27/04/2020 - 09:00

Por: Antonio Costa / Zakinews

A história do desbravador Antônio Senatore e o Raid Fluvial


 

Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews

 

   A reportagem semanal de memória histórica através das páginas do Zakinews, reporta aos idos de 1926 para trazer aos dias de hoje a coragem, destemor e amor pátrio, do descendente de uma família de italianos radicados em São Paulo, Antônio Senatore, pai do professor aposentado Antonio Miguel Faria Senatore, especialista em Museu. Ele gentilmente nos disponibilizou uma síntese histórica da trajetória do seu saudoso pai quando decidiu comandar a Raid Fluvial, e chegar em Cáceres dois anos após, ou seja, 1928.

   O personagem foco da entrevista nasceu em São Paulo capital, em 13 de junho de 1900. Filho de pais italianos: Miguel Senatore e de Rosália Aielo Senatore. Estudou na Itália durante toda a sua juventude. Tinha cinco irmãos: Iolanda, Adélia, Margarida, Tereza e Luiz.

   Antônio Senatore, com apenas 26 anos de idade, demonstrou todo seu espírito aventureiro e desbravador ao idealizar e executar uma expedição científica, de pesquisa, cultural e voltada ao conhecimento, denominada Raid Fluvial. Compunham essa expedição, o próprio idealizador, seu irmão Luiz e mais dois companheiros.


Apoio do governador Carlos de Campos

   Logo a referida expedição ganhou corpo, principalmente pelo apoio da sociedade paulistana da época, bem como pelo patrocínio maior dado pelo governador de São Paulo Carlos de Campos, que abraçou totalmente a ideia dos jovens desbravadores.

   A embarcação que conduziriam o quarteto para uma inédita aventura por águas desconhecidas, perigosas e traiçoeiras, tinha apenas sete metros de comprimento, e foi batizada com o nome do próprio governador e incentivador número um do audacioso projeto, ou seja: Carlos de Campos.

   O quarteto de jovens aventureiros deixou São Paulo em  1º. de agosto de 1926 e no itinerário traçado após longos dias de estudos e elaboração de planos, constava possíveis baldeações ao longo do trajeto que compreendia. Saindo da capital paulista através do Rio Tietê até atingir o Rio Paraná. Após uma certa distância acontecer a primeira baldeação por terra; na sequência a expedição alcançaria o Rio Uruguai até chegar à capital Montevidéu. Continuando em subida pelo Rio Uruguai para direcionar o destino a Buenos Aires, na sequência atingir Asunción, subir o Rio Paraguai até alcançar o território brasileiro.


Os quatro tripulantes: Luiz Senatore Netto, George Gargiulo, Baldo Lorenzetti e Antonio Senatore


  
No compromisso de bordo a ser cumprido a viagem prosseguiria pelo Rio Cuiabá até chegar a Capital Mato-grossense. De Cuiabá chegariam a São Luiz de Cáceres. Todo o trajeto idealizado e proposto pelos jovens audazes teria uma extensão equivalente a mais de oito mil quilômetros em navegação por águas nacionais e internacionais.

   Segundo o professor Miguel Senatore, interlocutor das narrativas alvissareiras e de resgate histórico, o nome Raid Fluvial – caminhar sobre águas – trata-se de uma palavra provavelmente originária do grego.

   Os objetivos dessa expedição evidenciavam os setores esportivos e científicos. Esportivos em razão de quatro jovens terem a missão de, por onde passarem, procurarem os clubes esportivos, onde se revigoravam suas energias. Ocasiões em que eram recebidos com aplausos, com eloquentes discursos das autoridades visitadas.


Expedição capturava cobras para o Butantã

   Missão científica porque deveriam atender o Instituto Butantã e também o Jardim Botânico. Compromissos esses que não surgiram aleatoriamente. Os jovens desbravadores tiveram durante três meses aulas com o médico Vital Brasil, e também com o general Rondon, no Rio de Janeiro. Nessa época o mato-grossense de Mimoso ainda não era marechal.

