27/05/2019 - 17:22

Por: José Ricardo menacho

Política não é um reality show: ou, pelo menos, não deveria ser


        Política não é um Reality Show [um espetáculo armado ou coisa parecida], ou, pelo menos, não deveria ser. De show [com seus dramas, desafios, alegrias e tristezas] já nos basta a nossa própria reality [realidade], não precisamos, portanto, de mais um para nos ocuparmos.

Mais uma vez, compartilho o óbvio: Política é coisa séria! E ó, mesmo que essa expressão talvez já tenha se tornado, para muitos, mais um daqueles clichês do cotidiano, seguirei repetindo [com insistência]: política é coisa séria! E assim me manifesto, primeiro, porque acredito que, ao desprezá-la, estamos anulando a nós mesmos, enquanto coletividade [que somos], estamos desacreditando as nossas potencialidades, iniciativas e criatividades, e estamos silenciando as nossas vozes; e, segundo, porque acredito que, ao desprezá-la [a política], estamos abandonando a possibilidade de sustentarmos e promovermos – para além do individualismo que insiste em nos separar e para além das medidas “milagreiras”, falaciosas por natureza, que insistem em nos contar –  transformações estruturais profundas.

Nesse sentido, se a política não é um reality show, e se a política é coisa séria, como então admitir [sem demonstrar indignação alguma] e, por vezes, até mesmo aplaudir [com sorriso nos lábios] – atitudes, declarações, comportamentos e manifestações públicas que buscam limitá-la, reduzi-la ou simplificá-la? Os pontos não batem.

E continuo: se a política não é um reality show, e se a política é coisa séria, como então aceitar [sem o mínimo de reflexão crítica a respeito] e, por vezes, até mesmo comemorar [com brilho nos olhos] a adoção de propostas desastrosas, com consequências e prejuízos perversos, fundamentadas – somente e tão somente – em achismos? Novamente, a mesma constatação: os pontos não batem.

E os pontos não batem, explico, não apenas em razão da falta de lógica e de coerência na construção dos argumentos de muitos dos posicionamentos políticos disponíveis [à la carte] por aí – convenhamos, aprovar e ainda se alegrar de ações [seja em qual área for: na educação, na saúde, na segurança pública...] cujas consequências serão catastróficas e os efeitos negativos, de alguma forma, impactarão a vida de muitos, não é algo muito lógico e coerente a se fazer –, mas também [os pontos não batem] em razão de que a política, como espaço do possível, como espaço de exercício de nossas cidadanias, não prospera a partir do absurdo e da estupidez, tampouco a partir de um capricho infantil, reproduzido por inconsequentes, ou a partir de um revanchismo ignorante, professado por fanáticos.

A política não se reduz [e não deve ser reduzida] à dinâmica de um programa televisivo ou à dinâmica de uma competição qualquer. Quando é ela que está na pauta de nossas reflexões e discussões, não tenhamos dúvidas, de que é do Brasil que estamos falando, sim do Brasil, do nosso país. E quanto mais maduros, fundamentados, democráticos e plurais forem os nossos papos, mais estaremos contribuindo para o seu avanço. Assim, não é da “prova do líder” ou da “prova do anjo”, da festa “X" ou “Y” ou da devoção a um participante ou a um outro que estamos falando. É do Brasil! E para falarmos [do] e [sobre] o Brasil – seus desafios, problemas, progressos e recuos – não há melhor lugar que não este: o da política.

Nessa toada, aproveito a oportunidade para reforçar que, dada à sua importância crucial em nossas existências e destinos, não devemos colocar a política no mesmo nível [rasteiro, contraproducente e superficial] das teorias da conspiração [muito em voga], das boatarias descabidas de grupo de WhatsApp, dos vídeos de análises de conjuntura social e econômica, sem qualquer base científica, postados no YouTube, ou ainda pior, no mesmo nível do discurso de ódio gratuito, despejado com frequência nos “hoje áridos campos das redes sociais”, fruto, pelo que parece, de algum ressentimento mal cuidado ou de alguma frustração pessoal ainda não superada daquele que o propaga.

A política é o caminho. E se desejamos aprimorá-la, precisamos então de mais política, e não de menos. Precisamos de mais política, e não de confusão, desinformação, desconhecimento e mentiras. Precisamos de mais política, e não de autoritarismos, desconfianças, violências simbólicas e institucionais.

Precisamos de mais política para debatermos com responsabilidade e criticidade temas tão caros à concretização de nossas dignidades: como a necessidade de defendermos a educação pública – historicamente atacada, e ultimamente de forma mais agressiva; como a necessidade de defendermos a saúde pública – universal e gratuita; e como a necessidade de combatermos a desigualdade social – estruturante de muitas de nossas aflições. Por fim, precisamos de mais política para construirmos outras formas de ver, conviver e estar no mundo.

José Ricardo Menacho
Professor da UNEMAT/Cáceres e Escritor
Autor dos livros: “O Plural do Diverso” e “Sarau”

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