24/08/2020 - 09:00

Por: Antonio Costa / Zakinews

Centenário do cinema em Cáceres e as ricas histórias da sétima arte - Parte II


Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews

 


Leopoldo Livio D´Ambrósio, pai do Drl Nito, fundador do Cine Phenix

   Antes do enfoque sequencial com respeito aos cinemas que marcaram a história de Cáceres, graças à colaboração do historiador cacerense Luiz Márcio Ambrósio Curvo, autor do livro Crônicas de Ontem, 2013, inserimos ...que o Cine Phenix foi o primeiro cinema mudo de Cáceres, cujo fundador foi Leopoldo Lívio D´Ambrósio, italiano de Cosenza, na Calábria, pai do médico Leopoldo Ambrósio Filho (dr. Nito). Cinema este que encerrou suas atividades no ano de 1931 com o falecimento de seu idealizador.

   O cine Avenida, que se localizava num galpão onde hoje é a Praça Barão do Rio Branco, não oferecia cadeira aos seus frequentadores. O público levava de casa os seus assentos. Em matéria do jornal A Razão na data de 14 de junho de 1928, era noticiado que o referido cinema havia recebido um total de oito filmes novos procedentes do Rio de Janeiro.

   Outra informação importante é a do ano de inauguração do Cine Palácio, em 1950. Continuemos então com as outras histórias que prometemos na edição passada.

Jornal ARGOS, de 11 de agosto de 1912, registrou o retorno das atividades do Cinema AVENIDA, após dois meses de férias
Em preparação para o novo ano de 1945, a festa de Reveilion (Avanço Carnavalesco) aconteceu no Cine Vitória


   Conforme promessa feita na edição anterior neste mesmo quadro, voltamos para encerrar a matéria alusiva ao centenário do cinema em Cáceres. Agora o enfoque fica por conta da história do Cine São Luiz, um sonho que o empresário José da Lapa Pinto de Arruda, proprietário da famosa Casa Ideal, sonhou com familiares e amigos mais próximos, e, com muita determinação, conseguiu torna-lo em realidade na noite de 27 de fevereiro de 1971, data da inauguração.

   Antecipadamente, já abrimos parágrafo para agradecer a disponibilidade dos familiares do saudoso empresário em prontamente atender a reportagem com revelações que possibilitaram que fosse feito esse registro histórico acerca dos cinemas de Cáceres. Zakinews agradece: Paulo César Homem de Melo, Luiz César Pinto de Arruda, sua irmã Nátia e Bruno Homem de Melo. Também as ricas informações repassadas por José Carlos de Carvalho, Luiz Márcio Ambrósio Curvo, Aparecido de Souza Ramos e Pedro Paulo Pinto de Arruda.

CINE SÃO LUIZ, memórias

   José da Lapa Pinto de Arruda, Tio José, como todo empresário, quis diversificar seus empreendimentos, e nos anos 60, sonhou com três possibilidades: um hotel no terreno ao lado da Capitania dos Portos, onde hoje existe um estacionamento de barcos, uma granja, ou um cinema na Praça Barão do Rio Branco.

Álbum de família
Casal: Elina e José da Lapa Pinto de Arruda, proprietários do Cine São Luiz


   Revelações do engenheiro Paulo César, que nessa época estudava engenharia no Rio de Janeiro, passava férias em Cáceres, “éramos muito ligados e conversávamos muito sobre isso, fiz até um anteprojeto de dois dos empreendimentos”

   Posteriormente foi decidido que o empreendimento seria um cinema, em 1968 iniciou-se o projeto, que foi concluído em 1969.

   Ainda segundo Paulo César, em 1969 ele novamente veio a Cáceres, e ficando mais dias, muitas conversas sobre a construção do cinema consumiram horas. Assim se decidiu que a obra começaria no segundo semestre.

   Registrada a construção na Prefeitura e CREA, se iniciam as conversas com o construtor, o saudoso mestre Luis Parisi e sua equipe. Foi dado assim o pontapé inicial dessa história, e, Paulo não mais voltou para a firma onde trabalhava no Rio.

   Na Cáceres dessa época havia muita dificuldade na aquisição de material de acabamento, assim tudo correu com facilidade até finais de 1970, quando a obra foi terminando. Materiais, equipamentos e pessoal específicos de cinema, sempre em SP e BH. Começam as muitas viagens para essas finalidades e as chuvas chegando... para aumentar ainda mais as dificuldades de conclusão da vultosa obra.

