07/09/2020 - 15:31

Por: Elizabeth Madureira

Situação de MT por ocasião da independencia


 


Aproveitando o ensejo das comemorações dos 198 anos da Independência do Brasil, vou discorrer um pouco sobre o contexto de Mato Grosso nos últimos anos do sistema colonial e a transição para a Monarquia.

Durante o período colonial as capitanias mais bem sucedidas foram aquelas que estavam posicionadas próximas ao Litoral que facilitou o comércio e estimulou o aumento da população.

Mato Grosso, contrariamente, era uma capitania interiorana, pois se posicionava no extremo oeste, limite máximo a conquista lusitana. De 1719 a 1822 sobreviveu, basicamente, da extração mineradora, de ouro e diamante, atraindo uma população que não tinha intenção de se fixar, mas enriquecer e regressar para o local de origem.
Assim, tanto o chamado Distrito de Cuiabá e o de Mato Grosso (Vila Bela da Santíssima Trindade) apresentavam, desde os 1800, sinais de franca decadência, demonstrados com a desativação da ligação de Cuiabá com o litoral Leste, via capitania de São Paulo, mas também pela paralisação de seu contato comercial com o litoral Norte, via Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão, que tinha como sede Belém do Pará.

Isolada e não atrativa para os comerciantes que abasteciam as Minas auríferas, Mato Grosso entrou num período de estagnação.
Cuiabá ganhou em relativo fôlego com a nomeação, em 1806, de João Carlos Oeuhausen de Gravenburgo, penúltimo capitão-general que, mesmo tendo governado inicialmente em Vila Bela, preferiu terminar em Cuiabá que, embora não sendo oficialmente capital, ganhou melhoramentos importantes no seu governo:
- Criou, quando em Vila Bela, o Curso de Anatomia, transferido posteriormente para Cuiabá, onde existiam hospitais;
- Fundou, com uma herança deixada por um português Manoel Fernandes Guimarães, a Santa Casa de Misericórdia, naquele tempo voltada, uma parte, para assistência aos lazarentos e a outra para tratamentos genéricos;
- Estimulou o ofício de metalúrgico criando uma Companhia de Mineração, subsidiada com ações, e não deixou em enviar mineiros para se especializar nas Minas de Araçoiaba, próxima à cidade paulista de Sorocaba;
- Fundou a Escola de Aprendizes Marinheiros que, mais tarde, foi administrada por Augusto Leverger,
- Estimulou o abastecimento de água de Cuiabá, pelo córrego do Mutuca;
- Incentivou o plantio do algodão, pela primeira vez cultivado com sucesso em Mato Grosso

Já seu sucessor e último capitão-general, Francisco de Paula Magessi de Carvalho, português de nascimento, assumiu o governo de Mato Grosso em 1819, resistindo ir para Vila Bela e preferindo permanecer em Cuiabá, já transformada em Cidade no ano anterior. Uma das principais ações de seu governo foi abrir o comércio de Mato Grosso às cidades fronteiriças espanholas, o que fez fluir uma expressiva e perigosa movimentação, uma vez que as fronteiras leste só seriam fixadas definitivamente durante o Império.
Foi muito difícil a administração de Magessi, pois a capitania estava economicamente estagnada e suas forças econômicas endividadas. O funcionalismo público, igualmente endividado, chegou a ficar meses sem receber salário, o que gerou explícita rejeição ao seu governo, frente às medidas restritivas que Magessi foi obrigado a adotar.

José de Mesquita cita uma interessante quadrinha crítica:
Ai Jesus que vou morrer, tanto serviço tão pouco comer
Este governante não teve apoio da população e deixou o governo em 1818, tendo sido agraciado ironicamente com o título de Barão de Vila Bela, cidade onde ele finalizou o seu governo.

O retorno da Família Real para Portugal e o prenúncio da Independência estimulou as forças de diversas capitanias brasileiras a anteciparem sua independência. Em Mato Grosso, Francisco Magessi foi deposto aos 20 de agosto de 1821 e em seu lugar instituída uma Junta Governativa cuiabana, composta por elementos das elites políticas, econômicas e com expressiva representação militar e da Igreja católica, a qual começou a governar.

A reação de Vila Bela ocorreu um mês depois, constituído uma outra Junta Governativa. Essa dualidade governamental fez com que muitos boatos circulassem, a exemplo da abolição da escravatura e a liberdade sexual, maturadas pela Junta vilabelense, meros atos de confronto com a Junta cuiabana.

Ao final, D. Pedro I terminou por dissolver a Junta de Vila Bela, reconhecendo oficialmente a Junta Governativa de Cuiabá, visto a força política de seus membros na Corte.
Com a Independência foi instituída a primeira Constituição Brasileira, em 1824, acrescida do Ato Adicional que criou as Assembleias Legislativas, não foi por acaso que a de Mato Grosso, instalada em 1835, em suas primeiras leis transferiu a Capital, de Vila Bela da Santíssima Trindade, para Cuiabá, no mesmo ano.

Nessa medida, os últimos anos da colônia mato-grossense foi muito agitado e já prenunciava o digladiar das diversas forças que serão materializadas nos acontecimentos da Rusga, ocorrida a partir de maio de 1834 com confrontos violentos e muitas mortes.

Elizabeth Madureira é historiadora, membro da AML e presidente do IHGMT

 

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