24/02/2020 - 09:00

Por: Antonio Costa / Zakinews

Leopardo Souza Nunes, de Crateús-CE para Cáceres... aos 101 anos a vida pede passagem...


 

Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews


LEOPARDO SOUZA NUNES

Nasceu aos 13-05-1919, em Crateús-CE
Filho de Cândido Clemente Nunes e Onícia de Souza Nunes
Nono irmão de um total de doze. Só ele permanece vivo
Casado há 61 anos com a cacerense Florentina Garcia Nunes, a dona Linda, que veio a falecer no ano de 2012
Da união nasceram os filhos: Lineu, Adenauer, Edson


  
O destaque desta semana fica por conta da vida de lutas, e, que lutas, do cearense-cacerense Leopardo Souza Nunes, que nasceu em Crateús-CE andou por Guajará-Mirim-RO, Porto Velho, Manaus, Vila Bela da Santíssima Trindade, até chegar em Cáceres, constituir família e permanecer já por quase sessenta anos.

   Prestes a completar 101 anos de vida, seu Leopardo recebeu a reportagem no aconchego de sua residência à rua Coronel José Dulce, na companhia do filho Adenauer e da nora. Pelo fardo centenário de existência, a audição já não é mais a mesma de antes...também sente dores nas articulações... porém, o sotaque dá pra se notar que é nordestino; essência não perdida em que pese os sessenta anos que convive com a cacerencia; a fala é mansa...o andar mostra a paciência como se fosse uma sabedoria exercitar todos esses anos de vida...Ao contrário do felino, de onde copiou o nome, que mantém a agilidade e continua voraz

   Sobre o porquê do nome Leopardo, não soube explicar direito... Apenas lembra que o pai o levou para batizar e na igreja tomou conhecimento que havia um religioso que assim chamava; não recorda se era um santo...papa...ou padre. O pai achou bonito e resolveu dar-lhe esse nome.

   Até aos 24 anos ele permaneceu no interior cearense. Trabalhava numa oficina de metais onde fabricava pequenas ferramentas, utensílios para animais, a exemplo de focinheiras, bridão, etc. Estudou somente até a terceira série, explica que “naquele tempo professor era coisa rara...era difícil estudar no agreste...”

   Foi então que decidiu ter mesmo que enveredar no trabalho, adquirir alguma profissão que lhe garantisse o sustento. Deixou pais e irmãos e resolveu tentar encontrar o tio Simião de Souza Lima, que em 1914 tinha saído do Ceará para trabalhar na construção da estrada de ferro Madeira-Mamoré, e, desde então, nunca mais tinha dado notícias. O “sumiço” só causava tristeza e preocupação aos familiares que não sabiam se o mesmo se encontrava vivo ou morto.

Localizou o tio Simião nos seringais da Amazônia

   Decidido mesmo encontrar o tio, ao chegar em Guajará Mirim, começou uma peregrinação ou “caçada” ao parente, acabou por contar com a sorte. No segundo dia que estava na cidade foi informado do paradeiro do Simião, por um comerciante. O tio de Leopardo era seu freguês...

   Na alegria do reencontro, Leopardo, que nem mesmo havia conhecido o tio, haja vista que o mesmo deixou o Ceará antes mesmo do sobrinho nascer, tomou conhecimento que Simião era seringalista e trabalhava nos seringais com pelo menos doze funcionários seus.

   Foi então que conheceu a trabalhosa tarefa de retirar o látex das seringas... Conviver em ambientes insalubres em meio aos ataques de pernilongos, animais ferozes como onça, jacaré e cobra. Ficou nos seringais durante cinco anos ajudando o tio. Recorda que a produção de seringa era enviada para Guajará Mirim e Porto Velho, aonde o Banco da Borracha efetivava o pagamento.

   Recorda que inúmeros eram os seringueiros que acabavam morrendo acometidos por malária e a tal beribéri. Felizmente sua saúde foi preservada durante a temporada em que permaneceu nas matas da selva Amazônia.