   Registre-se aqui a dedicação e eficiência da equipe comandada por Luis Parisi, seu filho Beto, frequência constante do ainda garoto João Parisi, Domingos Carpinteiro, e muitos outros que se tornaram amigos da família do idealizador Zé da Lapa.

Peduti tentou arrendar o São Luiz

Foto: Botucatu
Emílio Peduti, do Grupo Teatral Peduti

   Com a obra preste a ser concluída, surgem as dúvidas, como comprar os filmes se tudo se passa em Botucatu, com o Grupo Peduti, proprietário de cerca de 500 cinemas de SP - sul e oeste - e dono das distribuidoras. Até que um dia, chega a Cáceres em seu avião particular o megaempresário Emilio Peduti, propondo a Zé da Lapa o arrendamento do cinema.

   “Subimos ao segundo andar do cinema, o empresário com sua segurança de mega querendo alugar o prédio. Sentindo forte dor de cabeça pede uma água para tomar um remédio. Tio José, com sua simplicidade, também sempre sofrendo de dor de cabeça, e gostando do assunto, logo se interessou pelo remédio-Paulina Sorbilis IX- e não se falou mais em arrendamento, e o tópico do papo dos dois empresários virou dor de cabeça, remédios que tomavam, etc”, revela Paulo.

   De um simples papo animado e de extrema sensibilidade e acolhimento de um típico cacerense, o Sr. Emilio se propôs a fornecer os filmes em Botucatu, e “tio Jose tomou e receitou Paulina até o fim de seus dias. Nessa época Tio José e Fernando fizeram a primeira viagem para marcar filmes, comprar máquinas e cortinas” etc.

   Começam as aulas de operação com técnico vindo de BH para o Felicio Kawai, o primeiro operador. O João Bosco, o ajudante. E numa eventualidade? Tudo-tudo era pensado.

   Aparece um caminhão com exposição de animais com deficiências, anormalidades, de propriedade de Sebastião Palma, que ficou com a carinhosa alcunha de Museu, e se apresentou como entendido em máquina de cinema. Se tornou um amigo, um stand by, e com o incêndio do seu caminhão/negócio, ficou em Cáceres muitos anos, até mudar para sua Cuiabá, trabalhando na UFMT. Quando o cine já havia encerrado as atividades, através dele a UFMT comprou cadeiras e as máquinas para o museu da Universidade.

A montagem da equipe

   Começa com antecedência a montagem da equipe; parte de escritório com o saudoso Aroldo Fanaia Teixeira, Suely Kawai; e execução, com os operadores e outros cargos, com Fonseca, Edson, Luiz, Augusto, Luizinho e outros. Zé Carlos, parte da divulgação tanto que ficou famoso nos anúncios de autofalante às 19 horas.

   “Meu irmão Fernando, estudando no Rio, atendia Tio José naquela região, mais tarde veio fazer parte da equipe, se tornou muito amigo do Zé Carlos, sendo consequência disso a criação da Zoom. Os anos vão passando e outros vieram, como o próprio Zé Carlos como gerente, Dona Anita, Bonifácio, Orlando e outros. Talvez nem o Zé Carlos se lembre, mas é marcante e para mim inesquecível seu desempenho no autofalante do telhado do cinema anunciando o filme “Basta, eu sou a Lei “. São recordações que se sucedem nas emoções relembradas pelo engenheiro Paulo César.

O primeiro e o último ingresso

   A grande festa inaugural ocorreu em 27 de fevereiro de 1971 com o filme Calhambeque Mágico. Sendo os ingressos número 01 e 02 vendidos para o senhor Joaquim Dias e sua esposa Dona Catu. Registre-se que o último ingresso vendido no Cine São Luiz em 8 de setembro de 1986 e o filme “As Piranhas”, foi para o saudoso Haroldo Leite, conhecido como Haroldo da Luz.


   Durante muitos anos desde 1971 até 1986, como eram muito complicadas as viagens de imensas latas de filmes, em ônibus ida e volta, a saída foi ir de quatro em quatro meses, depois seis em seis meses à Botucatu, para agendamento com a devida antecedência a programação dos filmes que seriam rodados.

   Como havia uma cota de filmes nacionais a ser cumprida, os responsáveis pelo São Luiz iam também à Boca do Lixo em São Paulo e todas essas viagens eram assessoradas pelo saudoso Celso Sacomani, em Botucatu.

