10/02/2020 - 09:00

Por: Antonio Costa / Zakinews

Raquel Ramão da Silva, prestes a completar 91 anos, esbanja alegria, otimismo e fé!


 

Antonio Costa, EXCLUSIVO ao Zakinews

RAQUEL RAMÃO DA SILVA
Nasceu em Cáceres-MT aos 29-03-1929.
Completa 91 anos no próximo mês.
Filha única de Ângelo Ramão e de Otília Correa Ramão.
Viúva do 1º. Ten do EB José Gomes da Silva.
O casal teve um único filho: Hélio Carlos Gomes da Silva

 


 

  
  O escritor Kafla, Franz dizia “quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece”...Este seu pensamento pode perfeitamente retratar o estado atual da professora aposentada Raquel Ramão da Silva, que está prestes de completar seus 91 anos de vida, e, que vida muito bem vivida...Ela nesta semana passa enriquecer o Zakinews com um depoimento fantástico sobre como se deve conduzir os anos de existência, sem que os mesmos não tornem o cotidiano pesado e desestimulador para o ser.

   Dona Raquel como é carinhosamente chamada e respeitada por uma legião de ex-alunos e amigos, nasceu na Rua Quintino Bocaiúva. Mudou-se posteriormente com seus pais para uma residência na Rua Marechal Deodoro. Dalí foi morar com a avó Paula Corrêa de Oliveira, aos oito anos, em Corumbá-MS.

   Ela conta que mesmo sendo filha única e nutrindo um grande amor pelos pais e deles recebendo também incondicional amor e carinho, teve que deixa-los quando criança, e conta o porquê dessa dura decisão...

   Seu pai trabalhava para o próspero comerciante Ângelo Castrillon, nas matas deste lado do Pantanal, tirando madeiras e caçando, principalmente capivara, de onde era retirada a pele. As madeiras eram em troncos, de onde seguiam amarradas uma a outras formando várias jangadas que desciam rio abaixo até a cidade de Corumbá-MS. Atividade que o pai, Ângelo Ramão, descendente de boliviano, começou no distante ano de 1934...a nossa homenageada era criança nos seus cinco anos.

   Com o vai e vem dos pais, haja vista que a mãe Otília sempre estava ao lado do marido, nas andanças entre a mata e a cidade, os estudos da pequena Raquel Ramão acabava sendo prejudicado. Foi aí que a vó interveio e decidiu leva-la para Corumbá.

   Dessa época dona Raquel ainda guarda enorme saudade. Recorda que a avó era muito carinhosa e acolhedora, haja vista que outras crianças eram por ela amparadas e assistidas. Crianças carentes entre netos, sobrinhos, e outros cujos pais tinham dificuldades em mantê-los. Eram uma turma de aproximadamente quinze.

   Em Corumbá, ela estudava na Escola Estadual Maria Leite. Para um instante....parece que volta no tempo para recordar as lembranças que estão muito bem guardadas na sua mente... aliás, a nossa homenageada é portadora de uma memória simplesmente fantástica, recorda dos fatos com uma precisão incrível de detalhes. Isso, vejam bem, prestes a completar 91 anos.

   Permaneceu morando com a avó até próximo de completar dezessete anos. Retornou para Cáceres preocupada com a saúde do seu pai Ângelo Ramão que havia sido picado por uma cascavel quando retirava madeira nas matas. Felizmente graças as benzeções e as medicações da época, ele conseguiu se salvar... mas nem todos picados por cobras nesse tempo tiveram a mesma sorte.

   A jovem Raquel Ramão então aos dezessete anos começa a trabalhar, lecionando particular uma turma de seis alunos. Nesse tempo o Grupo Escolar Esperidião Marques já funcionava (o prédio data sua construção o ano de 1916), e havia sido criado o curso ginasial. Incentivada por pessoas próximas e vizinhos, ela foi tentar a sorte em conseguir trabalho, decidiu que tentaria emprego no ginásio recém implantado... para ela era mais desafiador. Ela sempre topou desafios.... garante.