   Posteriormente foi morar em Vila Bela da Santíssima Trindade. Recorda que trouxe cerca de seiscentos quilos de borracha a bordo do avião da FAB que fazia voos comerciais para atender toda a região amazônica. Nessa época também o meio de transporte pelo Rio Guaporé era a cargo de lanchas do governo utilizadas pelos Correios e Telégrafos.

   Sobre o tio Simião ter deixado o Ceará para enveredar pelas matas na selvagem Rondônia colhendo látex nos seringais, o sobrinho recorda vagamente que era o período da Segunda Guerra Mundial...

   As pesquisas elencadas apontaram que homens foram enviados à Amazônia especialmente vindos do Nordeste incentivados pelo governo do Presidente Getúlio Vargas com a finalidade de garantir o fornecimento de borracha aos Estados Unidos, pois os países asiáticos cortaram o fornecimento da matéria prima.

   Com mirabolantes promessas – não cumpridas – o governo promoveu um verdadeiro recrutamento de nordestinos. Eles deram a vida para alimentar a indústria bélica americana durante o conflito e garantiram assim o fornecimento de insumos para as armas e pneus por exemplo... muitos nordestinos acabaram morrendo acometidos por doenças... trabalhavam quase que no regime de escravidão... uma triste página da história e dos como eram conhecidos, Soldados da Borracha.

...Retornou doente ao Ceará

   Simião, doente retornou ao Ceará onde foi acolhido pela família. Morreu acometido de beribéri. Numa das passagens que presenciou na vida do tio, o sobrinho lembra que o mesmo quase foi morto após ter brigado com alguns seringueiros pela posse de densas matas de seringa. Estava ele amarrado e tão somente esperando a ordem para ser executado. O sobrinho ofereceu a economia que havia conseguido guardar: aproximadamente 8.500 cruzeiros e quatro bolas de borracha, para que o tio fosse libertado. Conseguiu evitar a execução.

   Passado o período de turbulência na selva, eis que o nosso entrevistado decide retornar ao Ceará. Foi no tempo em que reencontrou o tio Francisco de Souza Nunes (Chiquinho) e voltou as atividades na Oficina de Metais, agora em Ipú.

...Se apaixonou em Ipú.

   Época em que se apaixonou por uma moça filha única, a Zuila. Seus pais tinham posse e com ela Leopardo pretendia se casar, mas primeiro no seu entendimento, teria que “fazer o pé de meia”. Ele sempre teve essa preocupação... Casar era ter responsabilidade dobrada, para tanto, teria necessidade de adquirir posses para poder oferecer a companheira uma melhor condição de vida.

   A família da encantadora pretendente forçou para que a moça esquecesse Leopardo e casasse com outro. Ela então decidiu esquecê-lo pra sempre. Como recordação permaneceu por alguns anos com a foto da pretendente, até que em Cáceres o seu novo amor descobriu a tal foto e tratou de dar o devido sumiço a mesma. Ele recorda sorrindo.

...Chegou em Cáceres em 1952, casou-se aos 33 anos

   Em continuidade as suas andanças, Leopardo Souza Nunes decide mudar-se para Cáceres, que ele ouvia falar muito durante o tempo que esteve em Vila Bela. Corria o ano de 1952, a cidadezinha do interior mato-grossense nessa época tinha tão somente algumas ruas abertas e uma vasta mata cuja demarcações de lotes ou terrenos eram feitos com arame.

   Aqui chegando conheceu aquela que seria sua esposa por 61 anos... Florentina Garcia Nunes (dona Linda). Viu pela primeira vez a moça no bolicho daquele que viria a ser o seu sogro, o comerciante Antonio Garcia proprietário de um grande lote no cruzamento das ruas Coronel Ponce com a General Osório. Ele vendia lascas de lenha de angico e cachuá, seu depósito foi por muito tempo o maior de Cáceres.

   Conheceu... enamorou e casou-se aos 33 anos, ela tinha 19. Dessa maravilhosa união nasceram três filhos homens: Lineu, Adenauer e Edson. A sua Linda o deixou no ano de 2012 após 61 anos de uma maravilhosa convivência. Até hoje sente saudades da amada que foi verdadeiramente o seu grande amor.