   No início dos anos 70, Cáceres tinha sérios problemas de energia, assim não havia colégio noturno, tv, muitos locais de vida noturna, mas tinham os cinemas, de modo que a frequência era impressionante, não cabiam todos que queriam ir. Nessa época, Cáceres ficou quase um ano inteiro sem energia, absolutamente nenhuma, somente alguns comércios tinham motor de luz, e cinema era a melhor diversão. Assim, Cáceres tinha mais cinemas que a capital.

   Segunda feira, as pessoas vinham das cidades próximas, na época glebas pois não haviam bancos lá, e ficavam em Cáceres para assistir um filme. Posteriormente nos anos 80 também ficavam no posto telefônico da galeria do Cine São Luiz para depois assistirem um filme.

Resenha na Porta do Zé da Lapa

   O complexo empresarial e residencial Zé da Lapa, começava muito cedo com a distribuição de cartazes, a Casa Ideal, a Vila Bonifácio, fechava final da tarde e logo iniciava a atividade cinema que ia até tarde da noite. Como funcionava todos os dias, até nos domingos e feriados, quando o trabalho era maior ainda, a família e os amigos formaram a famosa Porta do Zé da Lapa onde acontecia a resenha diária aguardando o término da sessão. Essa Porta sobreviveu ao término do São Luiz e outras gerações a compõe.


   A filha Nátia recorda que muitos amigos habitualmente compareciam todas às noites para animados papos, antes e após a exibição dos filmes. A patota jovem lotava a Praça Barão do Rio Branco desfilando charme e as melhores roupas, era uma confraternização entre grupos locais e a sempre agradável acolhida aos visitantes e aqueles vindos de fora que escolheram a cidade para morar e desenvolver suas atividades.

A atividade me encantou, diz Paulo

   Novamente o engenheiro Paulo César faz preciosas revelações: “participei ativamente desde o sonho de Tio José até ele precisar se afastar em 1979 por problemas de saúde, quando precisei montar uma firma para que o cinema continuasse, o que aconteceu até 08 setembro de 1986.

   Vim para Cáceres, com a bagagem técnica de engenheiro, ainda novo e inexperiente, mas a minha vida morando nesse complexo residencial-comercial do Tio José e o acompanhando, me ensinou muito a parte empresarial.

Divulgação da programação nos principais jornais de Cáceres


   Exerci na vida várias atividades profissionais, mas a que mais me encantou foi a de cinema e as conversas até hoje se perpetuam. Tanto que virei a noite fazendo com muito prazer este resumo, pois uma boa parte da minha vida se mistura com o Cine São Luiz.


Engenheiro Paulo Cesar H. de Melo

   À toda hora, mesmo anos após o fechamento do São Luiz, já morando em Cuiabá, um pai de família com filhos me aborda e já fala quem sou, que eu era a pessoa que ele admirava desde pequeno, quando ia todo domingo no matinê do São Luiz, comprar um Prestigio e assistir filme, e eu o atendia como dono do cinema. Vejam como isso engrandece uma atividade. Você atendia mais de três mil pessoas por semana, você não tem como se lembrar, mas essas pessoas te veem e não se esquecem, pois, você participou um dia da alegria deles.

   Nas minhas viagens pela CODEMAT - Companhia de Desenvolvimento do Estado de Mato Grosso, ia às mais longínquas cidades e localidades e sempre era reconhecido não como engenheiro da CODEMAT, mas sim como dono do Cine São Luiz. Muitas pessoas me identificavam como dono, apesar de nunca ter sido, mas até eu me confundo às vezes, pela imensa ligação que tenho com ele na minha vida, afinal, vim para MT e fui atraído por ele”.

   O entrevistado faz questão de citar “não podemos esquecer de pessoas que participaram dessa aventura, os fiscais de menores, os saudosos Garcia, Demétrio e Américo”.

Telas de sucesso...

   Muitos filmes marcaram pelas frequências absurdas nos dias de hoje, como os de Mazzaropi, os Trapalhões, Kung Fu, Bang Bangs italianos, filmes da Semana Santa, mas um é lembrado de forma especial. Por coincidência passou logo depois da Exposição Agropecuária e “não sei como souberam, mas Milionário e José Rico anunciaram no palco da Expo o filme deles A Estrada da Vida. Foi uma semana de lotação quase completa e pouco tempo depois passamos novamente e não perdeu nada. Outra lembrança: Menino da Porteira.


