e humilhados durante a Ditadura, jamais cederam à repressão. Jornal incendiado, ameaças veladas o tempo todo, acontecimentos e acidentes inexplicáveis. Alguns dos quais até hoje inexplicados... Tudo isso e muito mais desabava sobre o combativo Correio da Imprensa, que resistia com impressionante bravura, mesmo nos momentos mais acirrados da censura no regime militar. Lá estava eu, encolhido.

Nova jornada

Deixo a Assessoria de Comunicação do Governo e o meu saudoso jornal Correio da Imprensa (este enfrentando dura crise financeira por conta dos boicotes políticos e das chantagens contra anunciantes). O destino é Cáceres, para nesta então estranha cidade assumir a redação do “Jornal de Cáceres” dos sócios Dércio Cruz, Zé Rondon e Airtinho Montecchi. Um modesto tabloide de sofrível impressão, quase inferior ao mimeógrafo, mas de boa aceitação popular pela qualidade editorial e diversidade de conteúdo, mais ainda, por ser único na cidade vez que o seu antecessor - Jornal Correio Cacerense - fora fechado por motivo do assassinato de seu fundador, José Wilson de Campos.

E foi exatamente nesse inofensivo “jornalzinho”, como era chamado, que tive a oportunidade de experimentar a fúria mais direta da censura do regime de então. Aqui, como de resto o Brasil, quem dava as cartas e jogava de mão era o “clube dos verde-oliva” (os milicos, como se dizia).

Só para exemplificar, no bairro Cavalhada preserva-se até hoje um local denominado “Buraco do soldado”. Conta que ali funcionava uma “Zoninha”, e quando alguém gritava (mesmo que só de sacanagem): “lá vem a patrulha do Befron”, todo mundo se espavoria como ratos na escuridão da noite. E ai do infeliz recruta que fosse pego pela ronda, “tava lascado”. E numa dessas, um soldado saiu correndo a esmo, e sem conhecer bem a redondeza, acabou dentro de um buraco de olaria cheio de água de chuva, onde foi encontrado morto no dia seguinte. Daí o nome “Buraco do Soldado”.

 Até a própria polícia piava fino e se enfiava debaixo da cama quando aparecia uma patrulha do Exército pronta pra botar ordem nas coisas.

Como ainda carregava o fervor dos tempos de estudante, a mágoa pelo massacre da Praça dos Três Poderes, e ainda o nojo à repressão e à insuportável censura imposta pelo regime de exceção, me tornara, na medida do possível, um açodado crítico ao sistema. Escrevia artigos versando sobre tudo, receita de bolo, horóscopo, consulta sentimental e, vez por outra, aqueles que de alguma forma demostrassem mesmo que subjetivamente minha indignação contra o regime.

Volta e meia, lá vinha o camburão do 2º Befron carregado de milicos e de prepotência discricionária. Nalgumas vezes me fiz “caroneiro” daquela inesquecível Veraneio verde, que “gentilmente” conduzia-me até aos altos coturnos do comando. Algumas vezes, apenas esbregues e escalda-rabo sob duras ameaças. Os mais encardidos eram os “baixa-patentes” (os piores). Outras vezes, “cana” mesmo. Um quartinho cheirando a mofo, quase sem iluminação, uma cama de campanha (aramada), um colchãozinho de três centímetros de espessura (estopa embolada), fedorento e rasgado; uma moringa velha, um copo de alumínio embaçado sobre um pequeno criado e um soldado (geralmente franzino e narigudo, como todo soldado franzino) pra lá e pra cá, na porta, o tempo todo com um fuzil imenso sobre o ombro. Eu me sentia um Wladimir Herzog. Esta a hospedagem que algumas vezes desfrutei gratuitamente no interior do nosso histórico 2º Befron. Numa dessas, certo dia, quem me recebeu foi o estressado comandante Léo Tércio Sperb. Não estava bem-humorado e no próximo voo do Bandeirante – avião militar que regularmente aterrissava em Cáceres - mandar-me-ia pra São Paulo (preso, claro), por “subversão”.