Pioneiro na confecção de chaves

   Agora casado o homenageado passou a exercer a profissão de chaveiro. Comprava tachos velho derretia e fazia chaves...consertava com maestria fechaduras...A freguesia era garantida...a cidade crescia...e o negócio prosperava...

   Lembra que foi à São Paulo adquirir chaves prontas... na sua oficina sabia dar a forma definitiva colocando os dentes. Teve uma vez que foi convocado pelo padre responsável pela Igreja do Perpétuo Socorro, na Avenida Sete de Setembro, para abrir a igreja. A chave havia sumido e os fiéis estavam na porta esperando o templo ser aberto para celebração da missa. Retirou a fechadura, abriu a igreja, correu na oficina, fez uma nova chave.

   Uma outra passagem interessante é por ele revelada. Desta vez a venda de uma área de terras na região do Guaporé. Conta que as terras foram adquiridas e pagas parceladamente graças ao incentivo do amigo Benedito Sales, que tinha uma certa influência no Governo estadual. Insistiu com ele para que adquirisse as terras que ele conseguiria quitar o bem. Leopardo acatou a sugestão e se tornou dono de uma grande área.

   Passado um certo tempo apareceu um intermediário e disse que havia em São Paulo um comprador interessado, porém, Leopardo teria que ir até lá para fechar o negócio. Encorajou-se e foi pela primeira vez conhecer a capital paulista.

   Fechou a venda das terras e recebeu em dinheiro vivo no caixa do banco uma importância em torno de 84.500 cruzeiros. Para disfarçar e ir até o hotel com toda aquela quantia em dinheiro, resolveu comprar um cacho de bananas e colocou sobre o dinheiro em cima do ombro.

   Retornou a Cáceres então abonado... guardou muito bem aquela fortuna... adquiriu alguns terrenos... casas... o dinheiro rendeu...até hoje ele ainda se mantém graças aos aluguéis de salão no centro de Cáceres.

   Interessante, que ele ainda consegue datilografar os contratos e preencher os recibos de aluguel utilizando uma velha máquina de escrever Remington que o acompanha por meio século.

Ele mesmo quem preenche os recibos e contratos de locações numa máquina de escrever


Outras curiosidades do centenário Leopardo...

Desde que neste espaço iniciamos entrevistar pessoas das mais diferentes atividades, esta reportagem torna-se a primeira que estamos tendo a oportunidade de conversar com uma pessoa que já atingiu os cem anos de vida. E o que é melhor, encontra-se lúcida e aparentemente muito bem de saúde. Gratidão à vida por nos ter presenteado com tamanha dádiva... Aproveitamos para agradecer a sugestão do leitor Felinto Cavalcanti Dias Filho, bancário, o “Felintinho.

   Finalizando apresentamos outras curiosidades sobre este cidadão cearense-cacerense:

Prato preferido: baião de dois e costelinha de porco.

Diversão: ouvir bolero, valsa, samba.

Do que mais gosta: ler a revista Seleções Readers Digest. É assinante há cinquenta anos.

Hábito: assoviar durante a fabricação de chaves e conserto de fechaduras.

Festa: as comemorações dos cem anos de vida, em 13-05-2019, em Fortaleza-CE.

Susto: quando caiu um monomotor próximo de sua residência, matando o piloto Sebastião Garcia.

Exercícios: hidroginástica, natação, caminhada semanalmente até o supermercado para fazer compras.

Bebida: cerveja moderadamente em festas.

 
 
Passeio de canoa às margens do Rio Paraguai

Momento de lazer em Fortaleza-CE

Francisco Nunes, irmão de Leopardo

Comentários: ( 15 ) cadastrados.
Por: Renancildo Soares de França
Caceres
Parabéns kishi, por estar contando histórias de grandes pessoas que vieram de longe , para juntos conviver e fazer família nesta terra querida, assim como a do conterrâneo cearense Sr.Leopardo, que Deus abençoe .
25/02/2020 14:54:04