Luiz César Pinto de Arruda, filho de José da Lapa, ainda guarda um ingresso da inauguração do Cine São Luiz

   Todos os filmes vinham despachados de ônibus, mas os Mazzaropis eram trazidos por um representante que ficava contando as pessoas que entravam, e na quarta-feira ia embora com o filme após recolher 50% dos ingressos da bilheteria.

   Em meados dos anos 70, existiam dois cinemas no mesmo quarteirão da Praça Barão, ambos com quase 1000 lugares, a cidade com poucas opções de lazer, o principal bar da cidade entre os dois cinemas, o Bar do Juca,  e então a Prefeitura às 18 horas colocava cavaletes e impedia o trânsito até as 22 horas. A rua era ocupada para passeio e lazer e vivia lotada de pessoas e isso estimulou a administração pública a transformar aquela via interna da praça em calçadão, tornando-se uma referência em lazer e confraternização.

   Ao finalizar, o entrevistado garante ter ficado muito feliz de passar “mais um dia da minha vida vivendo o CINE SÃO LUIZ”.

O filho Luiz César relembra...

   Também o filho Luiz César Pinto de Arruda, fez questão de contribuir com a reportagem ao relembrar os tempos mágicos do cinema que ele viveu na companhia do idealizador, o seu pai.

   Ao voltar no tempo, recorda do Dito do Copacabana. Tinha uma voz marcante e um gosto musical bastante eclético. Tocava Beatles e outras bandas estrangeiras; sem falar em Roberto Carlos, Tim Maia, Os Incríveis. Se chovesse, lá vinha o famoso locutor com a canção “Chove chuva”, de Jorge Bemjor, era sua marca registrada.


   Sobre a inauguração do badalado Cine São Luiz, ele resume: possuía 850 lugares, moderno sistema de ventilação para a época, poltronas semi estofadas da marca Cimo, projetores modernos. Galeria de frente para a Praça Barão do Rio Branco, jardim interno.

   “Cáceres foi uma cidade que sempre prestigiou seus cinemas e, com o advento do Cine São Luiz, não foi diferente. Sempre com lotação esgotada ou quase”.

   Mas as dificuldades eram também de toda ordem. César relembra que tudo era bastante difícil. A chegada dos latões com os filmes ainda em película celuloide, programação lenta e demorada para se conseguir uma cópia dos filmes mais disputados e havia necessidade de revisão das películas, às vezes estragadas, antes da exibição ao público.

   Os projetores quando tinham problemas contava com a habilidade técnica de Felício Kawai, Anastácio, João Bosco. “A equipe era muito competente incluindo Fernando Homem de Melo, Zé Carlos Carvalho, dona Anita, Sueli Kawai, Fonseca e Sebastião Palma”.

José Carlos Carvalho administrou os cinemas Copacabana e São Luiz

   À época era mesmo da preferência pelos filmes de Mazzaropi produzidos pela própria empresa que ele mantinha, a Vera Cruz. Casa cheia nas exibições durante os finais de semana. Interessante que um funcionário da empresa acompanhava a entrada do público, contando um a um, para ao fim da exibição o montante arrecadado na bilheteria viesse a ser dividido.

   Clássicos como Lawrence da Arábia, a Noviça Rebelde, etc. Marcaram enorme sucesso. Num determinado tempo o Cine São Luiz arrendou o Copacabana que passou a ser gerenciado por Haroldo Fanaia. Os filmes eram exibidos inicialmente no São Luiz, e posteriormente rodados no Copal como era carinhosamente chamado o Copacabana, sempre com sucesso de público.

José Carlos detém como recordação, duas cadeiras do Cine Copacabana

   César recorda que em outubro de 1975 aconteceu a exibição de “O Exorcista”. Cinema lotado, eis que o projetor e as luzes sofreram apagão total sem nenhuma explicação plausível uma vez que as luzes da praça permaneceram acesas. Logo surgiram os comentários...era coisa do sinistro que saiu da tela para amedrontar o público assistente...vai saber!

Memórias de João Deluque (Cine Copacabana)

   João Deluque, fundador do Cine Copacabana, é neto, como minha mãe e José da Lapa Pinto de Arruda, (fundador do Cine São Luiz), de Nympha, casada em primeiras núpcias com Thomas Deluque, e depois com Francisco Pinto de Arruda. Da mesma forma, Alfredo Dulce, fundador do Cine Palácio, também é neto de Nympha, pois filho de Maria Deluque, filha de Nympha. Assim vários cinemas de Cáceres vêm de Nympha Deluque depois Nympha Pinto de Arruda.

