11/05/2019 - 16:00

Por: Wilson Kishi / Zakinews

"Todo esse povão bonito traz serviço para eu fazer", conta Pedro Sapateiro


 

Wilson Kishi / Matéria Exclusiva Zakinews

   
Um sapateiro, hoje, trabalha exclusivamente para recuperar calçados de todos os tipos e restaurar artefatos de couro, como bolsas, chinelos, jaquetas e até bolas de futebol. Mas, algumas décadas atrás, uma sapataria chegou a ser uma verdadeira indústria de calçados, com grandes produções de modelos para estudantes e militares do Exército Brasileiro. Quem conta essa história é o sapateiro mais antigo de Cáceres.

   Trata-se de Pedro Quintino de Campos, 74 anos, e mais de 60 trabalhando como sapateiro. Quando serviu o 2º Batalhão de Fronteira, em 1964, trabalhou como sapateiro na Companhia. Hoje está estabelecido, há mais de 35 anos, na Rua Marechal Deodoro, nº 140, em sede própria, próximo ao Banco da Amazônia (BASA) e da saudosa União Operária Cacerense.

   Pedro conta que iniciou muito cedo a trabalhar como sapateiro. Seu início foi aos 13 anos de idade, quando seu pai o colocou para trabalhar na Sapataria Santana, de seu padrinho Francisco Santana, onde trabalhou a maior parte para fazer faxina. Pouco tempo depois, deixou o emprego e foi aprender de verdade a profissão, na sapataria do senhor Francisco Ponce da Silva (hoje Previ-Cáceres). Lembra que, naquele período, o BASA funcionava na esquina da rua Seis de Outubro com a General Osório.

   Durante a conversa, Pedro relembrou a sua infância e como era ao redor da sua residência. “Naquela época aqui, sem asfalto, tinha esgoto enorme seguindo em direção ao rio, chegou de subir jacaré de lá pra cá”, conta. De veículo, lembra do carro do senhor Antônio, que morava na esquina onde hoje é o Banco Itaú. Ele diz que a rua Marechal Deodoro tinha tanta gurizada que somente três famílias já enchiam a rua. “Só da família do seu Ponce tinham 10 guris, mais 10 do mestre Quintino e outros 10 do João Castrillon, outros tantos do Ovídio Garcia... era muito guri naquela época. E eu continuo aqui, um dos últimos dos moicanos”, relatou com olhar de saudades.

   Pedro é cacerense, nasceu na própria residência da família, no quarto ao lado da sua sapataria, assim como todos seus irmãos. A família era grande. Do casamento do seu pai, Quintino Antônio de Campos e Antônia Ferreira de Campos, foram nove filhos e mais um casal da primeira esposa do mestre Quintino. Pedro casou-se com Niceli Ramos de Campos (filha do alfaiate Obi Ramos), falecida há 10 anos. Com ela, teve duas filhas, Heloísa e Edilaine.

   Relembra os bons tempos do Humaitá, do Clube Mato Grosso, mas a saudade dos tempos da União Operária Cacerense, clube que ficava ao lado da sua casa, é maior. “O envolvimento dos sócios era muito grande. Quando tinha festa, era muito boa e comparecia muita gente, hoje é só lembrança”, disse.

   Voltando ao assunto da sapataria, Pedro Quintino diz que, na década de 60, as sapatarias eram consideradas uma verdadeira indústria. Vendiam-se muitas botinas para as fazendas da região e até para a Bolívia. “Tinham encomendas de 100, de 200 botinas ou até mais, principalmente para o país vizinho. E fabricavam muitas sandálias colegial para o colégio das irmãs (Colégio Imaculada Conceição)”, relembra. Entre os seus colegas de trabalho, Pedro cita Joaquinzinho, Juca, João Ferraz, Cardoso, Zé Mendes e João Marques. Dessa turma, só ele está em atividade como sapateiro.

   Pedro Quintino diz que sua profissão ainda dá para sobreviver, mas requer uma dedicação e comprometimento próprio. “O sapateiro hoje em dia, prefere trabalhar sozinho. Não temos condições de custear os encargos sociais de um empregado. Não aguentamos pagar, por isso, chego para trabalhar às seis da manhã e saio às seis da tarde. Não sou contra o direito do trabalhador, só não aguento pagar”, conta Pedro.

   Ele relata com orgulho que, mesmo com seis décadas de profissão, ainda tem muitos fregueses. “É difícil falar de uma pessoa que nunca veio aqui. A maioria do povo cacerense eu já fiz serviço. Todo esse povão bonito traz serviço para eu fazer”, disse. E, finalizando esta entrevista, eis que, entra uma senhora para deixar sua bolsa para reparo. “Aí, você viu? Mais um serviço chegando, e assim vou levando a vida”, finalizou Pedro.


Comentários: ( 9 ) cadastrados.
Por: Lurdes Amaral
Caceres
Sr Pedro pessoa educada e competente no trabalho. Muito bom dar espaço para pessoas boas .
13/06/2019 18:16:30

Por: Paulo Fanaia
Cuiabá
Parabéns Kishi pela matéria. Que bacana ver sr Pedro em plena .
12/05/2019 06:21:17

Por: Miguel Carlos Tadeu Atala
Cuiabá
PEDRO, grande amigo. Saudades de vc. Saudeeeeeeeee
12/05/2019 08:57:03

Por: Jose framcisco
Caceres
Faltou Siqueira, Papofime, maranhao, Dudi e muitos outros que nao lembro.
12/05/2019 08:58:14

Por: lukas henrique campos garcia
Cáceres-MT
parabéns vo sou eu seu neto preferido lukas.parabéns vo te amo.bjs
12/05/2019 11:37:46

Por: Olga
Cáceres
Parabéns Kishi pela revitalização da memória da cidade. Vamos continuar escrevendo!!!
12/05/2019 17:28:11

Por: Bruno h melo
Cuiaba
Seu Pedro meu sapateiro desde qdo eu ainda não tinha sapatos.. até hoje levo meus pisantes p arrumar em Cáceres.. bela homenagem kishi
13/05/2019 21:10:11

Por: Byanca Aniceto

Que bela matéria!!! Realmente não tem um só cidadão cacerense que não tenha entrado em seu estabelecimento para arrumar seja um sapato, bolsa e afins. Lhe desejo ainda mais saúde pra continuar nessa bela profissão.
14/05/2019 16:24:22

Por: Natalino
Cáceres
Nossa! Esse Pedro continua com a mesma cara, rsrsrsrs Muito legal vê-lo numa matéria de valorizaçao de um profissional competente e honesto.
15/05/2019 15:18:11

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