Incrível, mas ele tinha meu dossiê e sabia da minha militância estudantil em Brasília. Dava medo! Naquela época esse tipo de castigo era fatal. Já ouviu falar do arrepiante DOICOD? Raramente alguém de lá voltava pra contar o caso. Mas, graças a interveniência do cardiologista cacerense José Rondon, que desfrutava de boa amizade junto ao tal Sperb, escapei por um fio. Fui liberado, mas, sob o juramento de nunca mais escrever uma só frase que pudesse contrariar as Forças Armadas ou ferir susceptibilidades, mesmo que de longe, ao intocável Governo Militar. Censura braba mesmo e o jogo era de fato bruto! Só quem sofreu na pele sabe...

Golpe na censura

Como decretado estava, meu silêncio passava a ser condição sine qua non à minha sobrevivência, não podendo sequer sonhar escrevendo qualquer coisa que pudesse magoar aos soberanos do poder armado da época. O sangue subia-me às guelras, não aguentava mais tão cruel e injusta abstinência ideológica, tinha que inventar um jeito de soltar o verbo. DESABAFAR!

Foi então que me veio à cabeça, talvez inspirado em figuras emblemáticas da resistência, como Ziraldo, Nani, Betinho, Gabeira e outros intelectuais nacionalistas da época, que através do lendário Pasquim (hebdomadário de oposição) tripudiavam e desancavam sobre os hospedeiros da república dos generais, na base da gozação, resolvi dar um golpe na censura.

Depois de ter atendido a muitas intimações e aguentado intimidações de toda sorte, encurralado em verdadeiras sessões inquisitórias de tortura ideológica, isso até nos corredores da PM - instituição herdeira do mesmo DNA da prepotência Revolucionária -, senti que era hora de reagir. “Não dá mais! Até o baixo clero da milicância... até os lambe-coturnos enxovalhando minha honra e pisoteando minha dignidade... Pra mim chega”, pensei.

Tinha então que achar um jeito de reagir sem botar o pescoço na corda. Estava humilhado sim, mas não vencido. Decidi então criar um personagem, através do qual, de forma satírica e simbolismo caipira, de maneira bem simplória, porém irreverentemente crítica pudesse jogar pra fora um pouco da angústia de ter que engolir calado.

Foi daí que surgiu, em Cáceres, nos idos de 70, um certo filhote da censura. Um tipo “ET da Ditadura”. E, desta maneira, nascia no modesto “Jornal de Cáceres” o extravagante e enigmático “Zé Bacuri: o Implacável”, que mais tarde tendo migrado para as páginas do jornal Correio Cacerense, ali figurou solene durante décadas, cuja trajetória até hoje causa risos e admiração pela argúcia, pela criatividade, pelo deboche pretensioso e principalmente, pela incrível autenticidade do seu estilo em forte timbre regionalístico. Tanto que ninguém jamais ousou copiá-lo. Virou “Zé Bacuri: o Inimitável”.

Para relembrar: um dos artigos (de milhares) publicados no jornal Correio Cacerense, do famoso Zé Bacuri, o implacável

 

ALGUNS REGISTROS DO HOMENAGEADO

 
Faquini foi reconhecido Comendador da Ordem Acadêmica Lítero-Cultural Pantaneira - Foto: Acervo pessoal
Em 2019 Faquini é homenageado como o "Amigo do Batalhão" e recebe o seu Diploma das mãos do Coronel Hervé

Faquini com a esposa Anely na Assembleia Legislativa de Mato Grosso em sessão solene de entrega de Títulos de Cidadão Matogrossense
A atual vice-prefeita Eliene Liberato com Faquini no programa Espaço Livre da Rádio Difusora de Cáceres
Faquini entrevistando o deputado estadual Wilson Santos
Em 05/10/2017, Luizmar Faquini entrevista Bolívar Pêgo, Coordenador do IPEA de estudos dos municípios da Faixa de Fronteira, quando do trabalho de viabilidade de incluir Cáceres no grupo de Cidades Gêmeas
Faquini e o então pré-candidato 2020 a prefeito de Cáceres, James Cabral, é mais um registro de seus entrevistados
Foto: Akio Kishi
Luizmar Faquini recém-chegado a Cáceres (em pé ao centro da canoa, braço erguido), logo se enturmou com novos amigos. Aqui curtindo a travessia para o outro lado da baia, justamente onde por longos anos funcionou o Restaurante Mini Praia, do saudoso Valdemar.
Faquini curtindo a vida com sua família
 