Em primeiro plano, João Deluque


   João Deluque, nos seus 20 a 30 anos, ainda jovem em Cáceres, por imposição ou vontade de viver intensamente, foi embora para o Rio de Janeiro, morar com a irmã casada, também Nympha.

   Jovem e amante do esporte e praia, estava na praia do Flamengo, quando cai um avião militar pequeno no meio do mar.  Muito corajoso, e destemido vai ao meio da Baia de Guanabara, salva o piloto militar e depois tem seu nome reconhecido nos jornais. Conclusão desse caso: nos anos 60, quando da Revolução de 64, esse piloto foi Ministro da Aeronáutica.

   João Deluque entra para a Marinha Mercante, assim como o seu cunhado militar, e, numa viagem em que conduziam presos políticos para as Guianas e, numa parada em New York, entra clandestino nos Estados Unidos, e vai trabalhar de operador de britadeira na canalização do Rio São Lourenço, por debaixo de NY. Anos depois, é preso numa briga numa casa noturna e deportado para o Brasil, trazendo suas economias.

   Vem para sua Cáceres, monta uma fazenda nas Peraputangas, se casa com minha Tia Alaide, irmã de minha mãe e de Jose da Lapa. Numa noite de 31 de Dezembro nasce sua filha Alaide Terezinha Deluque Costa Pereira e nessa noite de réveillon entrando o Ano Novo, falece sua esposa e minha tia. A Alaidinha lhe deu dois netos, Thiago e Tadeu, a agora `a pouco uma bisneta. E fazem muitos anos eles têm uma propriedade onde João Deluque também teve.



   Triste e sem rumo, vai embora para o Rio, e passa a viver a todo vapor, vivendo a vida noturna, casinos, casas de jogos e estações de água, eram as companhias. São inúmeras as fotos que vi nos álbuns da família com eles todos, meus pais e tios nas noites cariocas dos anos áureos dos casinos anos 40. Eu tinha 3 a 4 anos e me lembro dele indo visitar meus pais em Niterói, com um Cadillac conversível amarelo, que devia fazer muito sucesso, tanto que convivia com uma atriz muito famosa que me esqueci o nome.

   Como era inconstante ou vivia intensamente, veio novamente para Cáceres, se casou com Tereza Castrillon  Deluque, montou na Praça Barão, um armazém ,um bar, uma bomba de combustível, criava num tanque de sua casa uma cobra duns dois metros, com a qual ia até o cais passear !!!

   Nasceram seus outros dois filhos, Jeizebel e Romano, meu afilhado, e posteriormente no inicio de 1960 criou o Inesquecível CINE COPACABANA, tal a paixão que tinha por esse bairro no Rio de Janeiro. Meu afilhado Romano lhe deu dois netos Romaninho e Thomas.

   Viveu intensamente, foi à Copa do Mundo 66 na Inglaterra, e as Olimpíadas do Mexico 68, onde assistia muito vôlei e atletismo. Comprou um belo terreno na beira do Rio onde pretendia construir sua casa definitiva. Mas ...

   O Cine Copacabana durou muitos anos, e com a perda da filha Jeizebel e da esposa, ficou desgostoso, arrendou o cinema para o Cine São Luiz e passou a se dedicar a outras paixões, o Voleibol, que mantinha uma rede toda tarde na Praça Barão, e a fazer parte toda noite da Porta do Zé da Lapa.

   Gostava ainda dum carteado, uma de suas paixões. Mesmo aí ainda era uma pessoa marcante, conversar com ele era uma novela.

   Tive uma convivência muito grande com ele, éramos muito companheiros e compadres, na Porta do Lapa, Praia do Daveron, Praia de Copacabana, inclusive no Maracanã,  com seu Fluminense.

   A idade chegou, foi ficando cada vez mais triste, doente e só, mas viveu intensamente.

   Para mim foi um Tipo Inesquecível!

Cuiabá, 19 de agosto de 2020
Paulo Cesar Homem de Melo

 

A Empresa Teatral Peduti

   O Cine Peduti também ganha merecidas linhas sobre seu funcionamento como opção de lazer, entretenimento e cultura na vida de um povo. Nos anos dourados do cinema (50-60), o empresário e político Emílio Peduti chegou a concentrar em Botucatu no interior paulista, várias empresas de filmes do país. Tanto é que a referida cidade chegou a ser conhecida como a “Cidade do Cinema”.

