13/02/2020 - 13:03

Por: Wilson Kishi

Zakinews traz registros dos primeiros jornais impressos de Cáceres




   Morar em uma cidade de 241 anos aguça a nossa curiosidade em buscar informações "do fundo do baú". Partindo do pressuposto que cada cidadão vive, em média, 75 anos, imagina quantas histórias do nosso meio deixamos de conhecer. E muitas delas fazem parte da nossa. Foi com essa curiosidade que tive a ideia de trazer à tona os periódicos que circularam em Cáceres publicadas desde os primeiros jornais.

   Tudo começou quando li o livro “Um trecho do oeste brasileiro”, do cacerense, advogado e desembargador, Gabriel Pinto de Arruda, lançado no ano de 1938, portanto, a 82 anos atrás. Com a mesma riqueza de informação dos livros do saudoso professor, Natalino Ferreira Mendes, o autor Gabriel Pinto de Arruda retrata o município de Cáceres com preciosas lembranças que, naquela época, era uma das 24 cidades que existiam no estado de Mato Grosso.

   Nesta matéria vou ressaltar, especialmente, o capítulo em que ele fala sobre a imprensa, desde o final do século XIX até as primeiras décadas do século XX. No primeiro parágrafo Gabriel escreveu “Sendo a imprensa, incontestavelmente, um dos fatores do progresso social e moral dos povos, teve ela sempre acolhida nesta cidade, e, pode-se dizer – desde muito tempo vem ela difundindo aqui as verdadeiras luzes do incremento intelectual, moral e material”.

   O autor conta que o primeiro jornal que circulou em Cáceres, por dois anos, entre 1878 e 1879, chamava “O Progresso”, o qual teve como ardorosos colaboradores o Dr. Antonio Azeredo, que foi um parlamentar na Câmara dos Deputados e no Senado Federal.

   “O Atalaia”, de acordo com Gabriel, foi o segundo jornal a surgir na cidade de Cáceres, que ainda chamava São Luiz de Cáceres. A edição número 1 foi datada em 13 de março de 1887 e era distribuída aos domingos. O redator principal, como foi impresso no jornal, se refere ao senhor M. Ramos. A redação do jornal funcionou na Rua Augusta, nº 8 (hoje Rua Coronel José Dulce). Nessa edição, de 13 de março de 1887, em uma das páginas internas, conteve anúncio de venda de uma escrava, a Benedicta, de 24 anos, solteira, perfeita lavandeira, engomadeira, cozinheira, excelente doceira, sem vício e defeito algum, pelo preço de lei, que era de 675$000 (seiscentos e setenta e cinco mil reis). Quem tivesse o interesse pela escrava deveria se dirigir a uma casa localizada na Rua Augusta, onde encontraria com quem tratar a respeito (veja foto abaixo). A abolição da escravatura foi no ano seguinte a esse fato, através da Lei Áurea, oficialmente Lei Imperial nº 3.353, de 13 de maio de 1888.

   Ainda no século XIX, em 1892, José Maria Granja foi o fundador e diretor do jornal “A Cidade de Cáceres”.

   Conta o autor do livro que os cidadãos daqui tinham uma afeição para com a imprensa, por isso, sempre surgia um jornal, mesmo que não tivesse vida longa.

   O “Argos”, de publicação semanal, foi fundado por Generoso Augusto Leite. Sua primeira publicação foi no dia 03 de maio de 1911, e a última quando saiu de circulação, no final de 1916. A redação e oficina do "Argos" funcionou na Rua 13 de Junho, n° 52. Ainda no mesmo ano de 1916, outro cidadão chamado Carlos Mello lançou “O Commercio”, mas chegou a durar poucos meses.

   "A Razão" foi um jornal marcante para a história de Cáceres. Foi um órgão do Partido Republicano de Mato Grosso e tinha como propriedade uma Associação Anônima com redatores e diversos colaboradores. Por ser o maior acionista, o primeiro diretor foi o professor, Demétrio Costa Pereira, que fez circular o primeiro exemplar no ano de 1917 e até a sua morte, ocorrida em 1939, sem nunca ter falhado uma semana sequer, pois era semanal. Após a sua morte, a publicação passou a ser dezenal, circulava nos dias 10, 20 e 30 de cada mês. De 1940 até 1956 (aproximadamente), o diretor foi o Leopoldo Ambrósio Filho (Dr. Nito) e por décadas teve como editor-proprietário o senhor Nilo Ferreira Mendes. Suas instalações onde funcionavam a Redação e Oficina eram na Rua Coronel Faria, s/n, anexo à “Casa para Todos”. Na hemeroteca da Biblioteca Nacional, existem mais de 150 exemplares em arquivos digitais do jornal “A Razão”. Em Cáceres, no Arquivo Público Municipal, existem várias edições dos jornais de Cáceres citados nesta matéria e dos periódicos mais recentes.