 
 


Comentários: ( 21 ) cadastrados.
Por: Celia Regina dos Santos Costa
Niterói - Rio de Janeiro
Meu colega de redação do Correio Cacerense. Divertido, alto - astral e companheiro da meiga Aneli, colega minha também no antigo IESC.
Bom ver esta reportagem e rever pessoas que convivemos e apesar da distância, não esquecemos.
16/12/2020 10:08:35

Por: Vandeir Ferreira
Barra do Garças
Um grande homem de Deus! Parabéns Sr Faquini pela sua história, pela sua trajetória se superação e de sucesso .
15/12/2020 18:38:31

Por: Valeria
Cáceres
Parabens amigo faquini você merece!!!
15/12/2020 11:04:16

Por: Sebastião Ojeda
Cáceres
Kishi, parabéns pela reportagem sobre nosso brilhante jornalista Fachini, personagem de primeiríssima linha na cultura e intelectualidade de Cáceres, respeitado e admirado por todos, inclusive por aqueles que motivaram a sua fuga para fincar raízes nesta querida Princesinha do Paraguai.
15/12/2020 09:24:18

Por: Celso Brigagao junior
Palmas tô.
Meu querido irmão quanto orgulho tenho de vc
Uma história de vida brilhante. Dona ROMILDA está em festa de tanta felicidade pois ela tinha certeza dos filhos que deixou que jamais s decepcionados. Vc é vencedor é assim segue como exemplo pra todos nós te amo meu irmão querido. E que ainda vai nos ensinar muito.
.
14/12/2020 16:59:53

Por: claudio rocha
caceres
grande faquini, foi muito bomconhecer mais a sua historia, muita admiracao por vc e sua familia faquini.!!
14/12/2020 15:43:47

Por: Marlucio
Caceres
Sou fã desse cara, o melhor jornalistas da nossa princesinha
14/12/2020 15:12:20

Por: Carollina
Cáceres
O importante da vida é chegar no final dela sabendo que fizemos a diferença na vida das pessoas e que não medimos esforços para conquistar nossos obejtivos, Faquini deve sempre se orgulhar da sua trajetória destemida,sensacional. Parabéns ao site pela homenagem!!
14/12/2020 14:44:26

Por: Maria Sueli Vieira Mattiello
Cáceres MT
Que História linda....Conhecia em partes. - Hoje entendo porquê tanta Empatia entre nós.....Você foi a Brasilia, junto aos estudantes da época (64), Eu, no Sul do Brasil era candidata a rainha dos ESTUDANTES. -Locais diferentes....Mas ideais em comum, - Amei ler sua história, não perdi uma palavra....A História nunca morre amigo.-
E, se nós ainda estamos ainda por aí ....é para TESTEMUNHAR. - Amei ver a sua POLÍTICA DA BOA VIZINHANÇA com nosso querido BFRON. - Nem tudo são espinhos ....As rosas tb. falam.. Parabéns meu amigo , quero ver seu livro sobre o Implacável Bacuri.
14/12/2020 13:48:33

Por: JOSÉ CARLOS DE CARVALHO
CÁCERES MT
GRANDE FAQUINI UM JORNALISTA COMPLETO FALA FÁCIL E ESCREVE MUITO BEM TRABALHAMOS MUITOS ANOS JUNTOS NA CLUB FM.UM ÓTIMO COMPANHEIRO TEM UMA CABEÇA PRIVILEGIADA SOU FÃ DELE.JUSTÍSSIMA HOMENAGEM
14/12/2020 13:13:32