Cine Peduti, localizava na Praça Barão do Rio Branco, prédio de Alfredo Calix


   Mais tarde no fim da década de setenta, ele buscando alternativas de sobrevivência para as suas empresas cinematográficas, que passavam a definhar com o advento da chegada da televisão e do vídeo cassete, passou a visar o interior brasileiro. Nessa época foi que inaugurou em Cáceres o Cine Peduti na Praça Duque de Caxias, prédio que a família de Alfredo Miguel Calix construiu para inaugurar o boliche.

   Conforme se pôde observar anteriormente, o influente empresário e político paulista, tentou arrendar o Cine São Luiz antes mesmo do empreendimento ser inaugurado. Ele já buscava a sobrevivência do cinema fora dos centros tradicionais. Tentou arrendar o sonho de Zé da Lapa. Não conseguiu, mas acabaram ficando amigos.

   Posteriormente, Emílio retorna à Cáceres e aqui monta o Cine Peduti na Praça Duque. Por ter uma empresa muito bem estruturada as novidades cinematográficas eram constantes.

Aparecido de Souza Ramos, ficou na direção do Cine Peduti no período de 1978 a 1982

.

   A reportagem foi ouvir em Rondonópolis, o gerente Aparecido de Souza Ramos (Cido), que no período de 01 de setembro de 1978 a 23 de agosto de 1982, respondeu pela direção do cinema. Ele, em meio as recordações saudosas da época em que era amigo dos vizinhos Durval Lima e Alfredo Calix, dono do prédio arrendado, ainda tem vivo na memória no dia em que foi chamado pelo juiz Mário Athye no fórum para que retirasse imediatamente o cartaz do filme “As Borboletas Também Amam”. Caso contrário seria preso.

   Na Wikipedia consta que o referido filme foi produzido em 1974; trata-se de um enredo dramático, a partir do reencontro de duas vizinhas Mônica (Angelina Muniz) e Virgínia (Rossana Ghessa). A prostituição é a grande marca desse encontro que leva a personagem de Mônica a assumir uma vida dupla. O filme é quase uma paródia forçada da história de Nelson Rodrigues.

   A reportagem foi ouvir em Rondonópolis, o gerente Aparecido de Souza Ramos (Cido), que no período de 01 de setembro de 1978 a 23 de agosto de 1982, respondeu pela direção do cinema. Ele, em meio as recordações saudosas da época em que era amigo dos vizinhos Durval Lima e Alfredo Calix, dono do prédio arrendado, ainda tem vivo na memória no dia em que foi chamado pelo juiz Mário Athye no fórum para que retirasse imediatamente o cartaz do filme “As Borboletas Também Amam”. Caso contrário seria preso. No cartaz do filme duas mulheres nuas se abraçando.

   O Peduti funcionou durante uns oito anos. Praticamente encerrou as atividades na mesma época do São Luiz, com isso, a população cacerense ficou durante vários anos sem ter a sua diversão preferida.

No mesmo local onde funcionou o Cine São Luiz, hoje está Cine Xin, totalmente remodelado com estruturas modernas

Cine Xin surgiu do sonho de fazer cinema

Xinxarra e Elainne Pires, sócios do Cine Xin

   Após 18 anos que teve as suas portas fechadas, a estrutura física que abrigou o Cine São Luiz, foi totalmente remodelada para receber o novo cinema de Cáceres, o Cine Xin, do empresário cacerense e fisioterapeuta Alessandro Cintra, conhecido por Xinxarra, que na data de 04 de junho de 2004 devolvia ao cacerense uma de suas paixões preferidas: o cinema.

   Conta ele que o presente a Cáceres se deve por uma sua antiga paixão. “Fiquei muito triste quando o cinema fechou, pois era minha diversão preferida, sempre gostei de filmes, eu achava e ainda acho o cinema simplesmente fantástico, a maneira de ver filme é única. E hoje eu vejo o bem que nós fizemos (eu e a minha sósia Elainne Pires) para Cáceres e a nossa região”.

   De sonho realizado em devolver a cidade a sétima arte, o empresário continuou o trabalho de dotar a estrutura existente de algumas inovações. Nos primeiros cinco anos de funcionamento, o Xin era apenas uma sala de projeção, depois que os empreendedores conseguiram pagar o investimento feito na única sala, resolveram abrir a segunda sala, “pois vimos a oportunidade, já que tínhamos uma clientela bem maior e cada vez mais exigente e ainda a quantidade de filmes era muito para uma sala apenas”, explica Xinxarra.

Na Sala 01 – 210 lugares; e na 02- 100 lugares.