   Nas aulas com o dr. Vital Brasil eles aprenderam técnicas e conhecimentos sobre como capturar cobras venenosas. Estas seriam enviadas para abastecer o serpentário do Instituto Butantã para fins de pesquisas. As amostras coletadas dos vegetais teriam como destino o Jardim Botânico. Observa-se que tais coletas haveriam de ser executadas somente em território brasileiro; elas eram enviadas através do serviço dos Correios e Telégrafos.

   Além da exuberante paisagem com toda espécie exuberante da fauna, flora, e do manancial de águas disponíveis, os navegadores em curso também passavam por diversas cidades. No percurso entre os rios Tietê e Paraná, por exemplo, eles avistaram as cidades de Porto Feliz, Barueri, Birigui, Salto, entre outras. Além de passarem por lugarejos, sítios e fazendas. Tudo-tudo devidamente registrado no Livro Ouro e assinado pelas autoridades dessas localidades, o que atesta a veracidade e confiabilidade da expedição.

   Ainda com relação o encontro de estudos que eles tiveram com o general Rondon, o enfoque recebido foi as determinadas etnias indígenas que haveriam de encontrar pelo caminho, e, como os mesmos haveriam de se comportar diante de um inesperado encontro com os silvícolas.

   A expedição que teve a duração de dois anos, nas passagens por territórios não brasileiro, os jovens levavam o abraço amigo do povo brasileiro. Nesses países era colocada a Bandeira do Brasil na popa da embarcação; e a do país ora visitado era fixada na proa.

Antônio Senatore, filho de pais italiano, conheceu Cáceres no ano de 1928


Comandante contraiu malária

Águas vencidas iam ficando para trás. Viagem com inúmeras dificuldades. A tripulação enfrentou medo, perigo, várias baldeações no Rio Tietê, e, numa dessas, o chefe Antônio Senatore contraiu malária. Para complicar os dois companheiros resolveram desistir da aventura. Por sorte, logo apareceram outros dois que estavam dispostos a embarcar na viagem de aventuras.

   Com malária, o mal da época, Senatore viajava alternando ora melhora ora piora. Foi encontrar tratamento na Argentina, ficou uma semana hospitalizado até se sentir bem e dar continuidade a missão proposta.

   Ao chegarem em Montevidéu receberam a desagradável notícia do falecimento do governador Carlos de Campos. Dai em diante ficaram órfãos do patrocinador, haja vista o vice que assumiu era da oposição; mesmo assim a expedição continuou seu destino agora recebendo apoio dos governos do Uruguai, Argentina e Paraguai.


Após 92 anos da chegada da expedição em Cáceres, ainda não há nenhuma placa ou marco à beira da Praia do Daveron (Sicmatur), para relembrar o histórico feito


  
O grupo recebeu informações dos paraguaios que na subida pelo Rio Paraguai possivelmente iria encontrar índios, e, que estes eram traiçoeiros ficavam espreitando nas moitas. Realmente ao adentrar o Chaco Paraguaio os quatro navegadores avistaram integrantes da tribo Guató, mas que, no entanto, o contato à distância se manteve amistoso. O susto maior ocorreu quando Antônio Senatore caiu sobre uma área coberta por areia movediça. Os companheiros estavam dispersos em observação na mata. Na inusitada situação de desespero, gritou alto pedindo socorro. Felizmente foi salvo a tempo.

Destino final interrompido...

   Nos registros obtidos por Miguel Senatore, consta, que na verdade, a expedição deveria terminar em Belém-PA. No entanto não foi possível. A trajetória dos aventureiros terminou após dois anos, em 1928, em São Luiz de Cáceres, às quatro da tarde do dia 06 de junho. A embarcação ancorou então na Praia, hoje em frente a Sicmatur. Lamenta-se que o fato histórico após 92 anos do seu encerramento, ainda não tem nenhum marco que ateste a historicidade do Porto de Cáceres como ponto final da Raid Fluvial iniciada em 1926 em São Paulo.