Padre Paulo celebrou o casamento entre Raquel Ramão com o 1º Tenente do Exército, José Gomes da Silva

 

   Tomada de coragem e uma premente necessidade para conseguir um emprego, foi procurar o então diretor do ginásio, professor Arnaldo Estevão de Figueiredo Sobrinho, que informou que ela deveria se dirigir ao prefeito dr. José Rodrigues Fontes. Este a recebeu após o almoço, bastante solícito, ouviu a jovenzinha e tomou conhecimento que a mesma era neta de Paula Corrêa de Oliveira, por sinal, sua amiga.

   Determinou que a mesma aguardasse os próximos dias que haveria de sair uma decisão... Ela então retornou pra casa e passou ansiosamente esperar pelo momento e receber a tão aguardada notícia.

   Inicialmente ficou sabendo que o cargo pretendido já havia sido reservado para uma determinada pessoa cujo pai era secretário municipal da administração. Mas aí, prevaleceu a determinação do prefeito José Rodrigues Fontes que já havia decidido que ela, Raquel Ramão seria contratada. E assim foi feito.

   Mas, como a mesma era menor de idade, as indagações se sucederam.

   Decidiu-se que uma comunicação seria feita ao juiz da Comarca, Gabriel Pinto de Arruda. Este de posse de uma caneta (de pena), daquela que se molhava na tinta para poder escrever, redigiu algumas linhas e encaminhou o documento ao governador. Pronto, era tudo que a Raquel Ramão precisava para, finalmente, começar a trabalhar...

   Então com dezessete anos ela estreou na educação, inicialmente na secretaria do ginásio. Logo estava cobrindo a falta, a licença ou férias de uma professora. Sempre responsável e determinada, dizia que não tinha tempo para namorar ao ser indagada como era ter um amor naquele tempo.

   Focada nos estudos continuou se dedicando, fazendo cursos e treinamentos. A alegria maior veio com o primeiro salário. Recorda que de posse do dinheiro foi com uma lista fazer compras no armazém do Jorge Gattass, e abasteceu as prateleiras da casa com gêneros alimentícios.

   O segundo salário dedicou para comprar sapatos e roupas para o pai. Posteriormente ao receber o terceiro mês de salário foi a vez da mãe ser presenteada com sapatos e roupas, e, ainda, também ajudou pagar o aluguel da casa onde morava com os pais.

   Dona Raquel reconhece o incondicional apoio que recebeu das pessoas que a ajudaram no início de sua carreira, a exemplo, do dr. Fontes. Também cita a então delegada de Ensino, Vanilda, etc. Sobre os alunos daquele tempo afirma que eram educados, respeitadores, e que mantinham muita consideração com os professores. “Hoje a coisa está totalmente mudada”. Ela aposentou-se, mas não parou. Ainda permaneceu na direção do Ensino Supletivo, antes ainda trabalhou na prefeitura e no estado.

Escola tem o seu nome como homenagem

   Dona Raquel teve metade de sua vida dedicada à Educação. Na Escola Municipal de 1º. Grau Rodeio fez história. Lembra que era uma casinha pequena e bem acanhada onde recebia os alunos daquela parte de Cáceres que iam estudar.

   Os prefeitos Antonio Fontes, posteriormente Walter Fidélis, deputado Ninomiya Miguel sempre disponibilizaram ajuda e apoio para que ela, dona Raquel, pudesse desenvolver com determinação, competência e apoio as atribuições de diretora na referida escola. O mesmo aconteceu nas gestões do então secretário de Educação, Gabriel Alves de Moura Neto. “Ele dava carta branca, o que eu fazia, tava feito, ele endossava”.

   A diretora recebeu no ano de 1991, do saudoso vereador Makoto Hayashida (PFL), a indicação da Lei que tornou a então Escola do Rodeio, em Escola Municipal Raquel Ramão da Silva, justa homenagem que perpetuará através da história, como forma de reconhecimento à dedicação à causa educacional de Cáceres, da atuante e dedicada professora.


   Ela faz questão de lembrar do ex-prefeito Antonio Fontes também como médico. “Ele vinha me consultar na minha casa, aliás, fazia isso com a maioria das pessoas que estavam doentes. Dirigia seu fusquinha branco...muito atencioso e prestativo exercendo a medicina”, revela com gratidão.