   E as inovações continuaram como revela o proprietário. Segundo ele, até 2012 os projetores ainda eram em 35mm, aí veio a era da digitalização do sistema de projeção, sendo uma saída para o fortalecimento dos cinemas contra a pirataria que era muito forte nessa época. Com a aquisição de dois novos projetores digitais no sistema de 2D e 3D “conseguimos reinventar o cinema novamente”.

Dificuldades superadas

   Alessandro Xinxarra aponta dificuldades enfrentadas nos primeiros cinco anos devido a inexperiência, financiamentos e ao mesmo tempo a briga com a pirataria quase obrigou fechar as portas. Mas a persistência, capacidade do aprendizado somado ao profissionalismo que começou a surgir, conseguiu se superar e manter o sonho de fazer cinema.

   “Tanto deu resultado que começamos a nos expandir com novas salas e filiais. Esse ano vamos inaugurar nosso novo complexo Cine Xin com três novas salas com capacidade de 470 lugares; cinema moderno e confortável no shopping de Lucas do Rio Verde”.

Interior do Cine XIN:Ambiente climatizado, poltronas confortáveis, com porta copos e sinalizadores luminosos


Pandemia obrigou demitir

   Através dos tempos, o cinema enfrentou várias crises, como a segunda guerra mundial, a televisão, o vídeo cassete na década de 70/80; depois em 90 e 2000 pra frente, a TV a cabo, pirataria, internet, celular; de três anos para cá as plataformas de streaming aonde os filmes são por demanda via TV por assinatura ou internet, e agora a pandemia.

   Após um apanhado das dificuldades que a sétima arte já enfrentou, Xinxarra lamenta que já completou exatamente 150 dias com o cinema fechado e infelizmente teve que demitir todos os funcionários.

   A expectativa é que esse mal dos dias atuais e o mais terrível da história mundial, possa o quanto antes terminar. “Hoje 60 por cento dos cinemas no mundo já reabriram e no Brasil a partir de setembro já estarão liberados. Talvez aqui em Cáceres ainda levaremos mais um tempo. Estamos aproveitando para fazer umas melhorias para melhor receber nossos clientes”, finaliza.

Cineasta cacerense Leandro Peska

   Diante de ricas histórias sobre o cinema na cidade de Cáceres, eis que surge um cineasta nascido na Princesinha do Paraguai. Trata-se de Leandro Peska, graduado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá, do Rio de Janeiro e especialista em Direção Cinematográfica pela Academia de Cinema de Nova Iorque (New York Film Academy).

Cineasta cacerense Leandro Peska na solenidade de abertura de exibição de dois documentários realizados em agosto/2019 no Cine Xin


   Exatamente um ano atrás, em 19 de agosto, a sala do Cine Xin ficou totalmente lotada para assistirem a exibição de dois documentários produzidos pelo cineasta cacerense. Um deles, “Vida em Cores”, conta a história de vida do artista plástico Sebastião Mendes e outra retrata uma visão panorâmica sobre a obrigatoriedade de ensino sobre a cultura afro-brasileira nas escolas.

   E em outubro de 2019, em comemoração aos 71 anos da Escola Raquel Ramão, Leandro Peska fez outro documentário contando a vida da professora Raquel Ramão, ainda esbanjando saúde e vitalidade aos 91 anos.

   Leandro é filho de Marta e Álvaro Rocha, proprietário do Laboratório de Análises Clínicas São Lucas. Além de ser o vencedor em 2013 do 2º Festival de Cinema organizado pelo empresário Alessandro Cintra, o Xinxarra, com o documentário “Vida em Cores”, através do júri popular, também tem se destacado em Mostras de cinema dentro de Mato Grosso.

   Ao concluir o amplo material sobre o centenário do cinema em Cáceres, Zakinews agradece aos colaboradores pelas preciosas informações que possibilitaram a confecção do histórico resgate cinematográfico que até então estava perdido no tempo. Com isso, novamente o compromisso de tudo o que ficar “Marcando a história”, principalmente de Cáceres, será registrado neste site, como o principal propósito assumido pela direção do site. Nosso muito obrigado! 