   No ano seguinte do surgimento do jornal A Razão, em 1918, apareceu outra associação que fundou “O Combate”, com o advogado, Mario Motta, na direção administrativa. Deduz-se que, esse jornal teria surgido para combater seu concorrente, mas não teve forças para continuar. Sua vida nas ruas de Cáceres foi somente por três anos. Posteriormente, nas eleições de 1950, o advogado Mário Motta ficou na suplência de Senador e no decorrer do mandato, assumiu por várias oportunidades e tornou-se senador da República.

   Cita ainda no livro “Um trecho do oeste brasileiro” que outro profissional do direito, o advogado Osman Dy Andrade Guerra, fundou um jornal chamado “A Rua”. Osman era um entusiasmado diretor, mas só conseguiu conduzir o veículo de comunicação por alguns meses.

   Outro com vida também curta, por três semestres apenas, foi “A Fronteira”, fundado por alguns cidadãos, e teve na pessoa de João Evaristo Curvo o seu diretor e como gerente, Astor de Lima Aversa. Foi um órgão de imprensa do Partido Liberal Mato-Grossense que circulou nos anos de 1935 e 1936.

   No final desse capítulo em que Gabriel Pinto de Arruda fala sobre a imprensa em Cáceres, ele registra que apesar das dificuldades e exemplos de tantos outros jornais que surgiram e desapareceram em curto espaço de tempo, “A Razão”, até então com 21 anos de existência e um único diretor, professor Demétrio Costa Pereira, sem nunca ter deixado de sair uma única vez, vinha vencendo todos os obstáculos e dificuldades daquela época.

   Gabriel Pinto de Arruda, formou-se em direito no Rio de Janeiro e chegou a ser Juiz de Direito em Cáceres e Desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso. Uma das maiores instituições públicas de ensino em Cáceres leva seu nome, é a Escola Estadual de 1º e 2º Grau, Desembargador Gabriel Pinto de Arruda, localizada no bairro Jardim Padre Paulo.

   O professor Demétrio Costa Pereira e o advogado Mário Motta, foram homenageados em duas grandes escolas na cidade de Cáceres: Escola Estadual Demétrio Costa Pereira, no bairro Cidade Alta, e a Escola Estadual Senador Mário Motta, no bairro São Luiz.

   Poder acessar as edições do jornal A Razão e algumas publicações dos demais jornais citados no livro de Gabriel Pinto de Arruda, é uma viagem no tempo e reforça a importância que tem um jornal impresso para a história de uma cidade, com informações de qualidade, aprofundada, com credibilidade e sentido para a sociedade.

   Na próxima etapa, Zakinews mostrará os jornais que surgiram em Cáceres na década de 50 do século XX até os dias atuais.

Uma das páginas do jornal O ATALAIA de 13/03/1887
 
 
 
 
 
 

Comentários: ( 9 ) cadastrados.
Por: Celso Antunes
Cáceres
Simplesmente, fantástico!
13/02/2020 14:10:03

Por: Antonio Costa
Cáceres
Valeu Kishi. Resgate histórico sobre os jornais e pessoas que um dia no passado se preocuparam em promover a informação...pleno exercício democrático da cidadania. Um dia...uma informação...hoje saudosas lembranças agora eternizadas neste referido registro. Aplausos.
13/02/2020 17:04:12

Por: Nivaldo
Cáceres
Parabéns pelo magnífico trabalho que resgata a memória viva desta municipalidade, guardiã da fronteira oeste desta soberana pátria de Esmael.
13/02/2020 12:31:42

Por: Não se identificou

Parabéns essa sim é uma matéria interessante história da nossa Cidade
13/02/2020 12:37:50

Por: José Carlos de Carvalho
Cáceres
Excelente materia .inicio da imprensa em Cáceres. Parabéns.
13/02/2020 13:00:01

Por: João Pinheiro Filho.
Cuiabá
A nossa Cáceres está de parabéns por possuir um site com este gabarito. Sucessos Kishi.
13/02/2020 21:03:21

Por: Olga Castrillon
Caceres-MT
Fabulosas reportagens q trazem fragmentos da nossa história. O livro-fonte da reportagem, de tão importante, merece ser reeditado...!!! Parabéns , ĺhj
13/02/2020 22:36:49

Por: Camilo dos Santos Silveira
Rio de Janeiro
Já tem quase 20 anos que sai de Cáceres, lembro de você como o vereador Kishi. Estou surpreso por fazer esses tipos de matérias que valorizam muito uma cidade como a minha querida Cáceres, uma cidade bi-centenária. Quem não tem passado não tem história e Cáceres tem muitas histórias pra contar.
14/02/2020 01:54:11

Por: Jânio Batista de Macedo
Campo Grande MS
Esse artigo é digno de compartilhar devido as sensacionais informações dessa pesquisa. Um histórico importante da comunicação cacerense. Parabéns Wilson Kishi.
15/02/2020 09:02:54

Faça o comentário para a noticia: Zakinews traz registros dos primeiros jornais impressos de Cáceres

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de total responsabilidade do autor.
As mensagens com conteúdo abusivo poderão ser vetados da publicação.