Por: Tato Giraldelli
Cáceres
Magnífico .
25/02/2020 15:06:48

Por: Daniel Macedo o Lorde Dannyelvis
Cáceres e Sai Paulo
O Japones jornalista continua marcando gols de placa. Um verdadeiro arquivo de imprensa. Parabéns ao amigo e seu escriba Toninho de Souza.
25/02/2020 15:16:39

Por: Socorro Araújo
Csceres
Parabéns pela matéria. Excelente! Lembro do senhor Leopardo como o chaveiro da cidade. Mas lembro também do dia de sua aposentadoria, pois como então servidora concursada do INSS, ali na Praça Barão, onde hoje é o Casarão, fui eu que o atendi, fiz processo dele e dei o parecer favorável porque ele cumpria todos os requisitos. Se não me engano foi em 1984 ou 1985. E fiquei feliz quando saiu o resultado oficial. Confesso que queria que ele continuasse a fazer chaves e Ele disse que iria continuar. Hoje continuo feliz quando o vejo pelas ruas com seus passinhos miúdos e firmes. Não sei bem porquê, mas lê essa matéria também me trouxe um passado bem afetuoso com Cáceres.
25/02/2020 15:06:18

Por: Nivaldo Teodoro de Mello
Cáceres
Linda história de amor, abnegação e perseverança e destemor. Parabéns!
25/02/2020 15:33:27

Por: Tonico cacara,

Conheço ese veterano já foi ciente dele e muito sempatico muita saúde ,!!!
25/02/2020 18:18:58

Por: Simaria
Caceres
Grande seu Leopardo... Que prazer conhecer mais da sua história. Parabéns pela matéria!
25/02/2020 19:10:30

Por: A. Carlos Viana Costa
Cáceres MT
Como é bom relembrar o que já vivemos, Sr. LEOPARDO pai de meu colega de escola nós Véia, Edson o popular "mocha", Lambton de quando iamos na casa dele no centrão da cidade ele fazendo as chaves e sempre assobiando, mas Leopardo foi, é e será uma pessoa importante para Cáceres, contribuiu e contribui muito para o desenvolvimento da cidade... PARABÉNS mais uma vez Kishe e Toninho Costa, pela bela história.
25/02/2020 22:29:34

Por: Edna Sebastiana da Silva Custodio
Cáceres
Lembrei muito dos meus avós que foram um bom tempo vizinho do Sr Leopardo minhs avó morava aonde é o Banco Santander,lembranças boas,mas dói de saudades .
24/02/2020 11:15:07

Por: Olga Castrillon
Caceres-MT
Que história de vida encantadora! Parabéns Toninho pela memória deste cearense/cacerense, como diz!!!
24/02/2020 14:21:06

Por: Emilson Pires de Souza
Cáceres MT
Seu Leopardo, com seus 100 anos de integridade moral, é um exemplo. Parabéns e parabéns pela reportagem
24/02/2020 14:24:34

Por: Annibal Cuyavano
Cáceres
Parabéns Kishi e Toninho Costa pela matéria. Uma vida, uma história que retrata a saga de muitos brasileiros. Homem honrado e de muito valor. Com todo respeito a vô Teté e vô Zé Otávio, o Sr Leopardo é por adoção, meu avó também. Uma ótima opção para receber a honraria do título de Cidadão Cacerense.
24/02/2020 15:46:11

Por: Maria de lourdes fanaia castrillon
Cuiabá
Excelente reportagem..parabéns
24/02/2020 16:30:57

Por: Antonio julio maciel
Cáceres
Esse grande guerreiro da regiao nordeste trouxe em sua bagagem a hombridade trabalho e integração irmão do saudoso francisco nunes que tive a honra de conhecer sobre tudo senhor leopardo aceite nossos aplausos o senhor é um homem de muita fibra parabéns ao site zaki news por essa reportagem abraços e reverencias de julio, matheus, rosalia, meire, rosimeire e robson maciel Deus Abençoe
24/02/2020 22:03:29

Por: Juliana Cardoso
Cáceres
Amei a matéria, e tenho o prazer em conhecer o senhor Leopardo e já tive o privilégio de ser cliente dele, pois havia perdido as minhas chaves...rsrs.
25/02/2020 12:07:03

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