Por: LÚCIO OLIVEIRA FILHO
Cuiaba - MT
LUIZMAR FACHINI: Zé Bacuri “O Implacável”. O conheci nos idos de 76/77 quando trabalhava no Banco Financial juntamente com sua esposa Anely.
Trata-se de um dos maiores e melhores jornalistas de todo o estado de Mato Grosso. Profisional altamente qualificado e competente, Cáceres deve ser orgulhar de ter adotado tão ilustre personalidade que muito contribuiu e ainda contribui com a nossa cultura.
14/12/2020 12:25:02

Por: Paulo Jr.
Cáceres
Bravo!!!!
14/12/2020 11:43:05

Por: Emilson Pires de Souza
Cáceres Mt
Justíssima homenagem ao amigo Faquini, grande piloto de "Tissot". Homenagem também à Cåceres que o acolheu e, aos amigos Wilson e Toninho, pela excelente publicação
14/12/2020 10:36:26

Por: Marlene
Cuiabá
Muito bom, um ícone do jornalismo de Cáceres e região... Parabéns faquini!
14/12/2020 10:33:21

Por: Maria do Socorro Sousa Araujo
Cáceres
Justa homenagem que o ZakiNews faz ao Faquini! Essa sinopse de vida pessoal e profissional do Faquini também revela a vida política do país que a censura tentou e quase conseguiu ocultar em tempos difíceis no país. Ainda bem que os autoritarismos podem só ocultar (repito, ocultar) ações e decisões, mas não apagam as memórias que temos sobre as vivências individuais e coletivas. E nessa matéria, Faquini traz um desenho do que era a vida politica nessa época. Quando cheguei em Cáceres (1980) ler as notícias e compreender o funcionamento da cidade passava pelo "Zé Bacuri". Obrigada Faquini. Parabéns ao ZakiNews pela matéria com o Faquini, o cidadão do mundo!
14/12/2020 09:52:46

Por: eleuza
caceres
puxa faquini esta bem conservado com 74 anos, abraços querido amigo
14/12/2020 09:32:25

Por: Benedito Fernandes de Souza
Nobres-MT
Ao citar o Correio da Imprensa, Faquini me coloca no rol dessa grande equipe comandada pelo saudoso J. Maia de Andrade. Eu, enquanto gráfico, fiz parte daquela equipe de profissionais em um ambiente onde o dinheiro era escasso, mas cada um enfrentava as dificuldades com coragem e zelo. Conheci Faquini sem ele ter me conhecido quando esteve em Cuiabá para contratar o linotipista Simonal. Anos depois fui ter com ele no jornal Folha do Povo. É uma lenda (de todas as nossas sortes, viva) que povoará o cenário de Cáceres por longos anos e fará parte da história. Já faz, aliás. Parabéns ao futuro secretário municipal Kishi, ao Antonio pelo belo trabalho com esse irretorquível espécime do jornalismo e da literatura nossa de cada dia.
14/12/2020 09:02:42

Por: SOLANGE VELOZO
Cáceres
Justa e merecia homenagem!!!!!!!
14/12/2020 08:57:51

Por: Olga Castrillon
Caceres
Belíssima reportagem. Merece destaque de pesquisa o depoimento do jornalista sobre os "anos de chumbo" da ditadura. Sou fã do Zé Bacuri. Fará parte do livro "Letras cacerenses", no prelo, que faço em memória e co-autoria com o saudoso Prof. Natalino Ferreira Mendes, admirador do homenageado. Faquini deve publicar uma coletanea das crônicas do imortal Bacuri...! De parabéns, mais uma vez, o Zakinews!!!!
14/12/2020 08:46:04

Por: Claudio Farias
Cáceres-MT
Kishi, merecida homenagem,muito bom, Faquini é marca registrada das manhãs de Cáceres, impossível pensar em jornalismo e não lembrar desse cara. Parabéns Antonio e Kishi pela escolha do homenageado, parabéns Faquini pela trajetória bonita de vida.
14/12/2020 08:34:01

Por: Dirceu Luiz da Silva Siqueira
Cáceres
Justa homenagem ao preclaro amigo e comendador Luizmar Fachini. Sua trajetória e sua história é berço de conhecimento e espelho para muitos.
14/12/2020 08:14:48

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