   No aconchego do seu lar, na Avenida Humberto da Costa Garcia (antiga Radial 1, Rodeio), que ainda não tem placa indicativa com nome, o que incomoda e chateia bastante a dona Raquel, ela vive amparada pelos netos Geancarlo Gomes da Silva (que dedica todo tempo aos cuidados essenciais de que necessita), e o outro neto que também mora com ela, Henivaldo Karlos Gomes. Geancarlo segundo ela “vale ouro”.

   Dona Raquel sente muita saudade de acordar as cinco horas da manhã como fez durante os longos anos de trabalho. Imagine, ela sente saudade da obrigação, do dever, de trabalhar...

   Devota de São Benedito considera ser uma pessoa bastante feliz. Tudo que almeja diz conseguir. Mantém a fé, a esperança, e, desde que o seu único amor partiu deste mundo, aos 54 anos de idade, ela não teve mais ninguém ao seu lado. Ele foi o seu único e verdadeiro amor. Ela com ele se casou quando tinha 28 anos.

Documentário...

   O ano passado, quando completou 90 anos, a direção da escola que leva seu nome, a convidou para desfilar em carro alegórico nas festividades cívicas do Dia Sete de Setembro. Ela amou receber tamanha honraria, que segundo ela, é uma forma que tiveram para reconhecer tudo que disponibilizou em prol dos jovens estudantes de sua cidade natal.



Raquel Ramão, no ano em que ela comemorou 90 anos de idade, a Escola que leva o seu nome prestou homenagem, desfilando, no dia 07/09/2019, em carro alegórico na Avenida Sete de Setembro

   Homenagem também ela recebeu do cineasta Leandro Peska, que através de um documentário idealizado pelas professoras Dionília Tavares, Rosângela Rocha, participação de alunos nas entrevistas e com a direção do cineasta, construíram um documentário memória alusivo aos 71 anos da Escola comemorado no dia 19 de outubro de 2019, cuja figura principal do documentário como não seria de outra forma, foi a professora Raquel Ramão.

Em dia de festa na Escola, o cineasta Leandro Peska exibe seu documentário sobre Raquel Ramão da Silva
Durante as festividades de 71 anos da Escola Raquel Ramão da Silva, foi apresentado o documentário onde a estrela maior foi a própria professora Raquel Ramão.

Saudade do Etrúria...das retretas...

   Sobre a Cáceres de outrora, a nossa homenageada recorda das viagens que fez até Corumbá-MS nos camarotes do vapor Etrúria... Lembra saudosa da imensidão das águas, das lindas e inesquecíveis paisagens, das revoadas dos pássaros ao amanhecer, da fartura de peixes nas refeições, da parada obrigatória na Fazenda Barranco Vermelho onde a tripulação poderia descer e fazer compras no grande armazém...

   Além do lendário e histórico Etrúria, Dona Raquel recorda que atendia com viagens pelo rio Paraguai, o outro barco de passageiros, a lancha Panamericana, de tamanho menor...

   São lembranças que permanecem indelevelmente gravadas em sua memória e que carregam imensa saudade. Saudade a exemplo das animadas retretas que aconteciam no coreto da Praça Barão do Rio Branco, sob a regência do maestro da Banda do 2º. Batalhão de Fronteira. Aos domingos era sagrado curtir a retreta...

   Outra diversão da época... cinema no cine Copacabana, do empresário João Deluqui...  os animados bailes nos extintos Clube Mato Grosso, EC Humaitá...

   Ao finalizar este resumo de vida da cidadã que dedicou mais da metade de sua vida ao setor educacional de Cáceres, ainda revelamos alguns cuidados que ela preserva até hoje na sua maneira de viver: “sempre tive medo de língua...Procuro andar direito...fazer boas amizades...”

- Continua - Sinto mal de cabelos brancos; sempre que posso vou ao salão de beleza dar um trato.

   Vaidade, zelo, carinho e atenção com a vida... Raquel Ramão da Silva, prestes a festejar seus 91 anos, absorve por completo o pensamento milenar de Sêneca: “Quando a velhice chegar aceita-a, ama-a. Ela é abundante em prazeres se souberes amá-la. Os anos que vão gradualmente declinando estão entre os mais doces da vida de um homem\mulher. Mesmo quando tenhas alcançado o limite extremo dos anos, estes ainda reservam prazeres”.