   Encerrada a Raid Fluvial, passados nove anos depois, o desbravador Senatore participa em 1937 da Expedição Bandeira Anhanguera, que saiu de São Paulo capital, com destino a região Central do Brasil conhecida Zona Inexplorada. Composta por 33 homens a expedição era chefiada por Hermano Ribeiro. Seus integrantes estiveram na Serra do Roncador – divisa com o Pará - onde encontraram os Xavantes irredutíveis.


  
A expedição de caráter de reconhecimento territorial e de intercâmbio cultural, teve uma duração de seis meses em pleno sertão, e seus integrantes passaram fome, solidão e perigo. Tudo por amor à Pátria. Sobre mais essa façanha do pai, o filho Antônio Miguel Faria Senatore, publicou em obra, agosto de 2019, História da Bandeira.

Quem foi Antônio Senatore

   No ano de 1974, Antônio Senatore, o pai, passou a escrever toda a história referente ao Raid Fluvial. Ao terminar de narrar veio a óbito em 26 de abril de 1978. A obra somente veio a ser publicada pelo filho Miguel, em 2018 na condição de coautor.    

Antônio Senatore casou em Cáceres em 1942 com Maria Faria de Oliveira, que passou a chamar-se Maria Faria Senatore. O casal teve os filhos: Wanda, Lídia, Maria, Juliana, Iolanda e Antônio Miguel, conhecido por Miguel.

O homenageado (in-memoriam) foi comerciante; primeiro presidente do Sindicato dos Comércios, hoje CDL; vereador nos anos 50 (eleito para a 3ª Legislatura, de 1955 a 1959 e na legislatura seguinte, ficou na suplência, assumindo por algum período); suplente de Deputado Estadual; presidente de vários partidos políticos. Empreendedor e visionário, Antônio Senatore e outros sete sócios no ano de 1950 inauguraram a primeira emissora de rádio de Cáceres. A emissora teve vida curta, tão somente quatro meses de atividade.

Confeitaria Paulista, famoso ponto de encontro da sociedade cacerense. As reuniões do Rotary Club de Cáceres, funcionou por vários anos nesse restaurante da família Senatore


Oportunizou o trabalho feminino fora do lar

   Outro marcante feito do referido cidadão em foco, foi que o mesmo garantiu o primeiro emprego para o sexo feminino no comércio de Cáceres. Numa época de preconceito a mulher não tinha essa oportunidade de trabalhar fora do lar, mas essa história chegou ao fim graças a abertura dada pelo proprietário da Loja Paulista. Coube a Aidê Faria irmã da bancária aposentada Isaura da Costa e Faria, o privilégio de estrear como balconista num terreno habitado somente pelos homens.

   Nos anos quarenta Antônio e o irmão Luiz inauguraram a Confeitaria Paulista, lugar de encontro da sociedade, e que ficou conhecido como ponto chique da antiga São Luiz de Cáceres. Mais tarde a confeitaria passou a ser comandada somente pelo irmão Luiz, que transformou o local num restaurante, porém mantendo o mesmo nome inicial. Em 1960 Luiz decide mudar-se para Dourados-MS, e então Antonio Senatore assume novamente o empreendimento e mantendo-o em atividade até 1962 quando fechou as portas.

   Esta é a síntese de um jovem que deixou São Paulo em 1926, conheceu Cáceres em 1928...numa marcante viagem por terra e água, mais de oito mil quilômetros. Casou com uma cacerense, adquiriu família, prosperou e partiu definitivamente em 1974. Deixou seu legado de trabalho e empreendedorismo na cidade que escolheu para ficar até os últimos dias.