 

 

Comentários: ( 9 ) cadastrados.
Por: Aparecida Natia Pinto de Arruda
Caceres MT
Parabens Kishi e Toninho por esse rico resgate registrado nesta pagina atraves das memorias dos meus familiares sobre os Cines Copacabana e Cine Sao Luiz. Memorias estas que foram tecidas nas longas decadas de 60,70,80. E que marcaram as vidas das nossas familias na cidade de Sao Luiz de Caceres, Princesinha do Paraguai. Sao lembrancas inesqueciveis de um tempo magico onde cinema era um atrativo especial nesta cidade. E movimentava a vida cultural, social e afetiva da populacao cacerense. Muitas lembrancas do espirito empreendedor do meu pai o inesquecivel Ze da Lapa e da minha mãe Elina Rondon Pinto de Arruda que na epoca sem recursos de transporte e comunicação deram um exemplo para nos de que vale a pena lutarmos pelos nossos sonhos. So tenho a agradecer a todos que foram parceiros deles na construcao.desse sonho e ja foram citados nos comentarios anteriores. Muito obrigada por tudo.
17/09/2020 17:23:37

Por: Mariano Leal de Paula
Cuiabá
Profundo resgate histórico tal qual a produção de um excelente filme. Parabéns a toda Equipe!👏👏👏
25/08/2020 19:27:24

Por: Susanne Castrillon
Caceres
Nos finais da decada de 70 e 80 Caceres teve suas manhas e noites cinematograficas. Convivi muito com o Sao Luis e o Peduti. Mas me recordo, ainda menina, da sala de preparaçao de filmes do Copacabana. Minha madrinha Teresa Castrillon Deluque me levava pelas maos para conhecer o funcionamento interno. Ela dizia que nao podia levar o meu pai la, seu irmao, pois ele era terrivel. Por isso , minha avó Matilde Castrillon fez uma fantasia para ele de diabo com uma frase dizendo que ele era um anjo. Desfilou no Humaitá e guardo a foto. Lembranças infantis, mas prazerosas.
24/08/2020 21:53:54

Por: Claudiomiro Savoine
Glória D'Oeste-MT
Um banho de história Toninho, parabéns, a gente morava nas glebas, guri ainda eu ficava emocionado ao passar em frente ao cine São Luís. Ficou na memória um cartaz no qual exibia o filme "Macelino pão e vinho"
24/08/2020 20:57:15

Por: Bruno homem de melo
Cuiaba
Essas 2 reportagens da história dos cinemas cacerenses foram indescritíveis, emocionantes e única.. Parabéns Kishi.. a vida minha e da minha família tem muito do filme Cinema Paradiso por conta desse universo fantástico de cultura e arte q foi proporcionado poe esses guerreiros sonhadores, meus avós José da Lapa, meus pais Paulo e Natia e tios César e Fernando e por muitos amantes do cinema q ajudará a realizar esse sonho, como se Carlos, Edson, Felício e sueli, João Bosco, Luiz, dna. Anita, Pemba, Anastácio, Orlando, Sebastião Museu, Seu Aroldo Fanaia, Fonseca, Bonifácio, e tantos outros q trabalharam e sonharam juntos esse sonho, sem contar os clientes q se tornaram a melhor parte desse sonho louco e lindo.. inesquecível essa época, me marcou o resto da minha vida. Hje esse sonho é continuado pelos amigos Xin e Elaine, de forma magnífica.. que a sociedade saiba dar sempre valor nessa história e prestigiar sempre o cinema de hje, q é sobretudo um patrimônio cultural da nossa terra e do nosso povo.. muita emoção
24/08/2020 18:37:02

Por: Beto Oliveira
Cáceres
Parabéns pela matéria, super interessante relembrar o passado histórico dos cinemas que existiram em Cáceres.👏👏👏👏👏👏
24/08/2020 14:06:19

Por: AUGUSTO MARIO MARTINS PINTO DE ARRUDA
Cáceres, MT
Histórias muito interessantes. Pergunto ao Paulo Cézar, o piloto salvo por João Deluque na Baía da Guanabara e que virou ministro da Aeronáutica, teria sido o lendário "Melo Maluco"?
24/08/2020 12:21:04

Por: NeuzaZattar
Cáceres
Parabens pela matéria q traz informações mto preciosas. Sugestao:: publicar uma revista com essa é outras matérias.
24/08/2020 09:39:35

Por: Emilson Pires de Souza
Cáceres MT
Parabéns pela matéria. Grandioso resgate dessa atividade lúdica-cultural. Cáceres é realmente rica de cultura.
24/08/2020 09:17:47

Faça o comentário para a noticia: Centenário do cinema em Cáceres e as ricas histórias da sétima arte - Parte II

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade do autor.
As mensagens com conteúdo abusivo poderão ser vetados da publicação.