 

Comentários: ( 10 ) cadastrados.
Por: Alirio Artur Guimarães
Cuiabá
Bonita história de vida da Professora Raquel Ramão da Silva, pela sua dedicação não só a educação, mais a vida dos cacerenses, digna da referida homenagem. Parabéns ao Zakinews na pessoa de seus diretores e jornalistas, pela brilhante iniciativa de homenagear todos aqueles que contribuíram e contribuem para o desenvolvimento de Cáceres.
19/02/2020 08:55:19

Por: Jandira
Cáceres
Respeito e admiração pela história da Raquel Ramão. Muito obrigada pelo registro Kishi
10/02/2020 12:18:24

Por: Vanilda
Cáceres
Bravo, bravíssimo. Raquel é um exemplo de pessoa. Dedicou a sua vida à educação. Como secretária era uma expert em documentação e organização da vida escolar. O melhor de tudo era o seu sorriso mesmo diante das adversidades. Foi minha inspiradora no início da carreira. Ainda tem muito a contribuir, Raquel, muita saúde e luz no seu caminho. Eu serei sua eterna admiradora.
10/02/2020 12:21:42

Por: Helio Carlos Gomes da Silva
Cáceres
Pois sou filho unico desta baluarte da Educadora , e tenho orgulho de seu descedente,filho de José Gomes da Silva e Raquel Ramão da Silva, onde lhe desejo-lhe muitos anos de vida, onde um grande momento me fez a lhe afastar-lhe , feitos de contratempos familiar entre ex-esposa e filho onde a mesma quis ficar. nada mas tenho a decorar onde se engaja o desejo da mesma que é a bola de Ouro pra mim quanto para eles mas acredito que um dia vira morar comigo que sou seu único filho.
11/02/2020 03:01:07

Por: Miguel Marques de Souza
Cuiabá MT
Bonita e emoconante a história e vida da professora Raquel Ramão da Silva, dedicação ao ensino, que realmente merece homenagem e sempre ser lembrado... Querendo simplificar meu comentário, quero aqui dar os meus sinceros parabéns a essa grande batalhadora, que é exemplo para todos nós... parabenizo também minha querida sobrinha, professora Dionila Tavares... pela iniciativa...
10/02/2020 10:56:28

Por: Anonimo

Parabéns Antonio Costa pelas homenagens aos baluartes cacerenses
10/02/2020 10:55:16

Por: Dionila Gomes Tavares
Cáceres - MT
Agradeço imensamente a equipe do Zaki News pela matéria, fico imensamente feliz em saber que o nosso trabalho tenha produzido tantas frutos, que surgiu do diálogo, das reflexões que fazemos diariamente no chão da escola, o currículo é importante, a lista de conteúdos também é importante , mas o que fazemos com ele na sala de aula, na interação com os alunos é o que vai ficar, a partir do gênero textual "entrevista" fomos para a prática. Foram tantas emoções, tantas outras possibilidades de aprendizagens. A D. Raquel Ramão nossos agradecimentos pela oportunidade, mesmo fora da sala de aula continua nos dando lições, continua ensinando para alem da sala de aula. Ela é doce, amável, elegante, enfim, desejo a ela muita saude para viver ainda muitos anos com esse encantamento..."Ainda que eu falasse a língua dos homens..."
10/02/2020 10:39:43

Por: Maria Amélia
Mirassol D'Oeste
Privilégio de poucos ter uma vida tão rica em experiências como a Raquel, que deixará seu legado para tantas gerações...
11/02/2020 08:23:20

Por: Paulo Fanaia
Cuiabá
Parabéns Zakinews por homenagear essa ilustre cacerense. Obrigado dona Raquel !
11/02/2020 08:47:47

Por: Fatima Rocha Gomws da Silva
Caceres Mt
Raquel Ramão da Silva e uma Mãe que tenho e considero, meu 17 anos vim ficar ao lado ate o momento estou com ela. Agradeço a Deus por tudo q fez e faz nossa Familia.Obrigada pela homenagem o Jornal Zakinews.
10/02/2020 11:50:37

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