A equipe Zakinews apresenta os mais sinceros agradecimentos ao representante desta ilustre família de pioneiros, o filho Antônio Miguel Faria Senatore, que prontamente nos atendeu e resolve contar parte desta histórica passagem do saudoso pai no comando de tantas e tantas aventuras de cunho científico, cultural, e de reconhecimento territorial deste distante rincão pátrio. Obrigado, muito obrigado, Miguel Senatore! 


Maria Faria Senatore, foi casada 36 anos com o desbravador

Comentários: ( 8 ) cadastrados.
Por: Marionely Viegas
Caceres
Isso sim é jornalismo: com o claro proposito de resgate historico de nossa regiao Parabens Senhores
28/04/2020 03:20:58

Por: Marionely Viegas
Caceres
Isso sim é jornalismo: com o claro proposito de resgate historico de nossa regiao Parabens Senhores
28/04/2020 03:31:20

Por: Fleury Leite de Souza
Rondonópolis
O século XX foi um período que se notabilizou por inúmeras conquistas. A história da Raid Fluvial contada por Miguel Senatore ao Site Zakinews foi de grande valia a todos Cacerences Matogrossens. Precisamos resgatar essas histórias de bravura de homens como esse que ajudou a construir os nossos valores. Apesar do heroísmo vimos que foi uma Missão Científica, pois tinha um objetivo. É uma honra sabermos que somos oriundos de uma terra que foi habitada de pessoas de grande sabedoria e de aventura para o bem. Parabéns ao Senatore e a Zakinews por trazerem até nós essa brilhante história que só nos enche de orgulho.
29/04/2020 08:26:55

Por: Geraldo Leão da Silva
Cáceres
Nossa! Linda história é muito bom externar a memória dessas pessoas ilustres que fizeram história e que poucas pessoas sabem.
27/04/2020 11:44:16

Por: Renato Senatore Vargas Rodrigues
São João da boa vista
Sou Neto de Antônio Senatore, tinha 6 anos qdo morreu, ouvi várias histórias que minha avó contava, pois foi ela que nos criou , qdo sua filha Wanda veio a falecer em janeiro de 78. Agradeço a todos vocês da Zakinews por ter contado essa história que e tão importante para família e para população cacerense.
27/04/2020 16:51:47

Por: Angela Melvy Senatore
Santa Cruz Bolivia
Sou neta de Antonio Senatore e Maria Faria Senatore, durante toda minha infancia meu vô Antonio Senatore e minha vó nos contava toda essa tragetoria ,foram enumeras aventuras que nos contava nossos avós, tivemos a felicidade de logo apos a morte da minha amada mãe e em seguida meu avó, ser educados e criados pela minha vó , e meu tio Antonio Miguel com tão somente 26 anos junto com sua esposa Fatima nos deu e nos proporcionou tudo de melhor para que sejamos cidadão do bem que hoje somos, obrigado por fazer esta materia e mostrar a verdadeira historia pois com grande desbravadores que se contrui uma historia , historia esta que meu tio Miguel nunca deixou morrer atravez de seu enumeros documentarios, livros, livros digitais informativos que com patrocinio de empresas, pessoas ,escola particular puderam chegar as bibliotecas publicas e privadas e tambem a população Cacerense. Meu muito obrigado pela Materia
27/04/2020 18:53:47

Por: Luciana
Mirassol
Amo historias, e o Zakinews está de parabéns, por escrever tão belas histórias de um povo merecedor de tão lindas homenagens, que esses guerreiros que já foram pra junto de Deus, tenha o nosso respeito e admiração sempre.
28/04/2020 15:25:31

Por: Francisco do Prado S. Junior
Caceres
Parabéns pela reportagem, a história é sempre viva, e narativa como essa, possibilita a toda a sociedade, a oportunidade de fazer parte da mesma, conhecer a nossa historia, é cravar a nossa vida, para a eternidade.
28/04/2020 20:56:54

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